Outros conflitos surgiram na região, e acordos de cessar-fogo frágeis carregam as marcas de ataques persistentes. Tanto israelenses quanto palestinos estão desgastados pela pressão.
O destino de mais de 2 milhões de palestinos em Gaza, em sua maioria deslocados e vivendo em meio às ruínas, permanece incerto. As forças israelenses controlavam mais da metade do território sob o cessar-fogo que entrou em vigor em 10 de outubro, mas o governo de Israel ampliou essa área e afirma que pretende manter 70% do território.
Todos os reféns ou restos mortais das vítimas do ataque de 7 de outubro de 2023 já foram libertados ou entregues pelo grupo terrorista. Sobreviventes relataram fome prolongada, abusos físicos e psicológicos e, em alguns casos, violência sexual.
A retaliação de Israel matou um total de 73.066 palestinos até terça-feira, 30, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Apesar do cessar-fogo, poucas pessoas conseguem entrar ou sair de Gaza. As etapas seguintes do acordo, incluindo o desarmamento do Hamas e a imensa tarefa da reconstrução, permanecem paralisadas.
"É preciso fazer muito mais para que sequer uma aparência de normalidade possa voltar, e estamos muito, muito longe disso", disse nesta semana Nicolas von Arx, diretor regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Palestinos continuam sendo mortos
Os ataques israelenses diminuíram consideravelmente desde que o cessar-fogo entrou em vigor, mas continuam ocorrendo quase diariamente.
O Ministério da Saúde de Gaza contabilizou 1.053 palestinos mortos desde o início do cessar-fogo até terça-feira, incluindo mais de 350 mulheres e crianças. Nos últimos dias, entre as vítimas estavam uma adolescente a caminho da escola e uma mãe com sua filha de 1 ano.
"Onde está esse cessar-fogo de que eles tanto falam? Vergonha deles", disse nesta semana a palestina Wisal Abu Khater após mais um ataque mortal, criticando os árabes que, segundo ela, abandonaram a população de Gaza e estão ocupados assistindo aos jogos da Copa do Mundo.
Na quarta-feira, 1º, as Nações Unidas alertaram que a expansão israelense em Gaza aumenta os riscos fatais para civis em "áreas sem demarcação clara no terreno".
O Ministério da Saúde afirmou que mais de 3.400 pessoas ficaram feridas desde o cessar-fogo. O ministério faz parte do governo liderado pelo Hamas e mantém registros detalhados das vítimas, considerados, em geral, confiáveis por agências da ONU e especialistas independentes. O órgão não faz distinção entre civis e combatentes, mas afirma que mulheres e crianças representam cerca de metade dos mortos.
As Forças Armadas de Israel afirmam que têm como alvo o Hamas e outros grupos armados, frequentemente dizendo que eles planejavam ataques, e acusam o Hamas de usar civis como escudos humanos.
Conselho da Paz teve pouco progresso
O principal diplomata responsável por supervisionar o cessar-fogo, Nickolay Mladenov, deixou claro: as próximas etapas da implementação do acordo mediado pelos Estados Unidos estão paralisadas devido à difícil questão do desarmamento do Hamas.
Esse tem sido um importante teste para o Conselho da Paz criado e liderado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Lançado com grande destaque e bilhões de dólares em promessas internacionais de financiamento no início deste ano, com o único objetivo de promover a recuperação de Gaza após a guerra, o conselho agora faz poucas declarações públicas.
O desarmamento do Hamas abriria caminho para outras etapas, incluindo uma nova administração para Gaza e o envio de uma força internacional de estabilização para auxiliar nos esforços de segurança e reconstrução. Embora o Hamas não tenha rejeitado totalmente o desarmamento, indicou que pretende manter parte de suas armas e exigiu novas concessões de Israel.
