Na sexta temporada, que estreia nesta sexta-feira, 22, no Globoplay, Caio Barone (Selton Mello) recebe quatro novos pacientes cujos dilemas conversam diretamente com assuntos presentes no cotidiano: as consequências da hiperconectividade, as dores do luto, as pressões da maternidade e da juventude eterna.
Para Selton Mello, voltar ao divã depois de cinco anos - a quinta temporada, afinal, foi lançada em 2021 - é como voltar para casa. "É uma série que a gente ama fazer, eu não falo só por mim", diz, em entrevista ao Estadão, citando a roteirista Jaqueline Vargas, a diretora-assistente Vera Haddad e os fotógrafos Lílis Soares e Fábio Burtin. "São pessoas que gostam muito de fazer este trabalho, têm um amor muito grande. E essa é uma série concentrada, com somente dois atores em cena no estúdio, portanto conseguimos fazer com muita atenção e zelo."
Cada episódio da série, com a média de 25 minutos de duração, acompanha a sessão semanal de um paciente, e a estrutura fílmica é quase sempre a mesma: Caio, sentado em sua cadeira, ouve o paciente e o questiona ocasionalmente, incitando-o a compartilhar mais ou refletir sobre suas aflições. No meio do caminho, o público é convidado a, também, sentir as dores daquela pessoa tendo como âncora um único elemento: a palavra.
A cada semana são liberados cinco episódios. Quatro dedicados aos pacientes da temporada e o último dedicado ao próprio Caio, que agora faz sua supervisão com uma nova terapeuta, a implacável Rosa (Grace Passô).
Segundo o ator e diretor, sempre há um estudo para definir os temas principais de cada caso e como eles vão se desenvolver ao longo da temporada, mas nada disso é feito por uma pessoa só.
"É uma grande conversa para decidir. E tentamos trazer um pouco de tudo o que há no mundo para aquela sala", contextualiza Selton. "Os casos são bem diferentes entre si, mas ainda encontram conexão. O público acaba se identificando mais com um do que com o outro, ou então se vê mais na segunda-feira, mas encontra traços de sua própria personalidade no personagem da quinta-feira", exemplifica. "É uma série fascinante para quem faz e para quem assiste."
Segundo Selton, parte do mérito de uma série como Sessão de Terapia é ajudar a dissolver um tabu.
"O mundo foi ficando cada vez mais louco, mais duro, mais triste. Ainda teve pandemia. Todo mundo passou por isso e ninguém saiu ileso", analisa. "Então, esse assunto, que já foi um grande tabu e de que mal se falava, ou era carregado de preconceito, eu sinto que foi cada vez mais se dissolvendo. E, sem medo de errar ou de parecer cabotino, da minha parte, mas a série ajudou muito nisso."
Selton revela que, ao longo dos anos, viu muitas pessoas entenderem o que é a terapia após assistirem à série. "A terapia é um lugar de gente sã, que quer se conhecer, quer se organizar emocional e psicologicamente. E muitos terapeutas também são muito gratos pela série existir porque ela mostrou a seriedade do trabalho de um terapeuta e, mais do que isso, mostra como o terapeuta também tem sua vida própria, seus erros e suas fraturas."
Conheça, a seguir, quem são os novos pacientes da temporada e mais sobre a trama e os conflitos.
'É quase impossível ser mulher e não ser interpelada por essas questões; desde crianças, somos ensinadas a maternar'
Nesta temporada, Caio retoma os estudos e surge mais focado em seu autocuidado. Ele aceita, pela primeira vez, dar consultoria para outra profissional, Érica (Olivia Torres), mas acaba confundindo os sentimentos que nutre por ela - um drama que se soma ao luto que revisita quando ele descobre que sua irmã está grávida e ao fato de a própria Érica lidar com questões ligadas à pressão da maternidade.
Para Olívia, contracenar com Selton é quase um reencontro. Os dois estão no elenco de Ainda Estou Aqui, mas atuam em momentos diferentes do filme. Ela interpreta a versão adulta de Maria Beatriz, filha de Rubens Paiva, e só se encontrou com Selton na leitura do roteiro. Mesmo assim, ela conta que foi o filme que abriu as portas para sua presença na série.
