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40 anos de Cabeça Dinossauro, dos titãs: 'ninguém toca essas músicas como nós'

CONTEÚDO ESTADÃO
da Redação

Em um estúdio em São Paulo, o músico Sérgio Britto ensaia com Branco Mello e Tony Bellotto, seus companheiros de Titãs, para a turnê Titãs - Cabeça Dinossauro 40 anos, que estreia neste sábado, 28, no Espaço Unimed, e passará por Belo Horizonte (25/4), Rio (9/5) e Curitiba (18/7).

Durante a sessão, Britto pede que o baterista Mário Fabre se aproxime ao máximo da gravação original de Cabeça Dinossauro. "Não quero que pareça uma nova versão", afirma, antes de repetir a música.

Quatro décadas depois do lançamento, os três músicos que levam adiante a banda revisitam no palco o álbum que gravaram com seus ex-companheiros, Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, Nando Reis, Charles Gavin e Marcelo Fromer (1961-2001) em 1986. O show será dividido em dois atos. No primeiro, o trio tocará as 13 faixas na sequência que foram lançadas no disco. No segundo, outras 11 que dialogam com a temática sonora e contestadora do Cabeça, entre elas, Eu Não Aguento, Lugar Nenhum e Anjo Exterminador. A direção é de Otávio Juliano, o mesmo da turnê Encontro que, entre 2023 e 2024, reuniu novamente os oito titãs no palco.

"Sinceramente, ninguém toca essas músicas como nós, com esse espírito. Tocar o simples de uma maneira séria, com cuidado no detalhe, com a intenção sempre certa. Preservamos a estética da banda", analisa Britto, ao ser questionado pelo Estadão sobre como é estar novamente tão fielmente perto do álbum, mas sem os demais criadores dele. "Arnaldo saiu há três décadas; Nando há duas", pontua.

Marco na trajetória dos Titãs e do rock nacional, Cabeça Dinossauro é o terceiro álbum de carreira do grupo. Para os fãs que experimentavam um clima ainda incerto depois da abertura política no Brasil, o álbum é literalmente um grito por liberdade e contra a hipocrisia dos panças de mamute da sociedade brasileira.

Para a banda, a motivação era, principalmente, sonora. Eles queriam expressar em estúdio o que eram no palco: oito jovens caóticos e explosivos. Um contrate com rock meio água com açúcar que começava a se aproximar do cenário musical brasileiro. Nada intencional, de acordo com eles. "Não é um disco contra nada e nem contra ninguém", afirma Britto. O hit do grupo até aquele momento, Sonífera Ilha, do LP de estreia, Titãs (1984), levava o carimbo de pop brega. "Havia uma certa confusão se éramos pop, new wave, brega ou punk. Tudo se clareou", diz Mello.

Em uma reportagem do Estadão de 1986, para o lançamento de Cabeça, Bellotto afirmou que os Titãs queriam uma banda "menos popzinha". "Que sacanagem!", reage o músico, agora, com humor, ao ser lembrado da declaração. Ele credita a divergência entre show e estúdio à inexperiência. "Acontece com toda banda de rock".

Nessa questão de sonoridade, o Cabeça - que teve direção artística de Liminha, o cara do rock brasileiro, que havia sido baixista de Os Mutantes - chegou ao mercado mais "ácido e ardido, com vocabulário próprio", nas palavras de Britto. Naquele ano de 1986, de ouro para o BRock, para ficar em dois exemplos mais significativos, Os Paralamas do Sucesso lançaram Selvagem?, explorando o reggae e os ritmos brasileiros, e o Legião Urbana veio com Dois, com faixas como Eduardo e Mônica e Quase Sem Querer.

Um repertório contestador

Para o discurso do Cabeça, os Titãs tinham motivações especialmente pessoais. Em novembro de 1985, Bellotto foi preso em São Paulo por porte de heroína. Talvez também por inocência, entregou Arnaldo Antunes. A faixa Polícia, inevitavelmente, ficou colada a esse fato. Polícia, Igreja e Homem Primata eram diretas na mensagem, sem metáforas, contra o estado violento, as instituições e o capitalismo.

Bellotto, que define os dias de prisão como "um trauma inegável", explica que Polícia, composição dele, tem leituras diversas, mas o alvo era o abuso de poder, segundo ele, um resquício da ditadura. "Mas também é um crítica à legislação, que a polícia tem que obedecer porque é a lei. São camadas mais profundas", diz.

