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Artigos Segunda-feira, 20 de Julho de 2026, 08:41 - A | A

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Segunda-feira, 20 de Julho de 2026, 08h:41 - A | A

ROSANA BARROS

Estelle Evans representou a resistência

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS

Nascida no dia 01 de outubro do ano de 1906, em Nassau, nas Bahamas, Estelle Rolle Evans dedicou a sua arte à representação. Era a filha mais velha de uma prole de dezoito filhos e filhas, e fez a passagem em 20 de julho do ano de 1985, em Nova Iorque.

Foi uma atriz que impingiu a humanidade nas personagens que lhes foram confiadas. Em uma indústria cinematográfica que, durante décadas, confinou mulheres negras a papéis estereotipados, sua presença em cena representou um gesto silencioso de resistência.

Construiu a sua carreira em um período marcado pela segregação racial, pela exclusão das mulheres negras dos espaços de prestígio e pela permanente tentativa de reduzir suas existências à invisibilidade. Ainda assim, recusou-se a transformar suas personagens em caricaturas. Cada interpretação carregava uma densidade humana que desafiava o olhar simplificador da sociedade.

Sua atuação como Calpurnia, em O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), talvez seja o exemplo mais emblemático dessa postura artística. Em um filme que aborda a desigualdade racial no sul dos Estados Unidos, Calpurnia poderia facilmente ser reduzida à figura convencional da empregada doméstica. Estelle Evans, entretanto, fez exatamente o contrário. Sua Calpurnia possui autoridade moral, inteligência, afeto e autonomia. Ela educa, aconselha, protege e, sobretudo, preserva a sua dignidade mesmo em uma sociedade organizada para negá-la.

Assim, a escrita de Lélia Gonzalez se torna indispensável para compreender a relevância dessa atriz. A filósofa e antropóloga brasileira denunciou que o racismo e o sexismo não atuam separadamente, produzindo uma forma específica de opressão dirigida às mulheres negras. Lélia Gonzalez, com a sua perspicácia, ensinou que a mulher negra foi historicamente aprisionada entre duas imagens igualmente desumanizadoras: a da "doméstica" e a da mulher hipersexualizada. Ambas negam sua plena condição de sujeito, e, ainda, impedem que seja percebida como produtora de cultura, pensamento e conhecimento.

Estelle Evans adquire um significado político profundo. Mesmo que interpretasse personagens inseridas em estruturas de desigualdade, recusava-se a representá-las como figuras destituídas de voz ou de consciência. Sua presença cênica revelava precisamente a humanidade integral das mulheres negras, ou seja, aquilo que o racismo procurava ocultar.

Há uma aproximação visível com a reflexão de bell hooks, pois, para a pensadora norte-americana, a representação cultural nunca é neutra. As imagens que circulam no cinema, na televisão e na literatura moldam a forma como uma sociedade aprende a enxergar determinados grupos. Quando artistas negros conquistam espaço para representar personagens complexas, alteram não apenas o entretenimento, mas também a imaginação coletiva.

De mais a mais, as mulheres negras sempre estiveram presentes na construção das democracias, embora frequentemente excluídas das narrativas oficiais. Sua invisibilidade não decorre da ausência de protagonismo histórico, mas da forma como a história foi escrita.

Embora Evans nunca tenha desfrutado do mesmo reconhecimento concedido a muitas estrelas de Hollywood, ajudou a abrir caminhos para gerações posteriores de atrizes negras. Seu legado não reside apenas em seus filmes, mas na transformação gradual da linguagem cinematográfica, que passou, ainda que lentamente, a admitir personagens negras dotadas de profundidade psicológica e centralidade narrativa.

Patricia Hill Collins dimensiona a discussão ao afirmar que o conhecimento produzido pelas mulheres negras nasce da experiência vivida e da resistência cotidiana. A arte, nesse sentido, converte-se em forma de conhecimento. Cada personagem interpretada com autenticidade rompe um pouco das estruturas simbólicas que sustentam o preconceito.

Tornar visíveis as trajetórias é uma prática de reparação histórica, evidenciando que a dignidade é revolucionária. As mulheres negras não devem ocupar papeis impostos pela discriminação. Sueli Carneiro foi precisa: “Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social”.

 

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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