"O especial foi ele ter me chamado para a série porque viu meu trabalho no filme", confidencia a atriz. "É muito massa trabalhar com o Selton porque ele é um colega muito generoso, e também um diretor muito específico."
Quando chega ao consultório de Caio, Érica acaba falando muito sobre os conflitos que sente em relação ao desejo, ou não desejo, de ser mãe. Aos 35 anos, a personagem reflete sobre o lugar da maternidade em sua vida profissional e as diferenças entre uma mulher decidir ser mãe e um homem decidir ser pai. Para a atriz, aos 31, o assunto também ecoa, mas de outras maneiras.
"Acho quase impossível ser mulher e não ser interpelada por essas questões em algum momento da vida. Desde crianças, somos ensinadas a maternar as bonecas, em filmes da Disney e, mais para frente, em conversas com amigas. Essa questão sempre volta atualizada para mim e eu acho tudo isso hipercomplexo. Agora, então, as pessoas estão sempre me perguntando se eu tenho vontade de ser mãe, e eu não sei responder a essa pergunta", desabafa.
Torres admite que conviver com Érica a fez pensar no assunto de muitas formas distintas. "Tenho 31 anos e digo que não tenho vontade; mas, aos 35, as coisas podem mudar. Ao mesmo tempo, acho injusto atrelar isso necessariamente só à idade. Tenho vontade de trabalhar muito antes de ser mãe, porque tenho a impressão de que, como atriz, as coisas mudariam muito", observa.
Para ela, a personagem é uma oportunidade de encarar assuntos que, de outra forma, talvez ficassem escanteados. "Foi loucura fazer a Érica porque eu tive que me debruçar em todas essas questões. Você vai abrindo tantas possibilidades de perguntas e de respostas que, talvez, o mais fascinante seja eu ter saído dessa personagem, terminado o meu processo nessa sexta temporada, com as mesmas perguntas. Tudo continua martelando, só que sempre de formas diferentes."
'Nunca tinha me colocado frágil dessa maneira diante das câmeras'
Alice Carvalho estreia em Sessão de Terapia com uma personagem que vive uma espécie de luto em vida. Morena busca auxílio em um momento de extrema fragilidade, pois cuida do pai, o homem que sempre foi sua fortaleza, quando ele começa a sofrer com doença de Alzheimer.
Para a atriz, o diferencial do papel é algo que Selton enxergou nela em 2024: "Querer me experimentar num lugar de vulnerabilidade. Todos os personagens sempre me colocam num estado de força, de rudeza, de algo muito visceral. Eu gosto de jogar com isso, mas ele queria o oposto, uma resposta às circunstâncias da vida que não fosse assim", comemora.
Alice explica que sempre busca trabalhar suas personagens a partir de um universo interno, e não foi diferente com Morena. "Foi inevitável não espelhar a minha figura paterna, que é meu avô, que hoje está com 73 anos", compartilha a atriz. "A pessoa mais importante da minha vida é meu pai, é meu herói, é o grande amor da minha vida, meu avô, à frente de tudo e de todo mundo, a primeira pessoa para quem eu dedico todas as minhas alegrias.
Segundo ela, além de ver seus próprios familiares na história de Morena, o papel também foi uma chance de ela mesma encarar temas muito delicados.
"Fui nesse caminho de olhar para a velhice que se aproxima das pessoas que me criaram. Encarar a morte, porque é um destino comum de todos nós, o mal irremediável, parafraseando Chicó personagem de Selton em O Auto da Compadecida. E isso foi muito importante para mim. Acho que resultou numa honestidade minha também. Eu nunca tinha me colocado frágil dessa maneira diante das câmeras, e fui encontrando uma dor que poderia separar da dor da personagem. Acho que não tem muito certo ou errado, tem a gente querendo fazer da cena algo que mova as pessoas. E eu desejo muito que isso aconteça."
'A velhice não é para fazer as coisas que você fazia quando era jovem'
Aos 67 anos, Paulo Gorgulho tem uma característica que o distancia de forma categórica de Ulisses, empresário que interpreta em Sessão de Terapia. Diferente do personagem, o ator não tem problema algum com o fato de envelhecer. E, pelo contrário, considera esta uma ótima fase da vida.
