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Cuiabanália Domingo, 26 de Janeiro de 2014, 17:52 - A | A

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Domingo, 26 de Janeiro de 2014, 17h:52 - A | A

CUIABANÁLIA

Desaparece tela que registra discriminação racial em duas igrejas de Cuiabá

Pintura retrata uma briga por motivos raciais sobre uma ponte na Prainha entre os fiéis brancos e negros

NELSON SEVERINO

Atualizada às 11h33 do dia 27




Está desaparecida uma tela de autor desconhecido de importância incomensurável para a história de Cuiabá, pois retrata uma briga por motivos raciais sobre uma ponte na Prainha entre os fiéis brancos da Igreja Nosso Senhor dos Passos e a irmandade negra da capela de São Benedito, que até hoje funciona na lateral direita de quem entra no templo de Nossa Senhora do Rosário.

Sabe-se que a última igreja onde o quadro esteve exposto foi na Igreja de São Gonçalo, no Porto. Mas o padre Felisberto Samoel da Cruz, diretor do setor de Arquivos e Certidões da Cúria Metropolitana de Cuiabá, e que está tentando rastrear a tela, esteve recentemente naquela igreja em busca da obra, mas não conseguiu nenhum vestígio sobre o seu paradeiro.

E o que é pior para a história de Cuiabá: suspeita-se que algum padre que passou pela Igreja de São Gonçalo nos últimos anos e que não sabia da importância do quadro para a memória da cidade tenha simplesmente jogado a obra fora.

Mas o padre Felisberto não desistiu de procurar o quadro com o registro da supostamente primeira manifestação de racismo, pelo menos religioso, em Cuiabá. Por isso, se alguém souber do paradeiro da tela é só procurar as autoridades ligadas à área da cultura que estará contribuindo, e muito, para o resgate da memória de Cuiabá.

Marcos Lopes/HiperNotícias

Tela que registra discriminação racial desaparece da Igreja Nosso Senhor dos Passos

A refrega racista retratada na tela, tendo como palco uma travessia de pedestres que existia sobre o Córrego da Prainha, no local onde acaba a Avenida Coronel Escolástico e começa a Rua Voluntários da Pátria, é confundida com outra ponte construída no final da década de 50 à altura do atual Hospital Ortopédico, na administração do prefeito Garcia Neto.

A briga pela ponte foi causada pela rivalidade política entre os dois grandes partidos da época – a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), cujo maior líder no Estado era o então governador João Ponce de Arruda, adversário ferrenho de José Garcia Neto..

O professor e historiador Marcos Amaral Mendes, que fez muitas pesquisas para montar sua tese de mestrado sobre a devoção a São Benedito em Cuiabá, descobriu que capangas do governo andaram dando até tiros no pessoal que estava construindo a ponte sob o comando do prefeito e engenheiro civil José Garcia Neto. Por isso, aquela travessia de pedestres sobre o Córrego da Prainha passou a ser chamada pela população de “Ponte da Confusão”.

RACISMO NA IGREJA CATÓLICA EM CUIABÁ: UM PASSADO DISTANTE

Não há registros oficiais sobre o racismo religioso envolvendo os fiéis do Senhor dos Passos e de São Benedito. Mas tudo indica que se houveram de fato essas manifestações – o professor Marcos Amaral Mendes e o padre José de Moura e Silva, da Igreja Nossa Senhora do Rosário, afirmam que existem “muito de lenda na história de Cuiabá” – é coisa de um passado muito distante e remontam aos primórdios das duas irmandades, cujas capelas ficavam – como ainda hoje – bem próximas uma da outra, separadas pelo Córrego da Prainha.

Uma das mais antigas de Cuiabá, a ainda hoje capela de São Benedito foi construída em 1722 na Rua do Sebo, nas imediações do Largo da Mandioca, por cativos e ex-escravos que vieram para Mato Grosso para trabalhar na atividade garimpeira. Mas como o material utilizado na construção não era de boa qualidade, a capela ruiu e não foi erigida outra no lugar.

Marcos Lopes/HiperNotícias

Marcos Amaral Mendes, professor e historiador


Em meados do século XVIII, entre 1740 e 1750, foi construída a Igreja Nossa Senhora do Rosário. Como o culto ao chamado santo negro, por causa de sua cor, havia se propagado por Cuiabá, os fiéis de São Benedito conseguiram uma autorização da irmandade de Nossa Senhora do Rosário para construir uma nova capela na lateral da igreja.

Pode ter começado aí as manifestações de racismo que terminavam em confusão, com os fiéis do Senhor dos Passos impedindo que a irmandade de São Benedito passasse pela ponte sobre o Córrego da Prainha para freqüentar a sua igreja. A irmandade fiel do santo negro dava o troco, daí o surgimento de muitas confusões sobre a ponte.

