Várzea Grande chega aos 159 anos de fundação em meio a intensas movimentações nos Poderes Executivo e Legislativo, marcadas por decisões judiciais e investigações que remetem a ciclos anteriores de instabilidade política. Na véspera da celebração, o plenário da Câmara Municipal tornou-se palco de uma disputa sob clima de tensão.
Dezenas de moradores lotaram o Legislativo para acompanhar a eleição da nova Mesa Diretora, que resultou na recondução do vereador Wanderley Cerqueira (MDB) à presidência por mais um biênio. O placar apertado, de 12 votos a 11, evidenciou a divisão entre a base da prefeita Flávia Moretti (PL) e a oposição. O desfecho é apenas o capítulo mais recente de uma crise política que se arrasta desde o início de 2026.
Nos últimos meses, o município assistiu à renúncia do vice-prefeito Tião da Zaeli (PL), ao surgimento de um escândalo de escutas clandestinas em gabinetes, ao vazamento de áudios atribuídos à prefeita com supostas menções a propinas, à abertura de inquérito por suspeitas de peculato e fraude no Departamento de Água e Esgoto (DAE/VG), além de investigações do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) sobre a Câmara.
Enquanto isso, a população — superior a 300 mil habitantes, segundo o IBGE — convive com indicadores críticos de infraestrutura. Várzea Grande ocupa a 97ª posição no Ranking do Saneamento entre as 100 maiores cidades do país, com investimento de R$ 47,40 por habitante, menos de 20% do necessário para universalização dos serviços.
Moradora do bairro Canelas e estudante de jornalismo, Camila Brenda Alves, 27 anos, afirma que o cenário político é acompanhado com desgaste e sensação de falta de diálogo.
“É como se eles estivessem brigando o tempo inteiro. Não há um diálogo real entre prefeita e vereadores. Passa uma ideia de bagunça. Houve muitas trocas de secretários e de pessoas, além do comum de uma transição de governo”, avalia.
A HERANÇA DE 2011
O cenário político de 2011 em Várzea Grande ficou marcado por um período de “paralisia”, após o então prefeito Murilo Domingos enfrentar sucessivos afastamentos judiciais por improbidade administrativa, acusado de usar a máquina pública para beneficiar empresa da família.
O deputado estadual Júlio Campos (União Brasil), ex-prefeito do município entre 1973 e 1977, relembrou o período em coletiva nesta quarta-feira (13).
“O Murilo Domingos teve um problema sério de administração, mas era um cara do povo, bondoso, de contato. Lamentavelmente, houve atrito com o vice, que conseguiu articular com a Câmara a cassação”, declarou.
Entre afastamentos e retornos, três lideranças governaram o município em menos de um ano: Murilo Domingos, o vice Tião da Zaeli e o então presidente da Câmara, João Madureira. O desgaste entre prefeito e vice já era evidente — um padrão que se repetiria quinze anos depois.
A cassação definitiva de Murilo ocorreu em outubro de 2011. Tião assumiu, mas também renunciaria no ano seguinte, após novo período de turbulência e trocas constantes no secretariado.
Para a população, a instabilidade se refletia em serviços precários e até em apelidos pejorativos, como “Murilo Dormindo”. O impacto foi direto na infraestrutura: em 2010 e 2011, Várzea Grande figurou entre os piores municípios do país em investimentos em saneamento, ocupando as posições 93ª e 90ª no ranking nacional, segundo o Instituto Trata Brasil.
2026 E O CICLO DA INSTABILIDADE
No dia 31 de março, a leitura da carta de renúncia de Tião da Zaeli na Câmara trouxe de volta a memória de 2011, como um “déjà vu” político. O empresário justificou a decisão alegando que a prefeita Flávia Moretti teria abandonado promessas de campanha e aberto espaço para adversários históricos.
“Quando não há alinhamento de ideias, permanecer deixa de ser compromisso e passa a ser conivência”, afirmou.
A ausência da prefeita e de membros do primeiro escalão no ato simbolizou o distanciamento entre ambos.
Na sequência, um escândalo de espionagem envolvendo Prefeitura e Câmara ampliou a crise. Áudios atribuídos à prefeita sugeriam a existência de um esquema de financiamento de apoio parlamentar, com menções a vereadores que teriam “medo de perder o pacuzinho do Wanderley”.
Em 16 de abril, Moretti apresentou um dispositivo encontrado em sua mesa que supostamente captava conversas. Um inquérito foi aberto na Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor).
“Eu desconheço ter falado algumas palavras atribuídas a mim. Estou tranquila”, declarou.
