A contadora Larissa Vieira tem 29 anos. É bonita, vaidosa, adora esportes, maquiagem, se vestir bem. Comer idem. Como qualquer mulher bonita de sua idade, também gosta de namorar. Para manter a boa forma, pratica esportes como basquetebol e muay tai. Independente, trabalha em uma grande empresa, paga suas contas, segue sua vida de maneira simples, mas organizada e tranquila. As únicas coisas que a tiram do sério é o momento em que resolve sair de casa para ir, por exemplo, a um cinema e lá é obrigada a se deparar com cadeiras que a obrigam (e à sua companhia, claro) a um torcicolo se quiser assistir a um filme. Isso depois de já ter passado por uma verdadeira via-crúcis para subir rampas inadequadas, calçadas estouradas, portas estreitas, banheiros ruins. E isso é em todo lugar.
Mas isso só a irrita, não a imobiliza e a faz reclamar e muito para que comerciantes e poder público municipal e estadual finalmente tomem vergonha na cara e melhorem a acessibilidade (praticamente zero) da capital do estado de Mato Grosso. A vida de Larissa é praticamente idêntica à de qualquer um, mas a pouca diferença veio na forma de um tumor em sua medula. Esse problema, aos 15 anos, a obrigou a uma cirurgia cujo substrato, além de retirada do tumor, foi torná-la paraplégica. Nada demais para esta cuiabana de sangue e raça, nada além de só mais um problema que ela teria que vencer, como faz em seus treinos de basquete e muay thai, que ela agora luta por divulgar a outros Portadores de Necessidades Especiais as melhorias físicas e psíquicas trazidas pelo esporte. Leia abaixo mais esta entrevista da série com os campeões locais de esportes que superam tudo, inclusive a falta de apoio para suas causas e a vontade do poder público brasileiro de mantê-la em casa.
Acervo Pessoal
As dificuldades não imobilizam Larissa, que pratica muay thai, joga basquete e luta para divulgar os benefícios dos esportes aos PNE
Pergunta clássica como é que você começou?
Começou em março/2015, já me interessava por lutas e arte marciais, mas não tinha visto nada de perto, então acompanhei minha mãe nos treinos e logo perguntei se tinha condições de fazer.
Você começou a treinar o esporte em que está hoje para superar as limitações?
No começo, o muay trai era uma forma de se exercitar apenas, alguns optam pela fisioterapia, outros por esporte para ajudar na circulação, limitações. Hoje o muay thai é minha essência de vida, fonte de energia, inspiração.
Pensa em competir profissionalmente?
Aqui no Brasil não existe uma categoria de Muay Thai para Deficientes, na verdade acredito que esse seja o único projeto dentro das paraolimpíadas e outros campeonatos. Sei que existe o judô, é tudo inovador e único, então hoje penso em evoluir com a arte marcial, mas não descarto a hipótese de competir.
Soube que também joga basquete, conte um pouco pra nós?
O basquete também é recente na minha vida, um grupo de amigos se juntaram para praticar o basquete. No começo, era um hobby, uma forma de integrar e conhecer outros PcD. Hoje, estamos montando time e buscando apoio para transformar e trazer esse esporte oficialmente para o Estado.
Vejo que você é bastante ativa em diversas áreas. Pode nos detalhar um pouco dessas outras atividades?
Eu trabalho, estudo, namoro, ajudo nas tarefas domésticas, dirijo, pratico muay thai, basquete e adoro esporte radical. Já fiz escalada, pulei de parapente, adoro viajar. Vivo minha vida intensamente e feliz. A cadeira não impede de fazer nada, faço tudo com alegria e sorrindo, como qualquer outra pessoa. Não me vejo deficiente. Pra mim, deficiente é ser preguiçoso, colocar desculpa no tempo ou nos outros, é dizer que não consegue sem nunca ter tentado.
Você pretende ir para fora de Cuiabá ou do Estado ou já foi?
Não. Como é tudo recente, nosso interesse é divulgar e conseguir apoio e patrocínio para que possamos treinar e competir. Existe muitas etapas para conquistar.
Você trabalha e mantém uma vida econômica ativa com relativa independência, como conquistou isso?
Me formei em contabilidade e trabalho atualmente em uma grande empresa. Minha independência eu conquistei com muito esforço, pois ainda hoje há uma dificuldade para os PcD entrarem no mercado de trabalho, mesmo com toda Lei de Cotas. Eu diria que é uma via dupla: os PcDs precisam se qualificar e sair do trabalho informal e as empresas precisam oferecer condições físicas (adaptações) e remunerações justas e equiparadas com cada categoria. A minha competência não está ligada à minha deficiência, em qualquer lugar existe um processo seletivo e avaliações, se eu fui melhor que outro candidato, é porque tenho competência.
Você considera importante que atletas especiais se mostrem mais e chamem outros portadores de necessidades especiais a também participarem da prática esportiva?