A Igreja Senhor dos Passos foi construída em 1792. Uma obra publicada em 1869 por Joaquim Ferreira Moutinho revela que a Senhor dos Passos foi erguida com dinheiro e outras doações arrecadados por um português de nome João Manuel.


De acordo com o relato de Moutinho, certo dia João Manuel sofreu um ataque de catalepsia – “estado em que se observa rigidez dos músculos, permanecendo o paciente na posição em que é colocado”, segundo o Aurelião – e foi dado como.morto. Como todo cristão, foi velado e sepultado.

Mas depois de algumas horas enterrado, João Manuel recuperou-se do ataque e se deu conta que estava dentro de um caixão debaixo da terra. Ele fez então uma promessa: se conseguisse sobreviver ao sepultamento, ia passar o resto da vida trabalhando, vestido com a mortalha que cobria seu corpo, para construir uma igreja para o Senhor dos Passos.

Depois de muitos anos, pedindo esmolas pelas ruas de Cuiabá, João Manuel cumpriu a promessa. A Igreja Senhor dos Passos foi inaugurada no dia 6 de janeiro de 1900, com a presença inclusive do bispo Luiz Carlos D’Amour.

Marcos Lopes/HiperNotícias

Em meados do século XVIII, entre 1740 e 1750, foi construída a Igreja Nossa Senhora do Rosário.


Em 1952, irrompeu um grande incêndio em um depósito de gasolina da Shell na área em que fica a Senhor dos Passos, e cujas chamas destruíram uma parte da parede da lateral esquerda da igreja na Rua Voluntários da Pátria. Além de ter atingido a igreja, o fogo ameaçou destruir todo o quarteirão.

"Foi um incêndio que deixou a população traumatizada por muito tempo", lembra o médico Gabriel Novis Neves, que estava jogando bola em um campo das imediações, tendo como companheiros Zé Traçaia – que depois brilhou inclusive no futebol europeu – Herman Pimenta, Manoelito, Ney Pinheiro e outros. “Paramos de jogar bola naquele triste domingo para ver o incêndio” – afirma Novis Neves.

GARCIA NETO DEU UM GOLPE NO GOVERNO NA PONTE DA CONFUSÃO E ELEGEU O SUCESSOR

1958: o prefeito de Cuiabá, o udenista José Garcia Neto, fazia de tudo para eleger seu sucessor no ano seguinte. Mas apesar de venerado pelos udenistas, o prefeito esbarrava na falta de dinheiro para executar certas obras para beneficiar a população, o que garantiria muitos votos para quem fosse substituí-lo.

No entanto, o Governo do Estado estava nas mãos do PSD, o ferrenho adversário da UDN. Para evitar que Garcia Neto, cuja administração de quatro anos estava expirando, ao contrário do governador João Ponce de Arruda, que tinha mandato de cinco anos, o governo estadual fazia de tudo para complicar o trabalho do prefeito. Inclusive não lhe repassava os recursos do Fundos dos Municípios.

Moradores do Baú e outros bairros viviam reclamando junto ao prefeito e ao governador a construção de uma ponte sobre o Córrego da Prainha, nas imediações do hoje Hospital Ortopédico, para facilitar a ligação com o Araés. A ponte que existia mais parecia uma pinguela.

Guilherme Filho/Secom-MT

o prefeito de Cuiabá em 1958, o udenista José Garcia Neto,


Um dia – conforme narrativa do jornalista Paulo Zaviasky, recentemente falecido – o prefeito Garcia Neto foi informado que o Governo do Estado ia construir a ponte sonhada pela população da área. Garcia Neto pegou seu jipe particular e foi confirmar se a informação era verdadeira. Era, sim!

O prefeito e engenheiro civil Garcia Neto decidiu construir a ponte, sequestrando os 25 tubos de concreto que o Governo do Estado havia deixado no local para dar início à obra. A construção da ponte, comandada pelo próprio prefeito, começou às 13 horas e a meia noite do mesmo dia já estava concluída.

Quando o governador Ponce de Arruda ficou sabendo do golpe de Garcia Neto já era tarde demais. Há relatos até de tiros de armas de fogo no local, disparados por capangas do governo. Foi por causa do entrevero que a travessia passou a ser chamada de “Ponte da Confusão”, que nada tem a ver com a outra que foi palco de algumas refregas entre brancos e negros por racismo.

O golpe dado por Garcia Neto resultou em dividendos para a UDN, cujo candidato a prefeito Hélio Palma de Arruda, derrotou o pessedista Júlio Muller, que era o favorito disparado para ganhar a eleição....

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