A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) apura que os técnicos de enfermagem suspeitos de provocar a morte de pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga, assistiam às vítimas morrerem sem intervir e só simulavam tentativas de socorro quando outras pessoas estavam presentes no local.
Segundo investigadores envolvidos no caso, o comportamento do grupo chamou atenção justamente pela frieza com que os procedimentos eram executados.
Após a aplicação das substâncias que levaram às paradas cardíacas, os técnicos permaneciam no ambiente acompanhando a evolução do quadro clínico, sem acionar imediatamente a equipe médica ou iniciar protocolos de emergência.
A encenação só ocorria quando havia circulação de outros profissionais na UTI ou risco de flagrante. Nessas situações, os suspeitos passaram a realizar manobras de reanimação, como massagens cardíacas, com o objetivo de criar a falsa impressão de que estavam tentando salvar os pacientes, segundo a polícia.
Três ex-técnicos de enfermagem, identificados como Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, foram presos por suspeita de envolvimento em três homicídios ocorridos em novembro e dezembro do ano passado.
Monitoramento por câmeras revelou padrão
A dinâmica dos crimes começou a ser desvendada após a análise de imagens das câmeras de segurança instaladas na UTI.
Os registros mostraram que os técnicos permaneciam próximos aos leitos das vítimas nos momentos que antecederam as mortes e que, em alguns casos, não houve qualquer reação imediata compatível com um atendimento de emergência real.
Em depoimentos iniciais, os suspeitos negaram participação. No entanto, ao serem confrontados com as imagens e outros elementos reunidos pela investigação, acabaram confessando o envolvimento, segundo a PCDF.
De acordo com a apuração, um dos técnicos, de 24 anos, utilizava indevidamente o sistema eletrônico do hospital, que estava logado na conta de um médico, para prescrever medicamentos incompatíveis com o quadro clínico das vítimas.
Em seguida, retirava as substâncias na farmácia da unidade e as aplicava diretamente nos pacientes, sem autorização médica.
Em um dos casos, a polícia também identificou a aplicação repetida de desinfetante por via intravenosa, substância que não possui qualquer indicação para uso no organismo humano e pode causar danos graves e imediatos.
Motivação segue desconhecida
Apesar do avanço da investigação, a Polícia Civil afirma que a motivação dos crimes ainda não foi esclarecida. Até o momento, está descartada a hipótese de eutanásia ou de que os homicídios tenham ocorrido a pedido de familiares ou de terceiros.
Os investigadores trabalham com diferentes linhas de apuração, que vão desde a atuação em grupo organizado até comportamentos de extrema violência sem motivação aparente. Todas as hipóteses seguem sendo analisadas com cautela.
Prisões e investigação em curso
As prisões ocorreram no dia 11, durante a primeira fase da operação conduzida pela Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa (CHPP).
Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás.
Na segunda fase da operação, deflagrada no dia 15, a Polícia Civil apreendeu dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
O material será periciado para identificar mensagens, pesquisas e registros que possam ajudar a explicar o comportamento dos suspeitos e verificar se há outros casos semelhantes.
Hospital acionou polícia após apuração interna
Em nota, o Hospital Anchieta informou que instaurou um comitê interno ao identificar “circunstâncias atípicas” relacionadas a três óbitos na UTI.
A partir das conclusões preliminares, a direção comunicou o caso às autoridades e solicitou a abertura de inquérito policial.
A unidade afirmou ainda que os ex-técnicos supostamente envolvidos foram demitidos e que as famílias das vítimas foram informadas, com esclarecimentos prestados de forma responsável e acolhedora.
As investigações seguem em andamento.
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