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As Indústrias Mato-grossenses, no olhar de Virgílio Corrêa Filho Aspectos Industriais em Mato Grosso – parte II

Por: NEILA BARRETO

Divulgação

Neila Barreto

Continuando sobre as Indústrias em Mato Grosso, depois da Independência (1822) Luís D´Alincourt elaborou a monografia intitulada “Resultado dos Trabalhos e Indagações Estatísticas da Província de Mato Grosso”, onde descreveu a indústria açucareira assim constituída:

LOCAIS

ANOS

CANADAS DE AGUARDENTE

ARROBAS DE AÇÚCAR

MILHEIROS DE RAPADURAS

Cuiabá

1825-1827

40.707

22.359

556.000

Diamantino

1825-1827

  7.790

  2.950

132.000

Mato Grosso

1825-1827

 14.490

   9.228

284.000

TOTAL

        -

62.987

34.537

972.000

 

Segundo Corrêa Filho, os Engenhos existentes seriam maiores em terras cuiabanas, do que no de Vila Bela e, por conseguinte em Diamantino.

Em relatório de 13 de janeiro de 1852, Augusto Leverger, presidente da Província informava que o desenvolvimento da cultura da cana e a preparação dos seus produtos havia melhorado, apesar do desconhecimento das inovações em outras partes do mundo, em função dos impedimentos fluviais.

Com o aparecimento das moendas de ferro foi dado início à iniciativa industrial promovida pelo transito fluvial que proporcionou a fundação da primeira usina açucareira, por meio da navegação do Paraguai, pelas mãos de Francisco Antônio Pimenta Bueno, engenheiro incumbido pelo governo de pulsear, em 1879, a vida econômica da província. Até aquela época as moendas eram movidas a bois e algumas com força motriz, o que limitavam as safras de açúcar, rapadura e aguardente.

A franquia do Paraguai à navegação prolongada até a Capital mato-grossense, contribuiu sobremaneira para evitar maiores empreendimentos no planalto, cuja estrada deixaria de ser a via única de viajantes e mercadorias, do mesmo passo que intensamente canalizava para o Rio Abaixo os industriais progressistas. A partir de 1856 é aberta a navegação pelo Rio Paraguai e o comércio internacional passa a incluir Mato Grosso como mercado consumidor

Francisco Antônio Pimenta Bueno, em 1880 já informava a introdução da máquina a vapor na indústria açucareira, ser um serviço importante para Mato Grosso.

A Lei de 13 de Maio vibrou o golpe de misericórdia nos remanescentes da Chapada, onde predominava a escravaria, repentinamente emancipada, anulando a supremacia serrana, frente ao crescimento do Rio Abaixo, valorizada pelas usinas açucareiras em função de produzir para imediato consumo, somadas a usina de Ressaca, nas vizinhanças de Cáceres, no vale do Paraguai, de Santa Fé, no município de Poconé, Santo Antônio, Limitada, em Miranda, além das engenhocas agrupadas à beira do Cuiabá, cuja matéria prima advinham das canas Caiana, Salangor e outras variedades.

A expansão industrial da usina açucareira em Mato Grosso, a partir de 1880, impulsionada pela importação das máquinas a vapor iniciada no engenho da Conceição multiplicaram os estabelecimentos açucareiros ao longo do rio Cuiabá, de admirável centro de atividade industrial, especialmente entre maio e outubro, época de safras. Meses esses em que se avivava a população ribeirinha, em suas moendas insaciáveis, proporcionando o aparecimento no ambiente social o surto de nobre classe, a qual imitava o baronato feudal, em costumes, gestos e autoridades. Seus vassalos eram abrigados com proteção de quaisquer delinquências. Havia entre eles os capangas incumbidos de zelar pela vida do patrão, além de policiar os estabelecimentos açucareiros. Eram-lhes garantidos alimentação, não lhes eram permitidos ausentarem-se antes da quitação de suas dívidas, em geral crescente, onde a fuga era punida com castigos, aos moldes do trabalho hoje denominado de escravo no Brasil.

