Artigos Segunda-feira, 11 de Abril de 2011, 07:59 - A | A

Segunda-feira, 11 de Abril de 2011, 07h:59 - A | A

De Columbine a Realengo

Sempre recebo com profunda tristeza, revolta e indignação as notícias sobre violências e crimes contra crianças. Tendo perdido uma filha em seus dez inocentes anos, para uma terrível doença, a leucemia, fico emocionado com fatos que envolvem crianças

ROMUALDO PESSOA CAMPOS FILHO

Sempre recebo com profunda tristeza, revolta e indignação as notícias sobre violências e crimes contra crianças. Tendo perdido uma filha em seus dez inocentes anos, para uma terrível doença, a leucemia, fico sempre emocionado com fatos que envolvem crianças em idades próximas a que minha filha tinha quando se foi. Eu estava preparando um texto sobre a crise na África, quando fui tomado de incontida emoção ao presenciar cenas terríveis, que martelam nossa consciência na repetição interminável da mídia. Até que outro fato catastrófico desvie a atenção para uma nova tragédia.
Ontem, quinta-feira, 7 de abril de 2011, pudemos assistir, impotentes, a notícias que falavam do massacre ocorrido no Rio de Janeiro, em uma escola no bairro de Realengo, quando um jovem de 24 anos, sem antecedentes criminais, executou mais de uma dezena de crianças. Friamente, e sendo seletivo na escolha de quem ele queria dar tiros fatais, as meninas, repetiu o mesmo comportamento de jovens assassinos em outros países, principalmente nos Estados Unidos.

O caso mais conhecido é o de Columbine, naquele país, por ter gerado um documentário, dirigido por Michael Moore (Tiros em Columbine), e ser transformado em roteiro de um filme do diretor Gus Van Sant (Elefánt). Mas existem outros casos com a mesma gravidade, nos EUA, na Alemanha e em outros países.

De imediato, a repulsa, indignação e perplexidade fazem com que muitos repitam uma palavra que expressa a incapacidade das pessoas de compreenderem atos de tamanha brutalidade: inexplicável!

É absurdo, nos revolta, mas não é inexplicável. Não há nada que aconteça em nossa vida que não tenha explicações. E não são somente biológicas, quando tentamos identificar algum grau de loucura naqueles que praticam tais atos. Quando alguns sobrevivem, seus advogados alegam insanidade, para livrá-los de penas adequadas. Mas, creio que as explicações para tamanha barbaridade podem, e devem ser buscadas no comportamento social que tem sido adotado pelas pessoas nas sociedades contemporâneas.

Ou, para melhor situar a lógica na compreensão de que somos sujeitos sociais, e, portanto, nosso comportamento está vinculado ao estilo de vida que construímos, as pessoas é que estão sendo forçadas a se enquadrarem na maneira como culturalmente a sociedade de consumo é organizada.

A sociopatia, já desponta como uma nova nomenclatura no ramo da psicologia, que vem a ser o “Transtorno de personalidade antissocial”. São vários os elementos que definem os indivíduos que possuem esse comportamento, e todos eles estão relacionados à maneira como um potencial sociopata se situa na sociedade. Principalmente, como decorrência de desajustes familiares e infâncias marcadas por traumas e dificuldades de entrosamento em algum grupo social. Levando essas pessoas ao isolamento, ao sentimento de fracasso, e ao acumulo de ressentimentos e revoltas que com o passar dos tempos transformam-se em desejos de vingança.

Esses comportamentos, embora tenham acompanhado a humanidade em seu processo de socialização, tem nos últimos anos se tornado mais comum, como decorrência da forma como nos estruturamos e pela maneira como vivemos nas cidades.

É na adolescência que todas esses problemas irão surgir, pela própria natureza desse período de vida em que vivemos, quando nossas emoções se intensificam e, principalmente, quando encontramos dificuldades em lidar com elas. Para superá-las, muito embora não consigamos controlá-las, temos necessidade de nos relacionarmos com o outro, e buscamos nesse momento o convívio com um grupo. Isso nos anima, nos liberta, e, às vezes, faz com que extrapolemos nessa condição. Esse é o momento em que um indivíduo se julga protegido e adota comportamentos muitas vezes opostos àqueles aos quais sua família está acostumada a verificar em seu cotidiano. A transgressão social torna-se muitas vezes uma prática “libertadora”, e corre o risco de transformar alguns atos em comportamentos criminosos, e a partir daí definir o caráter da pessoa.

Por outro lado, a ausência de um grupo que possa dar abrigo a um indivíduo, pode levá-lo ao isolamento, tornando-o presa fácil de atitudes intolerantes e preconceituosas de outros que precisam se destacar perante o grupo. Passamos então a conviver com uma realidade em que o outro, por não se adequar à maneira como os demais se organizam, torna-se alvo de atos agressivos e de menosprezo, quase sempre potencializando revoltas que podem explodir em momentos inesperados. Atualmente isso se denomina, em mais um anglicanismo: Bullying.

As vítimas principais desses comportamentos são pessoas que não se enquadram no perfil determinado pela cultura dominante. Tanto no aspecto visual, como também na capacidade de se afirmar como vitorioso, em uma sociedade que não aceita o fracasso.

Gordos, feios, magros, negros, pobres, homossexuais, pessoas com dificuldade de comunicação, tornam-se objetos de escárnios, porque não correspondem ao padrão que é exigido na sociedade moderna, globalizada, glamourizada pela mídia e retratada com toda crueza e realismo – dessa lógica – nas telenovelas que invadem os lares. Elas são mostradas como se expressassem uma realidade, mas não passam de realidades construídas dentro de uma lógica perversa que desmoraliza o outro, se este outro não atende ao perfil desejado.

