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No crepúsculo da ditadura militar, nos anos de 1980, um grupo de intelectuais e repórteres cuiabanos encastelou-se numa antiga casa da Rua 13 de Junho e fundou a Cooperativa dos Jornalistas de Mato Grosso, para resistir ao regime. Ali também residia José Calixto de Alencar e funcionava a sucursal da Folha de São Paulo. Como reinava a camaradagem, correspondentes de outros jornais também utilizavam o pequeno escritório.
Era comum Nélson Severino, de O Globo, e Lúcio César Tadeu Pires, de O Estado de São Paulo, encaminharem seus despachos para as redações no Rio e em São Paulo, do telex mantido por Calixto (na época não existia internet). Aliás, aquele era um ponto freqüentado por jornalistas, por políticos de esquerda e por intelectuais da cidade.
| Marcos Raimundo |
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Em meio aos debates acalorados e as matérias críticas, rolavam ótimos churrascos e confraternizações. Era uma turma animada. Eles viviam numa alegre e descontraída célula de resistência à ditadura. Era o fim dos anos de chumbo e a abertura havia dado um refresco para a rapaziada. A figura mais divertida e emblemática era Lúcio Tadeu. Um sorocabano ingênuo e idealista que conjurou o destino certo de operário e saiu para o mundo à cata de emoção.
Texto brilhante, repórter arguto, mas doce e santamente irresponsável, Lúcio protagonizou passagens engraçadas e folclóricas. Tinha verdadeira aversão aos ditames do poder e gostava de viver descompromissadamente. Era um gentleman e, ao mesmo tempo, um conquistador. Casou quatro vezes e deixou o mundo como um pássaro solto e livre das amarras das convenções sociais. Lúcio foi um homem livre, no que há de mais poético nesta expressão.
A única vez que ele aceitou fazer assessoria de imprensa foi para o seu time do coração, o São Bento Futebol Clube de Sorocaba. Era uma espécie de consultor do todo poderoso comendador Alfredo Metidieri, patrono do clube e presidente da Federação Paulista de Futebol.
Na disputa do jogo que definiria o rebaixamento de um time para a segunda divisão do Paulista, entre o São Bento e o Velo Clube de Rio Claro, Metidieri mandou Lúcio para a beira do campo. A partida persistia num zero a zero modorrento e desanimador. Lá pelos 40 minutos do 2º tempo, o juiz aproximou-se de Lúcio e avisou:
- Tá tudo acertado com o comendador, mas fala pra alguém chegar na área pra eu poder marcar o pênalti... Pelo menos isso, tem que chegar na área pra eu poder marcar.
Lúcio mandou um jogador correr para a área adversária. Não deu outra, sem mais nem menos, o árbitro apitou a penalidade máxima.
O São Bento marcou o gol e livrou-se do rebaixamento. Lúcio foi o herói invisível daquela epopeia. Lúcio foi exatamente isto, um herói invisível de uma geração de jornalistas cuiabanos.
(*) PAULO LEITE é escritor, publicitário e jornalista e escreve para HiperNoticias às quartas e sextas.
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gilda balbino 06/06/2012
Que ótima lembrança vc nos trouxe dos companheiros Calixto e Lúcio Tadeu.Saudades.
1 comentários