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Cidades Sábado, 20 de Junho de 2026, 11:26 - A | A

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DO INSTITUTO DE QUÍMICA

Pesquisa da UFMT usa mosca-da-fruta para testar exercício e ômega-3 contra o Alzheimer

Estudo inovador do Instituto de Química combina atividade física e suplementação alimentar para retardar sintomas da doença, com resultados já publicados internacionalmente

GABRIEL BARBOSA
Da Redação

Uma investigação desenvolvida no Instituto de Química da Universidade Federal de Mato Grosso busca novas formas de retardar os efeitos do mal de Alzheimer, combinando duas estratégias simples: exercício aeróbico e suplementação com ácidos graxos do tipo ômega. O projeto, coordenado pelo professor Anderson de Oliveira Souza, utiliza um modelo animal inusitado – a mosca-da-fruta, cientificamente chamada de Drosophila melanogaster – para entender como o movimento e a alimentação podem proteger o cérebro.

O estudo está cadastrado no sistema de gestão de projetos da UFMT sob o número 226/2023 e teve início em maio de 2023, com previsão de encerramento em maio de 2026. A equipe é formada por alunos de mestrado, doutorado e iniciação científica, e os primeiros resultados já foram publicados em periódicos internacionais.

POR QUE A MOSCA-DA-FRUTA?

Em entrevista, o professor Anderson explicou que a escolha da mosca-da-fruta não é aleatória. O inseto tem um ciclo de vida curto – cerca de 45 dias em laboratório – e seu tecido nervoso é 75% parecido com o tecido nervoso humano. “Nós temos um animal em que a gente insere um pedaço do Alzheimer humano no DNA dele. Ele já nasce totalmente comprometido”, afirmou o pesquisador.

GABRIEL BARBOSA/HNT

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Ele destacou ainda que, ao contrário do que ocorre com camundongos e coelhos, o uso da drosófila não enfrenta restrições dos comitês de ética, porque a mosca não se alimenta de sangue. Outra vantagem é a facilidade de manipulação genética: o animal tem apenas quatro cromossomos. “Esse bichinho de três milímetros, quando você olha para o tecido nervoso dele, ele é 75% similar ao nosso tecido nervoso, quando você fala de neurobioquímica”, completou o professor.

COMO A MOSCA SE EXERCITA?

Uma das perguntas mais curiosas da pesquisa é como fazer um inseto praticar exercício aeróbico. O professor descreveu o método com uma imagem simples: “O exercício é feito com um sistema parecido com uma roda-gigante. O inseto fica na base, a roda gira, e ela tende a caminhar sempre perto do chão. Esse estímulo constante de caminhar faz uma atividade física aeróbica para a drosófila.”

O protocolo, que já foi publicado, prevê duas horas de exercício por dia, todos os dias – incluindo sábados, domingos e feriados – durante vinte dias consecutivos. Ao final desse período, os pesquisadores analisam os efeitos bioquímicos nos tecidos muscular e cerebral do animal.

RESULTADOS JÁ OBTIDOS

Embora o projeto final vise testar o ômega-3 (DHA, presente em peixes), a primeira etapa utilizou o ômega-6, encontrado no óleo de milho. “O que nós publicamos foi com ômega-6, uma dieta com óleo de milho. Se mostrou bem efetivo do ponto de vista de deixar o animal mais saudável”, afirmou o professor.

Os dados com óleo de peixe também são animadores, e a equipe já tem resultados indicando que a combinação de exercício com a suplementação melhora a saúde das mitocôndrias – as usinas de energia das células – e reduz os marcadores de estresse oxidativo.

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“O mais fascinante é que a gente pode fazer uma correlação com o ser humano. Então, se são vinte dias de atividade física para a mosca, a gente pode relacionar com o tempo de atividade física e a ingestão dos óleos e o quanto isso é benéfico para as doenças neurodegenerativas”, explicou o coordenador.

IMPACTO PARA O TRATAMENTO DO ALZHEIMER

O professor Anderson faz questão de ressaltar que a pesquisa não busca a cura do Alzheimer, pelo menos não neste estágio. O objetivo é amenizar os sintomas e desacelerar o avanço da doença, aumentando a qualidade de vida do paciente.

“Os medicamentos atuais minimizam os sintomas por seis meses a um ano, depois perdem o efeito. Nossa proposta é uma ação não farmacológica. O alimento não é um medicamento; ele é incorporado ao metabolismo, ocasionando benefícios e redução dos sintomas”, disse.

Ele comparou a estratégia a tentar reduzir a velocidade de um caminhão descendo uma ladeira: não dá para parar o veículo sozinho, mas é possível jogar algo no pneu para torná-lo mais lento. “É o mesmo que a gente procura nas doenças: deixar a doença avançar mais devagar, aumentando a qualidade de vida do paciente.”

GABRIEL BARBOSA/HNT

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VISIBILIDADE INTERNACIONAL E DESAFIOS

O grupo de pesquisa da UFMT é o único do Centro-Oeste brasileiro a trabalhar com drosófila voltada para doenças neurodegenerativas. A equipe já estabeleceu parceria com pesquisadores do Chile, publicou dois artigos em colaboração e integra redes científicas como a Fly Power e o Grupo Jedi – este formado por jovens pesquisadores europeus. O próximo grande desafio é participar do NeuroFly 2026, um dos maiores congressos mundiais sobre drosófila, que acontecerá de 7 a 11 de setembro em Colônia, na Alemanha.

O evento contará com a presença de dois ganhadores do Prêmio Nobel. O professor destaca a importância dessa oportunidade: “Para nós, pesquisadores que trabalhamos com drosófila, ter acesso a uma pessoa dessa é algo que extrapola qualquer prêmio. O fato de conhecer, ter acesso e conversar já seria um diferencial.”

No entanto, a viagem esbarra na falta de recursos. O custo estimado para a equipe de quatro pessoas é de cerca de 30 mil reais. Uma campanha de vaquinha virtual arrecadou até agora apenas 825 reais. A Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFMT lançará um edital de apoio, mas os valores não devem cobrir a totalidade das despesas.

O professor comparou a situação com os investimentos em pesquisa no Sudeste: “Pegue a FAPESP, de São Paulo, e a nossa FAPEMAT. O incentivo à ciência em Mato Grosso é quase nada. O Estado destina 2,5% do PIB para ciência e tecnologia, mas esse dinheiro não é devidamente entregue.”

GABRIEL BARBOSA/HNT

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PRÓXIMOS PASSOS

A pesquisa será renovada por mais três anos no sistema da UFMT, graças à produtividade da equipe. O professor acaba de conquistar uma bolsa de produtividade do CNPq, que trará recursos extras para o laboratório. Os próximos passos incluem testar a combinação de exercício com ômega-3 diretamente nas moscas que já possuem o Alzheimer humano, ampliar as análises de biologia molecular (como a técnica de PCR, que custa cerca de seis mil reais para começar) e consolidar as parcerias internacionais.

O professor Anderson reforça que a UFMT é apenas o começo da carreira científica de seus alunos. “Eu tive a oportunidade de fazer o sanduíche na França. É o que eu quero que eles também façam: que participem, conheçam outros pesquisadores e se formem em laboratórios extremamente conceituados.” A vaquinha para a viagem à Alemanha continua aberta no Instagram do laboratório (@lmmn_ufmt).

A pesquisa mostra que, mesmo com poucos recursos, a ciência feita em Mato Grosso consegue competir no cenário internacional e trazer esperança para milhões de pessoas afetadas pelo Alzheimer em todo o mundo.

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