Dados do comércio exterior do mês de junho, divulgados pela China e Brasil confirmam que a corrente de comércio (soma das exportações e importações) entre Brasil e China cresceu, impulsionada pelo aumento das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos aos dois países.
A China faz movimento geopolítico contrário ao dos americanos. Enquanto os EUA sobretaxam todos os países com medidas protecionistas contrárias ao livre comércio e ao desenvolvimento multilateral, a China faz uma trajetória contrária, aumentando a aproximação e intensificando o fluxo comercial com países de todos os continentes e aumenta sua participação no comércio global.
Informações divulgadas pelos dois países mostram que a corrente de comércio entre Brasil e China, entre janeiro e junho deste ano foi de U$ 108 bilhões, crescimento de 28% em relação ao mesmo período do ano passado. Em contrapartida, o fluxo comercial do Brasil com os Estados Unidos caiu 12% totalizando apenas U$ 36 bilhões no mesmo período.
As exportações de produtos brasileiros para a China aumentaram 32%, chegando a U$ 65 bilhões. As vendas brasileiras para os Estados Unidos, por sua vez, caíram 13%, somando U$ 17 bilhões.
As exportações da China para o Brasil totalizaram U$ 43 bilhões, expansão de 23%.
Já as vendas dos Estados Unidos ao Brasil foram de U$ 19 bilhões, representando queda de 12,5%. Enquanto o Brasil acumula um superávit de U$ 23 bilhões com a China, com os Estados Unidos tem déficit comercial de U$ 1,5 bilhão. Compramos mais dos EUA do que vendemos.
As evidências mostram que, sob o ponto de vista geopolítico, o governo de Donald Trump segue em direção oposta aos dois grandes objetivos pretendidos: recuperar espaço perdido para a China no comércio global e reindustrializar a economia americana, atraindo de volta as fábricas que migraram para a China, outros países asiáticos, México e Canadá.
Ao analisar a evolução recente do comércio mundial nota-se que a participação dos Estados Unidos foi reduzida enquanto a da China aumentou. As exportações da China cresceram 27% no primeiro semestre, impulsionadas pelo aumento das encomendas de semicondutores (chips), produtos de informática e carros elétricos.
No mesmo período, as exportações americanas cresceram apenas 15%. No entanto, as importações caíram 4%, impactadas pelo expressivo aumento das tarifas comerciais impostas a todos os países.
O Brasil já vinha, há algum tempo, desenvolvendo uma trajetória de intensificação da corrente comercial com a China com aumento da venda de commodities agropecuárias, metálicas e minerais, ao mesmo tempo que os chineses expandiam seus investimentos no Brasil nas áreas de infraestrutura (rodovias, aeroportos, energia elétrica) e indústria de carros elétricos. A política de aumento expressivo das tarifas comerciais determinadas pela administração americana apenas acelerou o ritmo do fluxo comercial entre os dois países, contribuindo para a China se tornar o maior parceiro comercial do Brasil.
O aumento das tarifas comerciais dos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras impostas no último dia 15 é uma segunda onda de sobretaxas. A primeira, em julho do ano passado, foi vencida após exaustivas negociações do governo brasileiro e empresariado nacional com o governo americano. As tarifas da segunda onda são ainda mais estapafúrdias que as primeiras. Não tiveram como objetivo corrigir distorções competitivas na relação comercial EUA/Brasil, pois essa relação sempre foi favorável aos americanos. Foram sanções, castigo. Impostas sem embasamento técnico ou comercial e com motivação exclusivamente político-ideológica. No entanto, a suspensão ou redução destas são bem mais difíceis. Exigem muita cautela, firmeza, serenidade e inteligência negocial dos empresários e do governo brasileiro.
Os efeitos macroeconômicos das sanções dos EUA serão próximo de zero. Mas causarão estragos em empresas e setores específicos que dependem muito das exportações da sua produção para o mercado americano.
O cenário mais provável é o governo federal manter abertos os canais de tratativas empresariais e diplomáticas mesmo sabendo que não renderão resultados imediatos. Simultaneamente, deve desenvolver, em conjunto com os setores empresariais mais afetados e suas entidades representativas, um programa de proteção produtiva com crédito, subvenções e concessões tributárias temporárias.
Nesse cenário, a administração federal deixará para intensificar negociações diplomáticas e empresariais após os resultados das eleições de outubro.
Conhecido o resultado da eleição presidencial, a liderança que emergirá das urnas contará com um poderoso ativo político para facilitar as negociações com o governo republicano dos Estados Unidos que também enfrentará eleições parlamentares em novembro próximo.
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