Artigos Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011, 16:18 - A | A

Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011, 16h:18 - A | A

Dia Nacional da Alfabetização

Que artistas populares nordestinos ficaram fora da escola não é novidade na cultura popular da região. Esses grandes talentos não terem frequentado os bancos escolares não foi impedimento para que, com criatividade, produzissem um trabalho notável.....

MANOEL MOTTA

Mayke Toscano / HiperNoticias

Que artistas populares nordestinos ficaram fora da escola não é novidade na cultura popular da região. Esses grandes talentos não terem frequentado os bancos escolares não foi impedimento para que, com criatividade e brilho, produzissem um trabalho notável e contribuíssem como poucos para a riqueza da cultura popular desse pais.

Artistas populares de baixa escolarização e de grande talento costituem uma imensa legião de poetas, músicos, artistas plásticos e artesãos. Destaco entre uma lista que poderia ser interminável os nomes de Patativa do Assaré (grande poeta das dores e amores do sertanejo), Luiz Gonzaga, Mestre Vitalino, João do Vale, Jackson do Pandeiro e Pinto de Monteiro.

A concepção do analfabeto como incapaz tem raízes no Brasil da segunda metade do século XIX, quando ainda no Império foi aprovada a primeira lei que restringia o voto do analfabeto. Medida essa que foi incluida em 1891 na primeira Constituição republicana. É bom lembrar que o primeiro censo feito no Brasil republicano registrava uma população de 70% de adultos analfabetos. Os que estavam nessa condição necessariamente ficavam de fora da possibilidade de participação nos poderes de Estado ,que eram escolhidos pelo voto.

Essa imensa massa de homens e mulheres considerados incapazes passa a ser tutelada pela elite letrada, formada basicamente por bacharéis em Direito e Médicos. Foram necessários cerca de 100 anos para que o direto ao voto fosse universalizado pela Constituiçaõ de 1988, que finalmente reconheceu o direto ao voto do cidadão e da cidadã que não são alfabetizados.

Esse entendimento do analfabeto como incapaz começa a mudar a partir da emergência dos movimentos de educação popular, que passa a compreendeer o analfabeto como um sujeito responsável pela geração de riquezas e possuidor de conhecimento e sabedoria que o caracterizaria como pessoa responsável pela sua própria vida e pelo seu destino.

Nessa perspectiva, o exemplo daqueles trabalhadores que, mesmo analfabetos ou semi alfabetizados, se tornaram mestres em seus ofícios. Ao longo de todo o século XX era comum encontrar mestres de obras, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, mecânicos e mais um sem-número de profissionais competentes que não tinham tido acesso a escola. Analfabetos muitas vezes sim, mas não incapazes, como pregava o ideário da elite letrada do século XIX.

Ainda que tenham conquistado o direito ao voto, permanece essa exdrúxula proibição que impede quem não é alfabetizado de ser votado. É espantoso que em pleno século XXI a sociedade continue considerado o analfabeto como “incapaz” politicamente. Como se o fato de não saber ler e escrever o tornasse incapaz de realizar uma leitura do mundo suficientemente crítica que não lhe permita tomar decisões de interesse público no parlamento.

Exemplo desse entendimento são as referências feitas ao deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, que como milhares de outros garotos nordestinos do seu tempo não teve acesso a escola. Quando teve, foi de forma precária, como milhões de crianças que têm origem no mesmo lugar social e econômico que o dele. Artista de circo, semi-analfabeto e dono de um talento capaz de mobilizar com sua criatividade aprendida e desenvolvida nos picadeiros da vida, mais de um milhão de eleitores e eleitoras do estado de maior desenvolvimento econômico do país.

É necessário que se tenha claro que não é o menor ou maior nível de escolarização que determina a consciência política de quem quer que seja. A consciência politica é fruto do entendimento que se vai construindo ao longo da vida, em torno de opções relacionadas com interesses econômicos,sociais e culturais. É esse mergulho no cotidiano da existência que vai forjando a consnciência política de homens e mulheres.

É importante, ainda que de fato não se tenha maiores efeitos práticos, ter uma data que marque a luta contra o analfabetismo. Em pleno início do século XXI, esse país ainda conta o número de adultos e jovens analfabetos em milhões. A vida de alguém que não domina a leitura e a escrita numa sociedade urbano-industrial, principalmente nas grandes metrópolis, é dura e marcada pela discriminação e pela exclusão. Espero que um dia todos e todas nesse país possam saber ler e escrever, possam dizer sua palavra sem exclusão e discriminação.

(*) MANOEL F. V. MOTTA é professor da UFMT e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. E-mail: mfvmotta@yahoo.com.br

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.

Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.

Siga-nos no TWITTER e acompanhe as notícias em primeira mão.

Comente esta notícia

Brás Rubson 15/11/2011

Belo texto do nosso mestre Manoel Motta.

1 comentários

1 de 1

Algo errado nesta matéria ?

Use este espaço apenas para a comunicação de erros