Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) usam a mosca-da-fruta como modelo para investigar os efeitos dos agrotóxicos sobre o sistema nervoso, os mecanismos envolvidos na epilepsia e possíveis tratamentos para o Parkinson. Os estudos estão sendo apresentados na 21ª Conferência Europeia Bienal de Neurobiologia de Drosophila, realizada entre os dias 7 e 11 de setembro, na Universidade de Colônia, na Alemanha.
O professor doutor Anderson Oliveira e três estudantes orientados por ele foram selecionados para apresentar trabalhos no evento, que reúne pesquisadores de diferentes países e é considerado um dos principais encontros internacionais dedicados à neurobiologia da Drosophila melanogaster.
As pesquisas desenvolvidas pelo grupo da UFMT abordam temas relacionados à saúde pública, como os efeitos neurotóxicos da exposição a pesticidas e a investigação de alternativas terapêuticas não farmacológicas para distúrbios neurológicos.
Representam a universidade as mestrandas Maria Elisa Fonseca e Brenda Daiany Neves e o estudante de iniciação científica Enzo Vinnicius Santana. Os três integram o Laboratório de Metabolismo Mitocondrial e Neurotoxicologia da UFMT.
EXERCÍCIO, CAFEÍNA E PESTICIDAS
A pesquisa de Maria Elisa Fonseca, mestranda em Ciências da Saúde, investiga os efeitos protetores da cafeína em modelos da doença de Parkinson induzidos por rotenona (uma substância orgânica natural extraída das raízes e caules de plantas, usada como inseticida e piscicida). O trabalho busca mapear se o composto atua reduzindo o estresse oxidativo e a neuroinflamação nas regiões cefálica e torácica das moscas.
Na área de neurotoxicologia, Brenda Daiany Neves, mestranda em Química, analisa as alterações comportamentais e metabólicas provocadas pela exposição ao Diquat, um dos herbicidas mais utilizados na agricultura mundial após restrições ao Paraquat. O estudo procura entender como a exposição contínua a esses insumos afeta o sistema nervoso central, um tema de relevância direta para estados com forte perfil agrícola como Mato Grosso.
Já o trabalho de Enzo Vinnicius foca na epilepsia. Utilizando um protocolo de exercício físico em moscas (o método TreadWheel), a pesquisa avalia como a atividade motora atua como uma intervenção complementar na modulação de crises e na sobrevivência metabólica.
PROJEÇÃO INTERNACIONAL
O professor Anderson Oliveira destaca que a experiência de participar do NeuroFly 2026 representa um salto de maturidade e autonomia para os estudantes. "Para os nossos estudantes e para o nosso laboratório, essa vivência é transformadora. Como pesquisador e orientador, o que a gente mais busca é ver os alunos enxergarem a relevância de um projeto e darem os próximos passos com autonomia. Ver a maturidade deles respondendo a pesquisadores estrangeiros e caminhando com as próprias pernas é um orgulho imenso. Tenho certeza de que eles darão continuidade à linha de pesquisa em Drosophila na UFMT de forma brilhante no futuro”, avaliou o pesquisador.
Maria Elisa Fonseca conta que a troca de conhecimento com outros pesquisadores tem sido uma das partes mais enriquecedoras. “Conversar com pessoas que trabalham com temas parecidos, apresentar nossa pesquisa, discutir resultados e explorar novas ideias traz perspectivas que não tínhamos pensado antes para o nosso próprio trabalho. Estamos voltando para o Brasil cheios de ideias e muita inspiração para continuar a pesquisa na UFMT", refletiu Maria Elisa Fonseca, mestranda na UFMT.
Neste mesmo sentido, Brenda Daiany destaca a surpresa diante da amplitude de possibilidades que a experiência proporcionou e dos novos caminhos que se abriram para sua trajetória como pesquisadora. "É uma experiência surreal. Como jovem pesquisadora, jamais imaginei viver um momento como esse. O evento abriu minha cabeça para uma quantidade enorme de trabalhos e ideias inéditas, mostrando caminhos e metodologias na neurociência que eu nunca tinha visto antes", comentou Brenda Daiany Neves, mestranda na UFMT.
Para o estudante de Iniciação Científica Enzo Vinnicius Santana a vivência reúne aprendizado técnico e senso de compromisso público com a ciência nacional. "Ser representante de uma pesquisa brasileira em um congresso internacional é uma oportunidade de apresentar o trabalho para pesquisadores de outros países, trocar conhecimentos e conhecer novas formas de fazer ciência. Também é uma responsabilidade, pois você representa seu grupo de pesquisa, sua instituição e, de certa forma, a ciência brasileira".
Com a participação na programação científica, o grupo espera que o destaque obtido no exterior se traduza em maior visibilidade e apoio financeiro para a continuidade das pesquisas de neurobiologia em Mato Grosso.
"A experiência no NeuroFly é ímpar e de suma importância não apenas para o nosso grupo, mas para o fortalecimento da pós-graduação e da própria universidade. Já estamos de olho no próximo ciclo e iniciando o planejamento para participarmos da edição de 2028, que acontecerá em Portugal. Queremos levar mais resultados e consolidar a pesquisa feita em Mato Grosso no cenário global”, completou ressaltou o Prof. Dr. Anderson Oliveira, líder do laboratório na UFMT e orientador das pesquisas.
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