Com a censura ainda em vigor na época, a vítima foi Bichos Escrotos, proibida de tocar nas rádios e na TV. Um documento disponível no site do SIAN (Sistema de Informações do Arquivo Nacional) justifica o veto dos censores: "A versão analisada deixa vazar em seu discurso um sentimento de pessimismo, ao mesmo tempo que projeta uma imagem escatológica da realidade".

"Como se não houvesse motivos para sermos pessimistas em 1986", reage Bellotto, que não conhecia o documento mostrado a ele pela reportagem. "É chocante pensar que o trabalho de um artista era submetido a uma avaliação tão primária e grosseira", completa Britto.

A implicância maior dos bedéis da censura era com a expressão "Vão se f..." contida na letra. "O palavrão é apenas uma força de expressão, para dizer algo com mais ênfase. Isso é óbvio. Fazemos isso no dia a dia. Está na literatura há séculos", justifica Britto. "É uma canção adorada pelas crianças", comenta Mello.

Igreja, de versos polêmicos como "Eu não gosto de padre/Eu não gosto de madre/Eu não gosto de frei/Eu não gosto de bispo/Eu não gosto de Cristo", mexeu com outra forte instituição brasileira. Grupos religiosos se manifestaram. Em uma rádio no Rio de Janeiro, eles presenciaram um ajuntamento de curiosos e questionadores.

Aos Estadão, em 1986, cada membro do grupo se manifestou de uma forma. Nando Reis disse não acreditar em Deus. Arnaldo Antunes afirmou que rezava. E Britto que "a maioria das pessoas beatas são falsas na sua beatitude". Ele não mudou de opinião. Para o músico, que estudou em colégio de padre, há muitos "falsos moralistas, mas também pessoas que exercem a fé de maneira bonita e forte".

Como na música, Britto defende a soberania de se ter uma visão sobre o assunto. "Ela é precisa. Estávamos focados em dizer as coisas de forma mais seca. É ele (personagem) que não gosta de padre, de igreja etc. É a liberdade dele em não gostar".

Todos em plena forma

Para Britto, Mello e Bellotto, Cabeça Dinossauro é uma quarentão atual, em plena forma. "Parece que o disco foi gravado hoje, não é datado. E isso não foi premeditado na época. Tivemos cuidado com as canções", avalia Bellotto.

No palco, eles estarão acompanhados pelos músicos Mário Fabre (bateria) e Beto Lee (guitarra), além de Alexandre de Orio, que assumiu as funções de Bellotto na banda quando o titã foi diagnosticado com câncer de pâncreas, há cerca de um ano, e também vai tocar guitarra.

Tony Belotto fala sobre câncer

Durante a entrevista e o início do ensaio acompanhado pelo Estadão, Bellotto se mostrou muito bem disposto. Com um diagnóstico grave, ele passou por tratamento de quimioterapia e uma cirurgia que define como "grande e invasiva", mas bem-sucedida. No momento, o músico está em período de acompanhamento. "Me recuso a pensar na ideia de que estou curado. É preciso esperar bons anos para afirmar isso. Mas estou vivendo da melhor maneira possível, sem nenhuma dor ou limitação. Estou me sentindo bem mesmo", diz.

Um dos medicamentos usados na quimioterapia deixou como sequela uma neuropatia que causava dormência nas plantas dos pés e nas pontas dos dedos das duas mãos do músico, mas principalmente na direita, na qual ele usa a palheta para tocar a guitarra. A falta de sensibilidade fazia com que o acessório caísse de sua mão.

Quando voltou aos palcos, em 2025, para se adaptar, Bellotto começou a usar uma palheta muito utilizada por músicos de choro e sertanejo, acoplada ao polegar, como um anel. Atualmente, com fisioterapia e muito treino em casa, ele afirma que conseguiu reaver a força nos dedos, o que lhe permite tocar normalmente.

Para definir o aprendizado que a doença deixou em sua vida, Bellotto pega emprestada uma frase da atriz Jane Fonda, que em 2022 anunciou que enfrentou um linfoma não Hodgkin, tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático. "Como uma senhora muito sábia e combativa que é, Jane disse que o câncer é um professor. Ela tem razão. Desde que recebi o diagnóstico, mantive uma reação positiva e não dramática de encarar a doença com o maior pragmatismo possível. Enfrento com coragem e dignidade".

Titãs - 40 anos de Cabeça Dinossauro em São Paulo

- Dia 28/3, 21h.
- Espaço Unimed. R. Tagipuru, 795, Barra Funda.
- R$ 178/R$ 365.

(Com Agência Estado)

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