Sim, acho muito importante. Temos diversos exemplos de PcD como Daniel Dias, medalha de Ouro no Parapan americano. Ficamos em primeiro lugar no quadro geral de medalhas, com uma larga vantagem. Pra quem gosta e pratica esporte, acompanha todo esse movimento que é contagiante, mas pra atingir a participação de outros é um processo longo. Primeiro precisa superar e aceitar sua nova condição, trabalhar o psicológico, se adaptar a uma nova vida. Somos muito unidos porque entendemos o que cada um passa e estamos sempre nos ajudando a evoluir, superar e integrar. O esporte contribui para essa superação, trabalha corpo e mente.
Em que a prática esportiva ajuda ou ajudou no seu dia a dia? Dá pra perceber melhora no seu humor ou qualidade de vida? A família notou isso?
Tanto o muay thai como o basquete já me trouxeram pequenas evoluções que fazem grande diferença: força muscular, equilíbrio de corpo e de movimento, preparo físico, concentração, disciplina e responsabilidade. A cada conquista, você se sente melhor e mais preparado, e é claro que melhora a qualidade de vida. Está sempre com ânimo, de bom humor, melhora a autoestima, bom relacionamento com a família, amigos, colegas de trabalho, namorado. Todos saem ganhando.
Por que você começou a treinar o Muay Thai, no fim das contas?
Como eu disse o Muay Thai era uma forma de me exercitar, pois detesto fisioterapia e me surpreendeu inúmeras vezes. A arte marcial ensinada na Academia Alex Paraná tem uma filosofia e metodologia tradicionais da Tailândia, então você aprende muito mais que movimentos e golpes, a cultura traz uma essência de paz e alívio, até hoje eu não fiz um treino onde eu não esquecesse tudo que aconteceu no meu dia e vivesse aquele treino intensamente, saio de lá cansada, às vezes dolorida, mas consigo dormir e relaxar.
Como você vê a acessibilidade na capital e no interior de Mato Grosso?
Que acessibilidade? As pessoas não tem noção o que é um degrau de cinco centímetros para alguns deficientes, rampas mal construídas e fora do padrão, estacionar em nossas vagas na frente de rampas e dizer que era rápido ou só porque não tem ninguém usando eles podem usar. Calçadas nas ruas da cidade a gente mal consegue andar, de tão esburacadas, quanto mais cadeirantes? Poste no meio da calçada, portas estreitas, falta de banheiro adaptado ou mal construído, elevadores pequenos. Nem os órgãos públicos cumprem com a lei de acessibilidade, quanto mais qualquer outro empreendimento privado ou comercial. Já passei por diversas situações. Se você perguntasse se tenho limitação porque não posso andar, eu diria que tenho limitação por falta de acessibilidade. As pessoas de uma maneira geral precisam entender que se existe uma lei, ela tem que ser respeitada, independente do seu motivo particular. Não se pode usar banheiro de deficiente, porque se você está apertado, consegue segurar a bexiga, nós não. A maioria não tem controle da bexiga, se nosso banheiro está ocupado por um andante, acaba que esvaziamos ou evacuamos na própria cadeira, se a vaga de deficiente é próximo às entradas, é para facilitar o acesso, porque o trajeto do carro até o local é complicado. A rampa não pode ser íngreme porque se não for pra subir sozinho, não precisa de rampa. Todas as portas de qualquer lugar deveriam ter 80 cm, temos limitações sim, mas é de acesso, não podemos ir em todos os restaurantes, consultórios médicos, órgãos públicos, cinemas (eu não consigo entender por que em todos os cinemas de Cuiabá o assento de cadeirantes é na primeira fileira. Quem assiste filme com pescoço totalmente inclinado pra cima? Não basta todos as dores que já temos?) temos uma arena de futebol e um ginásio esportivo incrível, mas novamente quem assiste jogo quadriculado? Porque na Arena Pantanal, fizeram o assento de deficientes atrás de uma grade; e no ginásio, nem assento tem. Nesses momentos que percebemos como somos tratados com preconceito, que se pode colocar em qualquer lugar de qualquer jeito. A falta de acessibilidade é revoltante.
Com essa ideia e foco, quais são seus planos específicos para o esporte e sua vida daqui em diante?
Meu objetivo é trazer o esporte para todos os PcD, é ter a maior quantidade de pessoas praticando. Estamos buscando apoio para o basquete. Precisamos de tudo, cadeiras de basquete, local para treino, treinador especializado, patrocínio, entrar para federação para, enfim, competir, levar para outras cidades para organizar campeonato estadual. É um projeto grandioso e de alto custo, mas a cada conquista será uma vitória e todos serão beneficiados.
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Paulo Barth 28/09/2015
Parabéns pela espetacular e particular ponto de vista, você Larissa uma eficiente de mão cheia... Continue assim senhorita Vieira...bjus
1 comentários