O nascer do sol na aldeia Katyalarekwa marca o início de um dia repleto de aprendizados. O som dos pássaros se mistura aos cantos tradicionais, enquanto crianças, jovens e adultos compartilham conhecimentos preservados há séculos. Foi nesse cenário que 13 jornalistas de diferentes regiões do Brasil, incluindo Cuiabá, viveram uma experiência de imersão no território do povo Haliti-Paresi, no médio-norte de Mato Grosso, durante uma Press Trip promovida pelo projeto Menanehaliti.
Entre os dias 2 e 5 de julho, a iniciativa reuniu profissionais da imprensa para conhecer de perto o etnoturismo desenvolvido pelas comunidades indígenas. A ação foi realizada pelo projeto Menanehaliti, com apoio do Instituto Samaúma, do Instituto Bancorbrás e da Somos Vivalá Turismo.
Mais do que visitar uma aldeia, os participantes foram convidados a vivenciar o cotidiano da comunidade, conhecer sua língua, experimentar a gastronomia tradicional, participar de brincadeiras ancestrais, ouvir histórias ao redor da fogueira e compreender a profunda relação do povo Haliti-Paresi com a natureza.
Localizada em Tangará da Serra, a cerca de 254 quilômetros de Cuiabá, a comunidade mantém vivas suas tradições, sua espiritualidade e os saberes transmitidos entre gerações. É justamente esse patrimônio cultural que o projeto Menanehaliti busca compartilhar por meio do etnoturismo, promovendo uma experiência baseada no respeito, na valorização da identidade indígena e na troca de conhecimentos entre visitantes e comunidade. A expedição é conduzida por Simão Nezokemazokai, que está a frente do projeto juntamente com seu pai, o cacique Salomão Nezokemazokai, também colaboram o caçique Pedro kezowe, e o casal Werika e Abrão.
O projeto nasceu da iniciativa de jovens indígenas que enxergaram no etnoturismo uma oportunidade de fortalecer a cultura Haliti-Paresi, gerar renda para as aldeias e mostrar ao público uma realidade muito diferente dos estereótipos frequentemente associados aos povos originários. Com apoio institucional, a ideia ganhou estrutura e hoje reúne cinco aldeias: Katyalarekwa, Arara Azul, Oreke, Duas cachoeiras e Serra Dourada, em um roteiro cuidadosamente planejado pelos próprios indígenas.
Durante a Press Trip, a aldeia que recebeu os jornalistas foi a Katyalarekwa. Logo na chegada, os visitantes participaram de uma aula introdutória da língua Aruak, idioma materno do povo Haliti-Paresi. Em seguida, foram conduzidos à Hati, a tradicional casa indígena, onde ficaram hospedados.
O espaço foi preparado com todo cuidado para receber os convidados, com barracas equipadas com colchões infláveis, sacos de dormir, cobertores e travesseiros. Também foram disponibilizadas redes e algumas camas tradicionais, proporcionando conforto sem perder a 9da vivência na aldeia.
Ao longo da estadia, os jornalistas participaram de diversas atividades entre elas brincadeiras tradicionais como o Tidimore, partidas de peteca, arco e flecha e o Cabeçabol, modalidades que promovem interação e permitem conhecer aspectos importantes da cultura local.
A programação também incluiu oficinas sobre plantas medicinais, grafismo indígena, trilhas pela mata, banhos em rios de águas cristalinas e rodas de conversa ao redor da fogueira, onde o cacique Salomão compartilhou histórias, ensinamentos e memórias transmitidas de geração em geração. Um momento marcado pela emoção e pelo profundo respeito às tradições do povo Haliti-Paresi.
À reportagem, Werika Kezowe destacou que qualquer pessoa interessada em vivenciar essa experiência pode entrar em contato com o projeto por meio das redes sociais do Menanehaliti e convidou os visitantes a acompanharem o trabalho desenvolvido pela comunidade.
Outro aspecto que chamou a atenção foi o envolvimento de toda a comunidade nas atividades. Crianças, jovens, adultos e idosos participam ativamente da preservação e da transmissão dos conhecimentos tradicionais, fortalecendo a identidade cultural entre as novas gerações.
Para um dos jovens da aldeia, de 18 anos, manter viva essa herança cultural é motivo de orgulho e representa a continuidade da história de seu povo.
O professor e jornalista Paulo Atzingem, do Diário do Turismo, também participou da experiência e destacou a importância do etnoturismo como ferramenta de valorização da cultura indígena e de promoção do turismo sustentável.
Etnias que encontraram neste projeto a esperança de um novo ciclo econômico, que não destrói rios, não polui mentes, nem seca a alma: o etnoturismo"
"Essa foi a experiência de turismo comunitário que mais me marcou. Isto porque foi muito bem planejada, e nela conheci pessoas, empresas e instituições que vivem e respiram a realidade dos povos indigenas, etnias fragilizadas por séculos de exploração e exclusão. Etnias que encontraram neste projeto a esperança de um novo ciclo econômico, que não destrói rios, não polui mentes, nem seca a alma: o etnoturismo", declarou o profissional.
Embora muitos avanços tenham sido conquistados com o apoio dos parceiros, a comunidade ainda enfrenta desafios estruturais, principalmente relacionados às estradas de acesso a algumas aldeias. Mesmo assim, o entusiasmo é evidente. Os indígenas seguem preparando suas comunidades para receber visitantes interessados em conhecer, com respeito, a história, os costumes e a rica ancestralidade do povo Haliti-Paresi.
Pedro Kezowe, cacique da aldeia Arara Azul, mostra com orgulho a cadeira de rodas flutuante para atender as pessoas com deficiência, tornando o etnoturismo um passeio inclusivo para todos. Ele explica que alguns jovens das aldeias receberam treinamento adequado para conduzir de maneira responsável as pessoas que precisam de cuidado e atenção.
Quem deseja viver essa experiência pode entrar em contato pelas redes sociais do projeto Menanehaliti ou adquirir os roteiros por meio da agência de turismo Somos Vivalá.
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