A Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo campi da Cidade Universitária, e o Ipen não responderam às tentativas de contato do Estadão.
O 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter, explicou que o tecnécio é um elemento químico radioativo utilizado principalmente na medicina diagnóstica.
"Ele é um elemento radioativo e artificial da tabela. Existe natural também, mas esse que nós usamos é produzido artificialmente a partir do molibdênio." Segundo Botter, o molibdênio também é radioativo e, ao emitir radiação, transforma-se em tecnécio. O processo faz parte da chamada desintegração radioativa, fenômeno em que um elemento químico se converte em outro ao liberar energia.
Por que o tecnécio é usado na medicina?
De acordo com o especialista, uma das principais características do tecnécio é seu curto tempo de meia-vida, duração de apenas 6 horas. Segundo Botter, isso significa que a substância perde rapidamente sua atividade radioativa, característica que favorece seu uso em exames médicos.
O elemento é empregado principalmente em cintilografias, exames que permitem visualizar órgãos e tecidos por meio da emissão de radiação detectada por equipamentos específicos.
O especialista explica que o tecnécio é associado a substâncias que possuem afinidade com determinados órgãos ou tecidos. Após a aplicação no paciente, a radiação emitida pelo elemento é captada por detectores e processada por softwares capazes de gerar imagens do local examinado.
"Você injeta o tecnécio no organismo, esse tecnécio vai estar ligado a uma molécula que os ossos, quando é cintilografia óssea, ou o coração, quando é um exame cardiológico, têm afinidade."
Quais são os riscos da exposição?
Botter afirma que materiais radioativos podem causar danos ao organismo quando há exposição suficiente para afetar células e moléculas do corpo. "Essa energia pode aquecer o material, pode destruir ligação química." Segundo ele, em situações mais intensas, a radiação pode provocar alterações celulares e até mutações no DNA.
"Quando você altera a estrutura do DNA dentro da célula, essa célula pode começar a produzir uma célula mutante, porque ela tem um DNA diferente, e essa célula mutante a gente chama de câncer."
Apesar disso, o especialista afirma que a gravidade dos efeitos depende da intensidade da exposição, da quantidade de material envolvida e do tempo de contato.
"Mas veja, essa radiação do tecnécio é de baixa energia, são raios gama, e não para você ter uma ação muito intensa de produzir a mesma situação que aconteceu com o urânio em Goiânia, você precisa de alta exposição, alta exposição, uma dosagem muito grande."
O que se sabe sobre o caso do Ipen?
O incidente envolveu dois trabalhadores, que foram submetidos a exames in vivo (Contador de Corpo Inteiro). As contagens de radioatividade detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna. A contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do instituto, segundo a CNEN.
Botter afirma que, com base nas informações divulgadas até o momento, não considera o episódio grave. O especialista ressalta ainda que profissionais que atuam em laboratórios e centros de produção de radiofármacos trabalham sob protocolos rigorosos de segurança.
"Esse tipo de contaminação não costuma ser grave, porque os técnicos são treinados, os técnicos sabem com o que eles estão lidando", disse.
Ele também destacou a importância dos profissionais da química na produção de radiofármacos e em processos relacionados ao uso seguro de materiais radioativos na área da saúde.
(Com Agência Estado)
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