Uma investigação desenvolvida no Instituto de Química da Universidade Federal de Mato Grosso busca novas formas de retardar os efeitos do mal de Alzheimer, combinando duas estratégias simples: exercício aeróbico e suplementação com ácidos graxos do tipo ômega. O projeto, coordenado pelo professor Anderson de Oliveira Souza, utiliza um modelo animal inusitado – a mosca-da-fruta, cientificamente chamada de Drosophila melanogaster – para entender como o movimento e a alimentação podem proteger o cérebro.
O estudo está cadastrado no sistema de gestão de projetos da UFMT sob o número 226/2023 e teve início em maio de 2023, com previsão de encerramento em maio de 2026. A equipe é formada por alunos de mestrado, doutorado e iniciação científica, e os primeiros resultados já foram publicados em periódicos internacionais.
POR QUE A MOSCA-DA-FRUTA?
Em entrevista, o professor Anderson explicou que a escolha da mosca-da-fruta não é aleatória. O inseto tem um ciclo de vida curto – cerca de 45 dias em laboratório – e seu tecido nervoso é 75% parecido com o tecido nervoso humano. “Nós temos um animal em que a gente insere um pedaço do Alzheimer humano no DNA dele. Ele já nasce totalmente comprometido”, afirmou o pesquisador.
Ele destacou ainda que, ao contrário do que ocorre com camundongos e coelhos, o uso da drosófila não enfrenta restrições dos comitês de ética, porque a mosca não se alimenta de sangue. Outra vantagem é a facilidade de manipulação genética: o animal tem apenas quatro cromossomos. “Esse bichinho de três milímetros, quando você olha para o tecido nervoso dele, ele é 75% similar ao nosso tecido nervoso, quando você fala de neurobioquímica”, completou o professor.
COMO A MOSCA SE EXERCITA?
Uma das perguntas mais curiosas da pesquisa é como fazer um inseto praticar exercício aeróbico. O professor descreveu o método com uma imagem simples: “O exercício é feito com um sistema parecido com uma roda-gigante. O inseto fica na base, a roda gira, e ela tende a caminhar sempre perto do chão. Esse estímulo constante de caminhar faz uma atividade física aeróbica para a drosófila.”
O protocolo, que já foi publicado, prevê duas horas de exercício por dia, todos os dias – incluindo sábados, domingos e feriados – durante vinte dias consecutivos. Ao final desse período, os pesquisadores analisam os efeitos bioquímicos nos tecidos muscular e cerebral do animal.
RESULTADOS JÁ OBTIDOS
Embora o projeto final vise testar o ômega-3 (DHA, presente em peixes), a primeira etapa utilizou o ômega-6, encontrado no óleo de milho. “O que nós publicamos foi com ômega-6, uma dieta com óleo de milho. Se mostrou bem efetivo do ponto de vista de deixar o animal mais saudável”, afirmou o professor.
Os dados com óleo de peixe também são animadores, e a equipe já tem resultados indicando que a combinação de exercício com a suplementação melhora a saúde das mitocôndrias – as usinas de energia das células – e reduz os marcadores de estresse oxidativo.
“O mais fascinante é que a gente pode fazer uma correlação com o ser humano. Então, se são vinte dias de atividade física para a mosca, a gente pode relacionar com o tempo de atividade física e a ingestão dos óleos e o quanto isso é benéfico para as doenças neurodegenerativas”, explicou o coordenador.
IMPACTO PARA O TRATAMENTO DO ALZHEIMER
O professor Anderson faz questão de ressaltar que a pesquisa não busca a cura do Alzheimer, pelo menos não neste estágio. O objetivo é amenizar os sintomas e desacelerar o avanço da doença, aumentando a qualidade de vida do paciente.
“Os medicamentos atuais minimizam os sintomas por seis meses a um ano, depois perdem o efeito. Nossa proposta é uma ação não farmacológica. O alimento não é um medicamento; ele é incorporado ao metabolismo, ocasionando benefícios e redução dos sintomas”, disse.
Ele comparou a estratégia a tentar reduzir a velocidade de um caminhão descendo uma ladeira: não dá para parar o veículo sozinho, mas é possível jogar algo no pneu para torná-lo mais lento. “É o mesmo que a gente procura nas doenças: deixar a doença avançar mais devagar, aumentando a qualidade de vida do paciente.”
VISIBILIDADE INTERNACIONAL E DESAFIOS
O grupo de pesquisa da UFMT é o único do Centro-Oeste brasileiro a trabalhar com drosófila voltada para doenças neurodegenerativas. A equipe já estabeleceu parceria com pesquisadores do Chile, publicou dois artigos em colaboração e integra redes científicas como a Fly Power e o Grupo Jedi – este formado por jovens pesquisadores europeus. O próximo grande desafio é participar do NeuroFly 2026, um dos maiores congressos mundiais sobre drosófila, que acontecerá de 7 a 11 de setembro em Colônia, na Alemanha.
O evento contará com a presença de dois ganhadores do Prêmio Nobel. O professor destaca a importância dessa oportunidade: “Para nós, pesquisadores que trabalhamos com drosófila, ter acesso a uma pessoa dessa é algo que extrapola qualquer prêmio. O fato de conhecer, ter acesso e conversar já seria um diferencial.”
No entanto, a viagem esbarra na falta de recursos. O custo estimado para a equipe de quatro pessoas é de cerca de 30 mil reais. Uma campanha de vaquinha virtual arrecadou até agora apenas 825 reais. A Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFMT lançará um edital de apoio, mas os valores não devem cobrir a totalidade das despesas.
O professor comparou a situação com os investimentos em pesquisa no Sudeste: “Pegue a FAPESP, de São Paulo, e a nossa FAPEMAT. O incentivo à ciência em Mato Grosso é quase nada. O Estado destina 2,5% do PIB para ciência e tecnologia, mas esse dinheiro não é devidamente entregue.”
PRÓXIMOS PASSOS
A pesquisa será renovada por mais três anos no sistema da UFMT, graças à produtividade da equipe. O professor acaba de conquistar uma bolsa de produtividade do CNPq, que trará recursos extras para o laboratório. Os próximos passos incluem testar a combinação de exercício com ômega-3 diretamente nas moscas que já possuem o Alzheimer humano, ampliar as análises de biologia molecular (como a técnica de PCR, que custa cerca de seis mil reais para começar) e consolidar as parcerias internacionais.
O professor Anderson reforça que a UFMT é apenas o começo da carreira científica de seus alunos. “Eu tive a oportunidade de fazer o sanduíche na França. É o que eu quero que eles também façam: que participem, conheçam outros pesquisadores e se formem em laboratórios extremamente conceituados.” A vaquinha para a viagem à Alemanha continua aberta no Instagram do laboratório (@lmmn_ufmt).
A pesquisa mostra que, mesmo com poucos recursos, a ciência feita em Mato Grosso consegue competir no cenário internacional e trazer esperança para milhões de pessoas afetadas pelo Alzheimer em todo o mundo.
CONFIRA:
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.












