| Mayke Toscano |
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Em quase 20 anos de atuação profissional na imprensa de Mato Grosso, fiz poucos amigos na política, fruto da relação entre jornalista e fonte. Cinco, ao todo - o que se conta nos dedos de uma só das mãos. Nico Baracat era um deles. Sua partida mutila parte de mim, faz sangrar meu coração.
Nico era deputado estadual de primeiro mandato pelo PMDB quando nos conhecemos. Eu iniciava minha carreira de repórter de política. A rigor, ele não era uma boa fonte no início. Aparentava estar ali no meio dos demais deputados de forma inadvertida. A mim me parecia que havia algo de simplório e ingênuo na sua atuação.
Aos poucos, contudo, percebi que a ingenuidade era minha. Não demorou para eu descobrir que Nico era um genuíno espécime da política de Várzea Grande - onde se aprende de berço a ler gestos e comportamentos, como num bom jogo de truco espanhol, antes das palavras. Que nem tudo que se diz, em política, é o que se faz. Que se precisa ter capacidade de ler o não dito, as entrelinhas, mais que o anunciado.
Herdeiro da notável Sarita Baracat e do Seo Caboclo, Nico tinha berço na política do contato direto, do pé de ouvido, e sabia como ninguém perceber e compreender o movimento da rua, dos campos de peladeiros, dos botequins onde os agentes políticos entronizavam suas estratégias, fazendo brotar do nada as notícias que só sairiam nos jornais um tempo depois. Quando saiam.
Para os que, acaso estejam me lendo nesse momento e possam me questionar por que, então, ele não era um político bem-sucedido, respondo: reavalie seu conceito de sucesso!
Para mim, e para o Nico, sucesso em política é defender o que se acredita com entusiasmo e devoção, com firmeza e coerência. Vencer uma eleição ou ocupar um cargo público não são, definitivamente, os principais fatores que se deve levar em conta para avaliar as virtudes de um homem público. Mas sim os métodos que ele utiliza e os princípios que o move.
Não sei dizer quando Nico deixou de ser fonte e virou amigo. Nunca tinha pensado nisso. A mim basta saber que de um dado momento em diante, falar com ele, ouvir sua opinião sobre política ou futebol, fazer uma troça com algum amigo em comum, marcar um chopp, pedir-lhe ou dar-lhe um conselho - essas coisas que habitam a relação entre amigos – já compunham a nossa rotina.
Nico foi um dos primeiros a ir nos visitar quando nasceu nosso primeiro filho. Por motivos mais culturais que religiosos, eu e minha mulher o escolhemos para padrinho do nosso filho caçula - e tivemos a alegria e a honra de ele ter aceitado. Na formação cultural que recebi, o padrinho é o segundo pai do afilhado, e assumirá as responsabilidades do pai na sua falta. Esse tipo de responsabilidade a gente só delega àqueles em quem confiamos plenamente e com quem temos laços de sangue ou outros ainda mais sólidos. Nico era, portanto, um irmão mais velho, às vezes mais novo, a quem eu confiaria a guarda do meu próprio filho.
Por ter convicção que, na minha falta, Nico lhe cuidaria e lhe ensinaria a viver com retidão e honestidade, a ser fraterno e solidário, a ter decência, a ser sincero, a ter respeito pelas pessoas, a ser simples, mesmo estando em posição importante.
E por uma razão muito simples: esses eram os valores do Nico, herdados de Dona Sarita e Seo Caboclo, repassados a Kalil e Emanuelly, compartidos com Fernando, Cleonice e tantos quantos tiveram a alegria de conviver com ele, na imensidão da sua simplicidade.
A história que conheço do Ernandy Maurício Baracat de Arruda, o meu amigo Nico, é a história de um homem extraordinariamente simples e encantador, alegre, perseverante e honrado. Que morreu trabalhando com a mesma dignidade que sempre pautou sua vida, servindo a um governo que ajudou a conquistar como militante aguerrido, prestando seus serviços à sociedade, acreditando que podia melhorar a vida das pessoas.
E é essa a memória que meu filho terá do melhor padrinho que pudemos lhe dar - mesmo o Nico não estando mais aqui para ampará-lo quando eu faltar. E quando essa hora chegar, rogo para que meus filhos tenham de mim o mesmo orgulho que tenho de ser amigo do nosso inesquecível Nico Baracat, amigo para sempre!
Em sua homenagem, transcrevo abaixo o poema Funeral Blues, do anglo-americano Wystan Hugh Auden, na versão do tradutor Nelson Ascher:
“Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante”.
(*) KLEBER LIMA é jornalista e Diretor Geral de HiperNoticias.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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Regina Céli Barroso Arruda 20/06/2012
Parabéns, Kleber, pela sensibilidade e delicadeza de palavras. Eu me ouvi falando cada palavra, relembrando cada momento que - por graça de Deus - pude dividir com ele. O menino que conheci, chegou na Assembléia em 95, calado, desconfiado, e demorei também a entender que ele estava só observando e avaliando com suas próprias opiniões - que ele sempre as tinha... Sobre tudo e todos. E aqueles que puderam conhece-las, hoje sofrem muito de saudades, por não poder mais desfrutar a companhia de uma figura tão genuína e especial. Um grande abraço.
anne miraglia 18/06/2012
PARABENS KLEBER,BRILHANTE SEU ARTIGO,TRATA-SE DE UMA PERDA IRREPARÁVEL,UM ABRAÇO E FORÇA,DEUS CUIDA DELE E DE NÓS.
