A medida atinge o plano orçamentário de 2026, que prevê a contratação de 150 docentes e 100 servidores técnico-administrativos ao longo do ano. Com a decisão, as contratações ficam temporariamente congeladas.
Em comunicado emitido na última sexta-feira, 29, a reitora da Unesp, Maysa Furlan, determinou a "suspensão temporária da homologação de concursos públicos de docentes, pesquisadores e técnicos administrativos" como "medida prudencial", considerando "o momento orçamentário e financeiro da universidade". Segundo ela, o objetivo seria equilibrar as questões orçamentária da universidade, devido à queda na receita do ICMS, que é a principal fonte de recursos das universidades públicas paulistas.
A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação disse em nota que o governo do Estado de São Paulo executa os repasses orçamentários à universidade conforme previsto na legislação vigente. "Desde 2023, as instituições receberam mais de R$ 64,3 bilhões, valor 28,9% superior ao investido nos quatro anos anteriores. A pasta ressalta que as universidades possuem autonomia administrativa, financeira e científica", diz.
A Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp) disse em nota que há no orçamento da universidade para 2026 - devidamente aprovado pelo Conselho Universitário - recursos financeiros necessários para a contratação de todos os docentes, pesquisadores e técnicos administrativos que foram aprovados nesses concursos pendentes de homologação. "As contratações reivindicadas pelos três segmentos são de fundamental importância para mitigar o processo de deterioração da nossa universidade como um todo, decorrente da longa crise de financiamento das universidades públicas paulistas, amplamente reconhecida pelas assessorias técnicas das reitorias", afirma.
Déficit de R$189 milhões
A Unesp teve seu orçamento aprovado para 2026 prevendo um déficit de até R$ 189 milhões. Enquanto a previsão de receitas foi de R$ 4,79 bilhões, a estimativa de receitas alcançou R$ 4,98 bilhões, em valores aproximados. Quando o orçamento foi aprovado, no final de 2025, a reitoria informou que usaria recursos de seu superávit acumulado em anos anteriores para reduzir o déficit.
O Estado utiliza 9,57% de sua quota na arrecadação desse imposto para financiar as universidades - além da Unesp, a USP e a Unicamp.
Com s substituição do ICMS pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) prevista para 2033, as três universidades pretendem apresentar ao governo do Estado o quadro orçamentário atual e discutir alternativas para o financiamento das instituições.
Apesar do anúncio da reitora, ainda há concursos abertos anteriormente já em andamento na universidade. Estes não serão afetados.
No dia 6 de maio, diante do avanço das discussões nacionais sobre a implementação da reforma tributária e seus potenciais desdobramentos para o financiamento do ensino superior público, o Grupo de Trabalho Reforma Tributária foi reconfigurado e formalizado por meio de portaria do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais (Cruesp), publicada no Diário Oficial no dia 7.
Crescimento sem contrapartida
Desde 1989, as universidades públicas paulistas, incluindo a Unesp, têm autonomia na gestão acadêmica, administrativa e financeira. Entre as três principais, a Unesp foi a que mais se expandiu nos últimos anos, estando em todas as regiões do Estado. Hoje, a universidade mantém 34 unidades, distribuídas por 24 cidades paulistas, com cerca de 3 mil professores e 5 mil servidores ativos.
A Unesp mantém ainda três colégios técnicos, em Bauru, Guaratinguetá e Jaboticabal. Desde 2006, são cerca de 1.250 estudantes matriculados a cada ano. Em 2017, o ensino médio passou a ser ofertado de forma integrada ao ensino técnico nessas unidades.
A universidade conta também com 14 Centros de Educação Infantil (CEI) distribuídos pelo Estado que atendem 270 crianças, dependentes de docentes, pesquisadores e servidores.
Segundo o Diretório Central dos Estudantes da Unesp (DCE-Unesp), os problemas financeiros enfrentados pela universidade estão relacionados a questões estruturais e ao modelo de financiamento. Segundo a entidade, apesar da expansão das universidades públicas paulistas, a parcela destinada pelo Estado às instituições é a mesma desde 1995. Este ano, a Unesp completou 5 décadas de existência. Atualmente, a universidade tem cerca de 42 mil alunos em graduação e pós-graduação.
Já a Adunesp diz que, desde 1995, primeiro ano em que a dotação orçamentária das universidades públicas paulistas atingiu o patamar de 9,57% da quota-parte do Estado do ICMS, o sistema de ensino superior público cresceu enormemente, sem nenhuma contrapartida orçamentária e financeira. O número de vagas para graduação aumentou 71,2%, o de alunos matriculados 95,4% e, na pós-graduação, mestrado e doutorado, o número de cursos e de estudantes teve crescimento médio de 100%. Já o número de docentes na Unesp teve queda de 9% no mesmo período, e o de servidores técnico-administrativos, redução de 35,9%.
A reportagem do Estadão questionou a Unesp sobre os dados e aguarda retorno.
Greve por melhorias
Os estudantes da Unesp, assim como os da USP e Unicamp, estão em greve há mais de um mês, reivindicando melhorias na estrutura física dos campi e aumento nos valores destinados à permanência estudantil. O DCE-Unesp alega que mais da metade dos estudantes vêm de escolas públicas e precisa de apoio institucional e financeiro para se manter na universidade. Há duas semanas, os professores da Unesp também aprovaram uma greve da categoria por melhoria salarial.
O Fórum das Seis, como é chamado o comitê de negociações de docentes, servidores e estudantes das universidades, apresentou como pautas centrais as reivindicações salariais, as demandas da permanência estudantil e a garantia e ampliação do financiamento para as universidades. Segundo a Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp), há docentes parados nas unidades de Bauru, Marília, Araraquara, Franca, Rio Claro, Rio Preto, Assis e Guaratinguetá.
Já os estudantes estão parados em nove campi da Unesp (81 cursos de graduação), segundo informe do DCE Helenira Rezende. Os servidores técnico-administrativos estão parados em Bauru, Franca, Marília, Guaratinguetá, Rio Preto, Jaboticabal e Botucatu, com paralisações pontuais em Araraquara e Ourinhos.
Na reunião entre o Cruesp e o Fórum das Seis, realizada em 14 de maio, os reitores condicionaram a continuidade das negociações ao longo de 2026 ao quadro econômico da arrecadação do Estado de São Paulo, alegando serem necessários novos dados que permitam avaliações mais precisas do cenário fiscal.
(Com Agência Estado)
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