Mas o fato de não se ver mais como um jovem é o que leva o homem bem-sucedido, e solteiro convicto, ao consultório de Caio. Em suas consultas, ele divaga sobre a hipervalorização da juventude, os laços familiares rompidos e o que precisa ressignificar em sua vida para se sentir melhor consigo mesmo.
"O Ulisses representa um alerta para um monte de gente que se recusa a envelhecer, que deseja eternidade, a juventude, a qualquer preço", opina Paulo. "É tão bonito envelhecer, você passar por fases da vida e se contrapor diariamente a isso. É um personagem muito sensível. Talvez o medo da velhice seja uma incapacidade de aceitar e de encarar a transformação. A velhice não é para fazer as coisas que você fazia quando era jovem, é para fazer as coisas que são inerentes a um velho. Se você aceita essa transformação e a acolhe, fica tudo mais tranquilo."
Embora seja um personagem inédito na série, Ulisses é, na verdade, um paciente que retorna para as sessões com Caio após seis anos distante. Ele o faz por sugestão de seu médico, que vê a necessidade no momento em que Ulisses começa a sentir vontade de realizar diversos procedimentos estéticos.
"Isso começou com as mulheres, essa onda de preenchimentos, botox, e muita gente criticava. Agora, os homens aderiram", reflete Paulo. "Acredito que a série abre uma discussão muito bem-vinda nesse sentido. Eu não tenho nada contra, mas tenho visto muitos amigos e colegas fazendo uma tal de harmonização, e isso é uma aberração. As pessoas ficam monstruosas. É preciso se lembrar de um ditado do meu pai mineiro, velho, antigo. Ele falava que a virtude está no meio. Nem na falta, nem no excesso. Não há problema nenhum você fazer nada, desde que você não se perca, não exagere."
'Tenho que me lembrar de que também há outras coisas, além do profissional, que significam ter sucesso'
A personagem de Bella Camero, Ingrid, é definitivamente a mais intensa entre as novas pacientes. Jovem ambiciosa que trabalha no mercado financeiro, ela está em busca incessante de sucesso e reconhecimento, enquanto se vê cada vez mais próxima de um colapso.
Embora a realidade do mercado financeiro de Ingrid seja algo específico da profissão da personagem, os elementos que a transformam em alguém tão intensa são praticamente universais.
Seu grande dilema, a busca por sucesso profissional atrelado à execução de uma performance, é algo que se identifica facilmente nas redes sociais, e um dos problemas mais urgentes da era da hiperconectividade.
Para a atriz, tudo o que a personagem vive é extremamente atual. "A Ingrid é mais nova que eu. Ela tem 20 e poucos, eu tenho 33. E ela demonstra uma ideia de que o seu ápice é aos 30, e depois é o resto. Ela deixa muito marcado que a hora dela é agora, e acho que crescemos muito com isso", pontua.
Destaque em projetos como Lov3 (2022), Marighella (2021) e no novo podcast do Porta dos Fundos, Ela é Pior Que Eu, Bella diz que é difícil não praticar essa comparação constante, da qual Ingrid é vítima, enquanto atriz.
"Às vezes você está trabalhando muito, às vezes você não está, às vezes você vê amigos que são talentosíssimos e não tiveram espaço", exemplifica. "Várias vezes eu tenho que me lembrar de que também há outras coisas, além do profissional, que significam ter sucesso."
Segundo ela, tudo isso a ajudou até mesmo a compreender melhor as inquietações de Ingrid, e trazê-las para a vida real de maneira saudável.
"Além de o mundo exigir produtividade, a gente se compara muito com outras pessoas da nossa idade, da nossa profissão. Não foi tão difícil entender isso da Ingrid, porque ela tem isso muito mais. O mercado financeiro, acho que tem muito isso, principalmente porque as pessoas se destroem muito. E ela, pessoalmente, tem esse pensamento também", reflete.
"Todo mundo que já passou por isso, ainda mais nessa idade de vinte e poucos, se coloca nessa condição. Você acha que já vai ter filhos e família, ou que já vai estar rico e podendo trabalhar menos... Sempre fico pensando nisso. O que é ter sucesso? E por que tem uma idade para isso?"
(Com Agência Estado)
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