O apogeu de tal regime concretizou-se na Usina de Itaici, iniciada festivamente em 11 de junho de 1895, onde foi montado o mais possante conjunto mecânico entre quantos operavam no Rio Abaixo.

À época, dominava na política estadual, o situacionismo poncista, que a dissidência murtinhista resolveu destronar, amparada pelo governo federal cuja orientação financeira Joaquim Murtinho sustentou com saber e força, obtendo apoio do organizador do Itaici, Totó Paes, além da adesão de seus clientes e do seu núcleo populacional.

“O rompimento ocorrido entre o então senador Generoso Ponce e a poderosa família Murtinho culminou com episódios de luta armada e com o cerco da Assembleia Legislativa, levando à renúncia o então presidente estadual Cesário de Figueiredo. A liderança dos grupos armados foi assumida precisamente por Totó Paes, comandante da denominada “Legião Campos Sales”. A vitória no campo militar elevou o até então usineiro à condição de líder político, tornando-o o principal sustentáculo armado do governo de Antônio Pedro Alves de Barros, que, apesar da similitude do sobrenome, não era membro de sua família”. 

Em 1906, por fim, contribuiu para o desgaste a ruptura de Totó Paes com a família Murtinho. A aliança construída em 1899 foi aos poucos se deteriorando, e a perda de apoio político de personagens com expressivo trânsito junto ao governo federal, bem como o reatamento de relações dos Murtinho com Generoso Ponce fragilizaram sobremaneira a posição de Totó Paes.

A confluência desses fatores produziu o isolamento do presidente do estado, que foi agravado pela derrota nas eleições federais em 1906, revelando a fragilidade de sua base, a representação federal que o apoiava ficou extremamente reduzida. Em 1938, o “Anuário Açucareiro registrou, no Estado de Mato Grosso”, até 31 de dezembro de 1937, a existência de: 11 usinas açucareiras com turbinas e vácuos; 8 usinas só com turbinas; 80 engenhos de açúcar e rapadura, 77 engenhos, exclusivamente de aguardente, num total de 176 estabelecimentos ao todo. A respeito do capital investido por esses industriais chegou-se a 7.432:800$000, cujos dados descreve como incompletos, em função do anuário não ter recebido informações de alguns usineiros, destacando a existência das usinas: Aricá, Conceição, Flechas, Santo Antônio, Santo Antônio Limitada, São Benedito (Ex Itaici), São Miguel, Ressaca, Santa Fé, São Gonçalo e Taquaruçu. 

Conforme Corrêa Filho, depois de ascenderem progressivamente, as usinas decaem em suas produções motivadas por variadas situações. Dentre essas, destaca como sendo as principais decorrentes das perturbações advindas de tropelias policiais, as quais que contribuíram para desorganizar o trabalho rural, especialmente à beira do rio, em busca de devassas abusivas. Esses deixaram os estabelecimentos desfalcados dos principais usineiros que se encontravam hospedados no quartel da Força Policial em Cuiabá, refletindo inquietações entre patrões e camaradas, por conseguinte, com reflexo na produção final. Situação que foi agravando-se ainda mais com a Revolução de 1932, mediante a investida pelo General Bertholdo Klinger (1884-1969) que se mobilizou contra a Capital. Além disso, essa situação foi agravada pelo colapso nas lavouras, onde os lavradores tiveram que recorrer para substituição dos tipos usuais pela variedade da cana “Java”, uma vez que não havia institutos de créditos, a que pudessem recorrer os interessados idôneos para os melhoramentos em seus engenhos, bem como, o aparecimento do Instituto do Açúcar e do Álcool, que, de mais a mais, fixou as quotas de produção de cada fabricante. Era um fim anunciado à indústria açucareira em Mato Grosso.

 

(*) NEILA BARRETO SOUZA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotíciasE-mail: neila.barreto@hotmail.com  

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