Há uma pergunta que há décadas divide sociedades, domina eleições e alimenta paixões: afinal, um país prospera porque escolheu a direita ou a esquerda? A história demonstra que essa talvez seja a pergunta errada.
O verdadeiro divisor entre nações prósperas e nações fracassadas não está, em primeiro lugar, na ideologia de seus governantes, mas na qualidade moral de suas instituições e de seus cidadãos. Ideologias podem orientar políticas públicas e definir prioridades econômicas, mas nenhuma delas é capaz de produzir prosperidade quando serve de abrigo para a corrupção, o oportunismo e a falta de responsabilidade pública.
A filosofia política já compreendia essa realidade. Aristóteles ensinava que a finalidade da política é promover o bem comum e que nenhuma forma de governo permanece saudável quando seus governantes abandonam a virtude. Séculos depois, Montesquieu reforçou que leis e instituições só funcionam quando sustentadas pela virtude cívica. Em outras palavras, não basta possuir boas regras; é preciso que aqueles que exercem o poder sejam honestos.
A psicologia social explica por que tantas vezes a sociedade tolera desvios éticos. Quando a ideologia ocupa o lugar dos princípios, muitas pessoas deixam de julgar os atos pela honestidade e passam a julgá-los apenas pela identidade política de quem os pratica. O corrupto é defendido porque pertence ao "meu lado", enquanto o adversário é condenado por qualquer erro. Esse comportamento, conhecido como viés de confirmação, fortalece a polarização e enfraquece a capacidade de reconhecer a verdade.
A própria ciência política demonstra que a ideologia, isoladamente, não determina o sucesso de uma nação. Países de orientação mais liberal ou conservadora, como Singapura, Suíça e Nova Zelândia, destacam-se pela baixa corrupção e instituições sólidas. Ao mesmo tempo, governos de direita em países como Hungria, Guatemala e El Salvador enfrentam críticas relacionadas à corrupção, concentração de poder ou fragilidade institucional. O mesmo ocorre entre governos de esquerda. Enquanto Noruega, Suécia e Dinamarca figuram entre os países mais transparentes do mundo, Venezuela e Nicarágua mostram como corrupção, autoritarismo e enfraquecimento institucional podem conduzir uma nação ao declínio.
Esses exemplos deixam clara uma conclusão: a honestidade não possui lado ideológico. Ela depende do caráter das pessoas e da força das instituições.
É justamente nesse ponto que o debate político brasileiro costuma se perder. Muitos acreditam que basta substituir um governo de esquerda por um de direita, ou um governo de direita por um de esquerda, para que os problemas sejam resolvidos. Essa é uma ilusão perigosa.
Não se combate um governo desonesto com outro governo igualmente desonesto apenas porque a ideologia é diferente. Não se derrota a corrupção elegendo novos corruptos. Trocar apenas a bandeira ideológica, mantendo os mesmos vícios morais, significa apenas mudar os ocupantes do poder, preservando o mesmo sistema de privilégios e impunidade.
Platão já advertia que o maior perigo para uma cidade não era apenas a existência de maus governantes, mas a incapacidade do povo de distinguir aqueles que governam para servir daqueles que governam para servir-se do poder. Quando o eleitor escolhe apenas pela identidade ideológica, deixando em segundo plano o caráter, a competência e a honestidade, abre espaço para que oportunistas utilizem qualquer bandeira política como instrumento de enriquecimento pessoal.
Nenhuma ideologia transforma um corrupto em administrador honesto. Nenhum programa econômico substitui o caráter. Da mesma forma, nenhum país se torna desenvolvido sem cidadãos conscientes, bem informados e comprometidos com a ética. O estudo desenvolve pensamento crítico; a experiência fortalece o discernimento; e ambos reduzem o espaço para discursos vazios e promessas milagrosas.
A democracia amadurece quando a sociedade passa a valorizar mais a integridade do que o discurso, mais a competência do que a retórica e mais a honestidade do que a cor partidária. Antes de perguntar se um governo é de direita ou de esquerda, deveríamos perguntar se ele é honesto, respeita as instituições e administra o patrimônio público com responsabilidade.
Enquanto o eleitor aceitar substituir um corrupto por outro apenas porque veste uma camisa de cor diferente, continuará alimentando o mesmo sistema que diz combater. A verdadeira transformação política começa quando a honestidade deixa de ser uma qualidade desejável e passa a ser uma exigência inegociável da sociedade.
No fim, o verdadeiro antagonismo não é entre direita e esquerda. O verdadeiro antagonismo é entre honestidade e corrupção. Quando a ética se torna o principal critério de escolha, a ideologia volta ao seu devido lugar: um instrumento de gestão do Estado, e não um escudo para proteger desonestos.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
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