Por outro lado, o radicalismo se incrusta em outro sentido, e vai ser encontrado no comportamento abjeto e intolerante daqueles que defendem valores religiosos extremistas, e que forçam a imposição de condições de vida retratadas em séculos, e até mesmo, em milênios passados. Impõem o seguimento de ensinamentos “sagrados” e transforma em “pecados”, ou indica como “infiéis” todos aqueles que não seguem os credos tidos como referenciais do estilo casto de vida. Os “impuros”, como dito na carta do criminoso sociopata de Realengo, não merecem viver.

E, como sempre, seguindo historicamente o que encontramos desde tempos mais remotos, passando pela antiguidade, agravando-se na Idade Média, e mantendo-se na modernidade, as mulheres tornam-se os alvos principais, juntamente com aqueles que adotam comportamentos alheios ao que se prega nos livros sagrados. São os fundamentalismos religiosos, que se espalham pelo mundo e justificam atos de barbaridades, em nome de Deus.

Por essa razão, as meninas tornaram-se os principais alvos do criminoso. Os tiros foram nitidamente seletivos, procurando-as dentro da lógica que o empurrou à cometer aquela barbárie, premeditada e devidamente documentada em sua carta, confusa e psicótica, mas reflexo de uma realidade na qual ele seguramente vivia.

O extremismo, a intolerância, o desrespeito ao outro, torna-se cada vez mais elementos que constroem nas sociedades modernas indivíduos que adotam comportamentos psicóticos. E explodem em sentimentos de revoltas aleatórios, quase sempre buscando reparar injustiças e humilhações cometidas em tempos passados, e que tenham gerado traumas e sensação reprimida de vingança não focada em determinado indivíduo, mas em grupos de indivíduos que representem uma espécie de retrato de sua condição passada.
O que assistimos com o massacre de Realengo, como de Columbine e tantos outros, é cruel, nos indigna e revolta, mas deveria nos alertar para o tipo de sociedade que o ser humano construiu. Num momento em que se discutem mais a degradação ambiental do que a degradação do ser humano, é fundamental rever determinados conceitos e partir imediatamente para reflexões mais profundas sobre o grau de intolerância que nos move indistintamente.

Quando provocados demonstramos afetos e carinho. A maioria das pessoas, seguramente, apesar de todas as angústias que caracterizam a vida moderna, são marcadas por sentimentos de bondade e solidariedade. Mas estão deixando de ser atos cotidianos e se manifestam quase sempre quando acontecem tragédias que impactam muitas vidas.

Contudo, o dia a dia das grandes cidades, em sua rotina estressante, tem sido marcado por um verdadeiro festival de intolerância, de rabugices, de intransigências e antipatias gratuitas. “Nunca te vi, sempre te odiei”, parece ser o lema que traça nossos caminhos nas vias urbanas das grandes cidades. Mas há uma lógica por trás de tudo isso, há a construção de um estilo de vida que serve a determinados interesses, consumistas, egoístas, gananciosos.

A religião pode ser um caminho para aliviar essas tensões e muitas vezes cumpre esse objetivo. Mas tem sido controlada pelos segmentos mais radicais, que pregam o caminho da intolerância e do desrespeito às escolhas dos outros. Ao invés de contribuir para amenizar os conflitos, os potencializam, e transformam alguns em implacáveis soldados de Deus, os que se julgam predestinados a limpar o mundo dos “impuros”.

Creio ser importante se fazer uma análise criteriosa, por parte dos especialistas em transtornos sociais, na carta deixada por esse criminoso. Ela não pode ser vista como palavras desconexas de um débil mental, mas pode, e deve ser um instrumento que possa ajudar a identificar como e porque um indivíduo comum pode ser capaz de praticar tamanha atrocidade.

Por fim, fica a indignação e a revolta pessoal. Tais fatos lamentáveis sempre têm como alvos crianças e adolescentes. Não bastasse toda a carga de tensão que impõem aos jovens a necessidade de tornarem-se vitoriosos numa sociedade altamente competitiva, sobre eles recaem também todas as frustrações de um mundo confuso, injusto e desigual. São mais frágeis e por isso tornam-se vítimas potenciais, tanto no cotidiano familiar, como em ambientes escolares. E são alvos dessas neuroses individuais ou coletivas.


Por todo o mundo o que se vê é parecido. Seja em caso de situações de guerras nos países mais pobres, quando as próprias crianças são forçadas a tornarem-se desde cedo combatentes, quando não se tornam marginais ou são traficados para saciar a volúpia sexual nos países ricos; como também nos países mais desenvolvidos, onde nesses o determinante são as neuroses que os obrigam a uma ferrenha disputa social, onde o fracasso torna-se um sentimento de frustração que destrói o indivíduo moralmente, e muitas vezes o transforma psicologicamente.

É preciso ter coragem de criticar o estilo de vida do mundo atual, e dizer que o sistema capitalista, tido como vitorioso no embate com o socialismo (eu diria, uma vitória de Pirro*), é o grande responsável por todas as mazelas que assistimos e vivemos. E há um enorme passivo em relação ao que de bom esse sistema construiu.

E, como já disse em outro texto neste blog, quando fiz uma crítica ao fundamentalismo ambiental (por não ver também naquele discurso uma crítica ao capitalismo) repito aqui a mesma frase: Se quisermos salvar o mundo, é preciso primeiro começar por salvar as pessoas.

(*) ROMUALDO PESSOA CAMPOS FILHO é professor de Geopolítica no Instituto de Estudos Sócioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA-UFG); Secretário Regional - SBPC/GO; e mantém o blog Gramática do Mundo

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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