É o caso da equipe de gestão da Occam Brasil, que informa que, no País, os fundos estão "taticamente tomados" em juros. Embora o Banco Central tenha prosseguido o ciclo de calibragem da Selic no mês passado, com um corte de 0,25 ponto porcentual da taxa, para 14,25%, a Occam menciona que a comunicação feita após a reunião gerou críticas ao alongar o prazo de convergência da inflação à meta e manter a possibilidade de extensão do ciclo. Isso ocorreu, de acordo com a gestora, mesmo com a deterioração da maioria dos vetores inflacionários e com a desancoragem das expectativas.
"Além disso, a pauta de estímulos segue em andamento, com medidas adicionais tanto do Executivo quanto do Legislativo sendo implementadas ou em discussão. Na parte eleitoral, as pesquisas têm mostrado a consolidação de um cenário no qual o atual presidente possui uma pequena vantagem sobre os candidatos da oposição, mas mantém a indicação de uma eleição competitiva", acrescenta a asset.
Em sua carta, a Kinea Investimentos também destaca que parte do problema no Brasil é fiscal, o que pressiona a curva de juros local e reduz a capacidade de o Banco Central afrouxar a política monetária. "A consequência das nossas fragilidades é que, mesmo quando o choque externo melhora, o Brasil não consegue capturar integralmente esse alívio. Outros países reprecificam suas curvas para baixo mais rapidamente. O Brasil fica para trás porque o problema não é apenas petróleo, guerra ou Fed. É fiscal, mercado de trabalho, crédito, câmbio e prêmio de risco estrutural", enumera a gestora.
De acordo com a Kinea, a continuidade do ciclo de calibragem da Selic irá depender de uma combinação de fatores, que envolvem surpresas baixistas com atividade e um ambiente externo estável. "O Brasil sobe juros, mas não consegue cortá-los de volta para níveis normais. O que antes parecia uma taxa emergencial começa a se parecer com uma nova taxa de equilíbrio", nota a equipe de gestão da casa, que está "tática" em ativos brasileiros. A gestora relata ter posições aplicadas em juros curtos pelo viés baixista de inflação, mas protegida via inclinação.
Gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos revela que a instituição, apesar do direcionamento aplicado, ou seja, que aposta na queda das taxas, já vinha operando a renda fixa de forma mais conservadora do que a média do mercado ao longo do ano, devido à dificuldade percebida para o BC reduzir a Selic, mesmo antes de o conflito no Golfo Pérsico ser deflagrado. Em junho, houve aumento de posições aplicadas em juros reais domésticos de médio prazo, com hedge em operações táticas tomadas na curva nominal.
Essa estratégia foi positiva para a Armor, que passou ao largo do forte estresse nas curvas de juros em março, conseguiu captar bem nos meses seguintes e também em junho, período marcado pela perspectiva de que o memorando de entendimento entre Washington e Teerã iria derrubar as cotações do petróleo, com reflexos sobre os prêmios embutidos nas taxas futuras de Depósito Interfinanceiro (DIs).
"Mas o mercado religou a dinâmica fiscal", observa Campos, aspecto que estava em segundo plano e voltou ao foco após novas medidas expansionistas aprovadas pelo governo, discussões de "pautas-bomba" e o enfraquecimento da expectativa de que haverá mudança do ciclo político no próximo governo.
A volta à tona do risco inerente às contas públicas, a piora das expectativas de inflação e, lá fora, a reprecificação para a trajetória de juros nos Estados Unidos, com um Federal Reserve (Fed) mais "hawkish", levaram a Armor a zerar posições aplicadas na curva local, operando de maneira tática, aponta o gestor. "A cabeça até a eleição é operar extremos. Deve ter bastante volatilidade até lá", prevê Campos.
"No Brasil, seguimos com baixo nível de risco diante da manutenção de uma conjuntura local adversa. Nesse contexto, temos optado por posições táticas, buscando capturar correções de exageros que eventualmente identifiquemos na precificação de mercado", informa a Legacy Capital em sua última Carta Mensal. O time de gestão da Legacy afirma que continua concentrando sua exposição a risco em ativos americanos.
A AZ Quest, por sua vez, diz que continua adotando "postura cautelosa" nos ativos de renda fixa em julho, após ter suas posições pressionadas no mês anterior. Além da visão menos construtiva sobre a curva de juros nominal, a gestora acrescenta que manteve postura equilibrada na estratégia de juros reais, evitando assumir riscos excessivos em um ambiente ainda marcado por incertezas fiscais. "Após capturarmos parte da valorização observada no mercado ao longo de junho, reduzimos significativamente as posições direcionais", relata a AZ Quest.
Em carta sobre as estratégias de alocação para o mês atual, o BTG Pactual informa que não vê, a preços de hoje, fatores que possam provocar surpresas baixistas na inflação e, consequentemente, renovem o otimismo com o ciclo de política monetária no Brasil. Assim, o banco mantém posição neutra na curva de juros futuros nominal, ao mesmo tempo em que encurtou a 'duration' nos títulos públicos atrelados à inflação, conduzindo as alocações em renda fixa de forma mais defensiva.
(Com Agência Estado)
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