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Artigos Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026, 15:20 - A | A

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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026, 15h:20 - A | A

ANDREA ZATTAR

Os Jetsons, as plataformas digitais e a saúde do trabalhador

Alta tecnologia, baixa proteção

ANDREA MARIA ZATTAR

Durante décadas, Os Jetsons apresentaram uma imagem otimista do futuro. A tecnologia surgia como sinônimo de conforto, eficiência e redução do esforço humano. Videochamadas, casas inteligentes, comandos por voz e trabalho mediado por máquinas compunham um cotidiano leve, organizado e aparentemente justo. O progresso parecia ter um destino claro: facilitar a vida das pessoas.

Mas havia um detalhe revelador. Bastava uma falha para George Jetson ouvir o chefe gritar: “George, você precisa trabalhar mais rápido, ou não terá emprego!” Mesmo em um mundo automatizado, o trabalho já era atravessado pela ameaça da dispensa.

Nesse ponto, o desenho foi quase profético.

Muitas das tecnologias imaginadas se tornaram realidade. Plataformas digitais, inteligência artificial, automação, algoritmos e sistemas de gestão remota passaram a organizar grande parte da vida econômica e social.
O futuro chegou, mas não chegou para todos.

A tecnologia mudou a forma, não a lógica. A subordinação permanece, agora mediada por algoritmos. O futuro imaginado chegou sem o glamour das cidades suspensas ou carros voadores, mas com telas que tudo veem, métricas incessantes e automação do controle. Com elas, intensificaram-se novas formas de pressão e controle sobre o trabalho, com impactos diretos sobre a saúde do trabalhador.

Sessenta anos depois, a cena deixou de ser ficção. A diferença é que, agora, o chefe cabe no bolso. Ele se apresenta como algoritmo, painel de metas inalcançáveis e notificações constantes. A relação de trabalho passou a ser mediada por sistemas que monitoram, avaliam e cobram de forma permanente, sob o discurso da eficiência e da flexibilidade.

A promessa de liberdade virou monitoramento contínuo. Relatórios automáticos, rastreamento em tempo real e metas dinâmicas dissolvem as fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de descanso. O que antes era jornada delimitada converte-se em presença constante, ainda que invisível, mediada por sistemas que acompanham, registram e avaliam o trabalho em tempo real.

A organização do trabalho mediada por plataformas digitais passa a produzir efeitos que ultrapassam a esfera econômica e atingem diretamente a saúde do trabalhador.

Para os detentores do sistema, concentram-se dados, automação, escala e ganhos elevados. A simetria é desigual: a tecnologia serve à propriedade da plataforma, não ao trabalhador. Para quem executa o trabalho, restam quilômetros percorridos, pagamento fragmentado e exposição permanente ao risco. O motorista roda sem cessar para receber apenas uma fração do valor do serviço. O entregador enfrenta deslocamentos contínuos em ambientes adversos, tudo isso sob a narrativa de inovação e flexibilidade.

A tão sonhada tecnologia intensifica o trabalho braçal precarizado, com algoritmos que reduzem ganhos por “baixa performance” e ampliam os impactos sobre a saúde física e psíquica.

A Norma Regulamentadora nº 1 já reconhece que a proteção ao trabalhador não se limita a riscos físicos tradicionais, alcançando também os riscos psicossociais decorrentes da própria forma de organização do trabalho.

Ao exigir a identificação, avaliação e controle desses riscos, a norma impõe ao empregador o dever de reconhecer que metas abusivas, vigilância excessiva e gestão por pressão são fatores diretos de adoecimento. Ignorá-los, especialmente em ambientes mediados por tecnologia e algoritmos, não representa modernidade, mas violação normativa, com repercussões no campo da responsabilidade trabalhista e previdenciária.

O chamado empregador-algoritmo não opera fora do Direito. A automação não suspende garantias constitucionais nem autoriza retrocessos sociais. Quando a produtividade é construída por meio de violência institucional, o adoecimento psíquico deixa de ser exceção e passa a gerar responsabilidade jurídica.

Os Jetsons imaginaram um futuro altamente tecnológico, mas já revelavam que o ambiente de trabalho continuaria atravessado por controle, pressão e medo. O que mudou não foi a essência da exploração, mas a sofisticação dos instrumentos.

Temos máquinas cada vez mais avançadas, plataformas eficientes e tecnologia em ascensão, mas falta humanidade na forma como o trabalho é organizado e gerido. Sem equilíbrio entre inovação e dignidade, seguiremos produzindo eficiência às custas da saúde de quem trabalha. Viveremos um futuro que, ao contrário do desenho, não tem nada de animado.

(*) ANDREA MARIA ZATTAR é advogada trabalhista, previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; membro efetivo da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/MT, articulista e ativista em causas sociais.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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