Aroldo de Luna Cavalcanti 18/06/2012
Parabéns Cleber! Fez aquilo que todo mundo gostaria de fazer, se soubesse como fazer. Mandou bem amigo. Justa homenagem ao companheiro Nico Baracat. Parabénsssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss
Bonifacio do cai cai 18/06/2012
Não o conheci pessoalmente, mas a sua sensibilidade e carinho colocada no texto em homenagem ao seu amigo Nico nos faz acreditar que Mato Grosso perdeu um grande homem, meus pesames a todos os familiares.
Clarice Helena Navarro de Freitas Diório 18/06/2012
Uma homenagem sensível e que mostra o valor da amizade. Conheci pouco o Nico Baracat, em entrevistas feitas em Cáceres, recentemente. A impressão deixada foi de um homem competente e interessado no que fazia. Assim, como você, Kleber. Um abraço e força. Deus cuida dele e de nós. E com certeza o legado que ele deixa conforta aqueles que o amam.
carlinhos Faustino 18/06/2012
um grande amigo....
RODOLFO BORGES 18/06/2012
Kleber!!! Meus Parabens, pelo brilhante artigo, “perdemos um amigo de longa data, um companheiro de partido e de muitas lutas. Mato Grosso perde também um cidadão comprometido e dedicado com o desenvolvimento da sua terra e de sua gente. Neste momento de profunda tristeza nos resta é confortar a sua família, filhos e em especial a sua mãe, a companheira Sarita Baracat”.
Neila Barreto 18/06/2012
Lindíssima homenage. Bonito Texto. No entanto, a homenagem maior está no que foi pensado nas entrelinhas do texto. A fidelidade da amizade, o respeito ao cidadão, o carinho ao compadre e, o reconhecimento de que para ser sábio, necessariamente, não precisa ficar em evidências. Parabéns.
LAURO DA MATA 18/06/2012
Valeu Klebão...vc falou tudo o que é importante falar sobre o NICO. O conheci desde menino - como eu. Era o ano de 1981 e, em 1982, já fizemos campanha juntos pelo PMDB para D. Sarita (prefeita x Jaime Campos). Quando estudante, nos dias que o RU não abria, a gente já ia "filar" uma "boia" lá na casa grande e aberta da d. Sarita e aprender com todos eles, inclusive com o Nico com seu jeitão tranquilo e sincero - como vc tão bem descreve. Devo te-lo visto meio nervoso uma ou duas vezes, principalmente após ter sido convidado por ele para a assessoria jurídica na sua campanha junto com a Professora Zilda Leite (1996). Campanha difícil daquelas que o sujeito sabe que ganhar é improvável, mas que lutar é necessário. De todos que sabem que navegar é preciso, viver não é preciso. De todos que sabem que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Uma pena que ele não tenha voado no mesmo voo que fiz sexta-feira à tarde para Barra do Garças (em princípio estava agendada a sua ida conosco - eu o dep. Daltinho), mas ele acabou não indo e foi cumprir agenda do Governo no norte do Estado. Felicidades para vc e familia. À D. Sarita e todos de lá da grande casa aberta para todos nossa crença de que encontrarão forças para fazer esta difícil travessia, certamente uma das quadras mais marcantes de suas vidas.
Lane Costa 18/06/2012
Oi Kleber, há épocas que a sensação que temos é de contabilizar mais perdas (físicas) que em outras e, nestes momentos é importante externarmos nossos sentimentos, dizer o "vá em paz e até a próxima vez", porque de fato, os amigos queridos não morrem nunca, serão sempre lembrados (e encontrados) em nossos corações, causos e prosas... "É tão estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser, quando me lembro de você, que acabou indo embora, cedo demais (...) Vai com os anjos, vai em paz, Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade, até a próxima vez..."
Francisco Faiad 18/06/2012
Parabens, Kleber, pelo brilhante artigo, que retrata com fidelidade a atuação de Nico Baracat na política e em seu dia a dia. Trata-se de uma perda irreparavel
ADRIANE RANGEL 18/06/2012
Hoje cedo ao ver a matéria na TVCA do velório do Nico Baracat, uma pessoa me perguntou. O que o Kleber faz segurando o caixão do Nico? Com resposta na ponta da língua, eu já tinha certeza, conhecendo um pouco de vc respondi sem ao menos pestenejar: com certeza ele devia ser muito amigo do Nico, se não jamais estaria ali, pois, sei quem era o Nico e quem é o Kleber. A homenagem que li aqui, me deixou emocionada também admirava Nico mais de longe. Ao ler a homenagem, pude constatar o que eu havia dito horas antes estava correto, vocês foram muito amigos, eu imaginei na hora. um grande abraço Que Deus te conforte com essa grande perda de um amigo querido
Manoel F V Motta 18/06/2012
Essa imagem de uma pessoa gentil e generosa que vc expressa em sua homenagem é tambem a que guardamos em nossa memoria.
Maria Manhães 18/06/2012
Bonita homenagem Kleber, como todas a coisas que vem do coração!
glenda cury 18/06/2012
"Homem digno, perseverante e inteligentíssimo. Foi uma imensa honra trabalhar com Nico Baracat que, em algum momento, deixou de ser apenas nosso assessorado e passou a ser amigo. Com toda a sua simplicidade, ouvia nossas ponderações. Com toda a sua simplicidade, nos ensinava sobre política, gestão pública, valorização às pessoas. Ensinava sempre. Trabalhava sempre. E encontrava, sempre, motivos para sorrir e evidenciar que viver vale a pena".
Glenda Cury, Janã Pinheiro e Juliana Scardua
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