Pouco depois, o líder do governo na Câmara, Bruno Rios (PL), também encontrou uma escuta em seu gabinete. O caso foi levado ao Ministério Público e à perícia técnica.
A Polícia Civil chegou a programar uma varredura na Câmara, mas suspendeu a ação após vazamento da operação.
No campo judicial, o desembargador Orlando de Almeida Perri (TJMT) autorizou a abertura de inquérito contra a prefeita por suspeitas de peculato, fraude administrativa e manipulação de sistemas no DAE/VG. A decisão atendeu a pedido do Ministério Público, via Núcleo de Ações de Competência Originária (NACO).
A investigação teve origem em auditoria do perito Luiz Felipe Camargo de Pereira, contratado pelo próprio DAE, que apontou inconsistências como divergências em backups, dados de faturamento e registros de corte e religação de água. Há indícios de “religações fantasmas”, que poderiam justificar pagamentos indevidos a servidores.
Em meio à crise, o presidente do DAE, vereador licenciado Rogerinho Dakar (PSDB), pediu afastamento temporário.
Paralelamente, o TCE-MT abriu investigação sobre possíveis irregularidades na Câmara, incluindo obras, gestão de pessoal, transparência e gastos com publicidade.
A CRISE POR TRÁS DA ELEIÇÃO
Na véspera da eleição da Mesa Diretora, uma denúncia anônima ao Gaeco acusou Wanderley Cerqueira e outros 11 vereadores de crimes como ameaça, extorsão, chantagem e corrupção. Segundo o documento, o grupo estaria reunido em uma chácara no distrito da Guia para articular votos.
“O plano é forçar a cassação da prefeita para assumir o controle do município e acessar a privatização do DAE”, dizia trecho da denúncia.
A assessoria de Wanderley informou que não havia sido oficialmente notificada.
A eleição chegou a ser suspensa por liminar, mas foi liberada na noite de 13 de maio pela desembargadora Vandymara Zanolo. No dia seguinte, com galerias lotadas, os 23 vereadores votaram e o placar de 12 a 11 reconduziu Cerqueira à presidência para o biênio 2026-2028.
Após o resultado, Moretti foi à Deccor denunciar um decreto que autorizava crédito suplementar de R$ 215 mil para a Câmara.
“Ele ganhou por um, não por unanimidade. Conseguimos construir uma base forte. É um avanço para a governabilidade”, afirmou.
Para além das disputas políticas, a população acompanha o cenário com ceticismo. Camila Brenda Alves de Almeida aponta que os problemas estruturais refletem a falta de continuidade administrativa.
“As políticas públicas impactam tudo: da passagem que eu pago sendo estudante às ruas esburacadas, UBS e UPAs precárias. Ficamos um tempo sem coleta de lixo por falta de pagamento”, relata.
Sobre soluções, ela é direta:
“O problema da água existe há anos. Não precisa ser especialista para saber que há muita tubulação velha”, conclui.
UMA CIDADE QUE MIRA O PROGRESSO
Em meio ao cenário de instabilidade política, a gestão municipal encampa um discurso de reconstrução administrativa e avanço em áreas estruturais, com foco na superação de problemas históricos.
A prefeita Flávia Moretti (PL) afirma que assumiu o município com deficiências acumuladas ao longo de décadas e que a atual gestão trabalha a partir de um diagnóstico técnico para reorganizar prioridades e dar início a mudanças consideradas estruturantes.
“Encontramos uma cidade com muitos problemas acumulados há décadas. Várzea Grande sofre com deficiência histórica em saneamento, pavimentação, drenagem, saúde e organização administrativa. Não adiantava maquiar a realidade. Era preciso reconhecer o tamanho dos desafios para começar a resolver”, declarou.
Entre os principais projetos, a gestão destaca a viabilização do novo Hospital e Maternidade Municipal, com investimento superior a R$ 100 milhões. Paralelamente, aposta na localização estratégica do município — próximo à capital e com acesso à malha aeroportuária e industrial — como vetor para atração de novos investimentos e geração de empregos.
Segundo a prefeita, as ações já começam a ter reflexos no cotidiano da população.
“A população já começa a perceber uma prefeitura mais presente nas ruas e com obras saindo do papel”, afirmou.
A administração também tem adotado medidas voltadas à modernização da máquina pública, com revisão de contratos e foco na eficiência da gestão.
“A máquina pública precisa servir ao cidadão. Modernizar é tornar a gestão mais ágil, responsável e presente”, disse.
Com planejamento e ações em andamento, a gestão projeta criar bases mais sólidas para enfrentar gargalos históricos e conduzir Várzea Grande a um novo ciclo de desenvolvimento, em um momento em que a cidade revisita sua própria trajetória.
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