Gaza está em ruínas
Os palestinos em Gaza dizem que estão chegando ao limite. Abrigados em vastos campos de tendas com serviços básicos escassos ou inexistentes, ou nas estruturas destruídas de edifícios bombardeados, eles continuam vivendo sob o zumbido dos drones israelenses e sob a ameaça diária de ataques.
O cessar-fogo deveria trazer um aumento expressivo da ajuda humanitária, como medicamentos e combustível. Organizações humanitárias e outras entidades afirmam que isso não aconteceu. Todas as passagens de fronteira de Gaza continuam severamente restritas e, em alguns momentos, chegaram a ser completamente fechadas. A ONU afirmou no mês passado que 17 hospitais ainda não estão funcionando.
As "morosas" aprovações israelenses e os procedimentos alfandegários limitam a entrada de suprimentos essenciais, disse no mês passado o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, acrescentando que até próteses foram afetadas por preocupações de que pudessem ter um potencial uso "duplo" como armas.
A fome foi declarada na Cidade de Gaza em agosto do ano passado, mas especialistas em segurança alimentar disseram posteriormente que houve "melhoras significativas" após o cessar-fogo. O COGAT, órgão militar israelense responsável pela coordenação dos assuntos civis em Gaza, afirmou na quarta-feira que "as quantidades de alimentos que estão sendo levadas superam amplamente as necessidades nutricionais da população civil de Gaza".
Com as forças israelenses expandindo sua presença em Gaza e combatentes do Hamas acusados de executar ilegalmente palestinos por suposta colaboração com Israel ou por crimes como saques, os moradores dizem estar estressados e exaustos.
"Tínhamos tudo antes da guerra", disse Mahmoud Ashour, comerciante de 33 anos em Khan Younis. "E agora estamos apenas desejando conseguir um pedaço de comida."
Israel dividido enfrenta eleição
Ao longo dos últimos 1.000 dias, os israelenses foram traumatizados pelo ataque de 7 de outubro - o mais mortal da história de Israel - e pelos outros conflitos que se seguiram: contra o grupo militante Hezbollah, apoiado pelo Irã, no Líbano; contra os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, no Iêmen; e contra o próprio Irã.
Os israelenses marcaram o aniversário nesta quinta-feira em vários locais do país, incluindo o cenário do festival de música onde pelo menos 364 pessoas foram mortas e 40 feitas reféns. Outras pessoas prestaram homenagens em abrigos antiaéreos ao longo das estradas no sul do país onde seus parentes foram mortos enquanto tentavam fugir da ofensiva do Hamas.
"Hoje marcamos 1.000 dias, 1.000 dias desde aquele terrível dia em que nosso mundo desabou, o dia em que perdemos nossos entes queridos", disse Yoram Yehudai, cujo filho Ron foi morto no festival. "Estamos aqui no local do Nova. Atrás de mim ficava a área da festa. Jovens que vieram para dançar e celebrar voltaram para casa em caixões."
Dezenas de manifestantes se reuniram perto do Parlamento israelense exigindo que o governo estabeleça uma comissão estatal de investigação sobre o ataque, algo que Netanyahu tem tentado evitar.
Esses conflitos e seu custo - incluindo o aumento das mortes de soldados israelenses, os ataques contínuos ao longo da fronteira de Israel com o Líbano e as acusações internacionais de genocídio em Gaza, rejeitadas por Israel - pesam sobre os israelenses e sobre o sentimento nacional enquanto Netanyahu busca a reeleição neste outono.
Ele tem demonstrado confiança, mas enfrenta um desafio difícil. Mais de 60% dos israelenses acreditam que ele não deveria concorrer novamente, segundo uma pesquisa do Instituto para a Democracia de Israel publicada no mês passado.
A indignação tem sido grande devido às falhas de segurança antes de 7 de outubro, à ausência de uma comissão estatal de investigação para apurá-las e às impopulares isenções do serviço militar concedidas aos parceiros ultraortodoxos de Netanyahu na coalizão de governo.
*Com informações da Associated Press (AP).
(Com Agência Estado)
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