Artigos Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011, 11:10 - A | A

Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011, 11h:10 - A | A

O relógio da Copa

Uma antiga lenda cuiabana diz que construir prédios em praças públicas traz má sorte. Como exemplo: a sede da atual Câmara de Vereadores, que foi construída no Campo D'Ourique... Após a inauguração do relógio, as coisas começaram a atrasar na Agecopa

GABRIEL NOVIS

Steffano Scarabottolo

Fazia a minha caminhada matinal e eis que, ao passar pela calçada de um prédio construído em uma Praça da Avenida Lavapés, senti a sua ausência.

É, senti falta dele: o relógio da Copa.

Ele não estava mais em cima do gramado em frente ao prédio que, diga-se de passagem, foi construído em local impróprio - uma praça.

Uma antiga lenda cuiabana diz que construir prédios em praças públicas traz má sorte. Como exemplo maior: a sede da atual Câmara de Vereadores, que foi construída no Campo D'Ourique.

A atual Secretaria Municipal de Saúde ocupa um prédio no Porto, onde, quando criança, joguei muito futebol com bola de seringa.

Os exemplos citados fazem jus à lenda. Talvez isto explique porque a escolha de uma praça foi o pior lugar para ser sede da Copa.

Lembro-me que, há sessenta dias, assisti à festa de inauguração do relógio, chamado de cronômetro pelos oradores do evento.

Acompanhei tudo pela televisão e pelos jornais. Sites espalharam a notícia do mais moderno e bonito marcador das obras, e do tempo que faltava para a Copa.

A foto histórica da diretoria da Agecopa – todos os seus membros com mandatos e poder – saiu estampada em todos os meios de comunicação.

Logo após a inauguração do relógio, as coisas começaram a atrasar na agência da bola.

A Agecopa, após meses de crises e muitas viagens internacionais para estudos de modernas tecnologias de mobilidade urbana em Portugal, um encontro na Inglaterra e uma viagem estratégica à Rússia para compras de armamentos para fiscalizar as nossas fronteiras, foi dissolvida pela Assembléia Legislativa em vinte e quatro horas.

Os mandatos dos diretores não foram respeitados, pois direito adquirido nunca foi o nosso forte.

A pergunta que corre em Cuiabá: por que tiraram o relógio, imprescindível para a transparência das obras da Copa, e fator motivacional aos desiludidos habitantes da ex-Cidade Verde, tão judiada ultimamente?

Falta de pagamento? A Copa não será mais realizada aqui? Onde foi parar o relógio da transparência?

Na padaria tem gente que jura ter visto esse instrumento sendo colocado em uma cidade do Nortão.

Desorientados com relação ao futuro da sede dos jogos e com o distanciamento da iniciativa privada, ganham os moradores de Cuiabá, por se verem livres da poluição visual daquele trambolho, e os motoristas, que eram prejudicados na sua visibilidade.

Perdem as rodinhas de conversa fiada, com um dos referenciais das boas piadas que surgiram nesses sessenta dias.

Ganha o órgão mais sensível do nosso organismo, que é o nosso bolso. De 30 mil reais para sete mil por mês, a nossa saúde melhorou e muito.

Perguntaram-me se, em troca das homenagens aos que contribuíram para o esporte de Mato Grosso, a exigência teria sido a retirada do relógio, que era a expressão visual do afundamento do futebol no Estado.

Não gosto desse tipo de brincadeiras. Agora, que ficou enigmático o lugar antes ocupado pelo relógio, isto lá ficou.

Em uma cidade temos as suas belezas e as suas mazelas.

Fiquemos com a alegria dos pássaros, as mangueiras carregadas de frutas, as flores exalando perfume, as cachoeiras, os rios e o fantástico fenômeno da piracema.

Perdemos a feiúra da invencionice dos sábios e uma florescente fonte de humor que é a alegria, o elixir da vida saudável.

Reloginho, diga para mim - o que houve e onde estás?

Quero um final feliz para esse drama escolhido, por quem nós escolhemos.

(*) GABRIEL NOVIS NEVES é médico e professor universitário fundador da UFMT. E-mail: borbon@terra.com.br

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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