O galpão reunia mais de 100 permissionários e abrigava, em sua maioria, quiosques de frutas, além de dois restaurantes e lojas de embalagens. No espaço, também ficavam os escritórios das lojas em uma espécie de mezanino construído sobre os estabelecimentos que funcionavam no local. Ao longo da manhã deste domingo, 6, comerciantes chegavam ao local para avaliar os estragos, enquanto outros retornavam após terem passado a noite acompanhando o trabalho do Corpo de Bombeiros no combate às chamas.
Um dos comerciantes impactados é o Emílio Katsuki, de 69 anos. Ele trabalha na Ceagesp desde 1987 e há pelo menos uma década mantinha uma loja de frutas no galpão incendiado. O prejuízo financeiro é incalculável, lamentou o empresário, ao lado do filho Enzo Katsuki, de 23 anos, que também cuidava do negócio.
Durante a manhã deste domingo, 6, a comerciante Maria Helena também chegou ao local para entender o estrago causado pelo fogo. No dia anterior, uma carga de melão havia sido descarregada no box que mantém há 30 anos no galpão. "Perdemos tudo. O box estava cheio de mercadoria. Não sabemos como vamos trabalhar", diz.
Somente de estoque o prejuízo gira em torno de R$ 300 mil, sem contar com os equipamentos da loja. "Acabou tudo", lamentou a comerciante que emprega 12 funcionários.
Ao lado de Maria Helena, o comerciante Marcio Neto estava sendo consolado por outros colegas enquanto tentava encontrar o que sobrou do negócio familiar. Ele diz ter sido um dos mais afetados pelo incêndio. Há mais de 40 anos na Ceagesp, ele herdou a loja de embalagens do pai. O comerciante afirma que o prejuízo é na casa dos milhões. Recentemente, havia feito o estoque da loja para o resto do ano.
Quem também diz ter perdido tudo é o comerciante Aldemir Soares, que atua há mais de 15 anos no local. "Temos prejuízo de espaço, de equipamento e de estoque", afirma. Um empresário que presta serviços a mais de 100 comerciantes do galpão estima que o prejuízo provocado pelo incêndio ultrapasse R$ 40 milhões. Ele esteve no local na manhã deste domingo para acompanhar a situação.
Os comerciantes ouvidos pela reportagem não sabem se vão conseguir trabalhar nos próximos dias. A direção do Ceasa havia marcado uma reunião para a tarde deste domingo na tentativa de articular um local de trabalho provisório, segundo relatos. Inicialmente, a solução seria trabalhar nas ruas em frente ao galpão, alternativa criticada pelos permissionários.
Procurado por telefone e via e-mail, o Ceasa não deu retorno até a publicação desta reportagem.
Comerciantes denunciam estado do local
Embora a causa do incêndio ainda não tenho sido revelada e esteja em fase de perícia, muitos comerciantes disseram que o galpão apresentava riscos elétricos e que a direção do Ceasa havia sido alertada diversas vezes.
Um deles, que preferiu ter a identidade preservada por medo de retaliação, disse que "todo mundo sabia que isso (o incêndio) ia acontecer". Outro afirmou que a fiação estava danificada e relembrou que durante o natal do ano passado houve um apagão no local.
A empresária Marcela Costa diz que, em comparação com outros permissionários, não teve tantos prejuízos financeiros. Ainda assim, o escritório recém reformado de sua loja de cocos foi completamente destruído pelo incêndio. Os danos são estimados em cerca de R$ 250 mil.
Marcela conta que, há cerca de dez dias, uma caixa de energia próxima ao mezanino onde ficava o escritório começou a fazer barulhos de "papoco", como se algo estivesse estourando. De acordo com a empresária, a direção da Ceagesp foi notificada sobre o problema, mas só enviou alguém ao local para verificar a situação no dia seguinte.
Para José Aires, de 51 anos, as pessoas que trabalham no galpão estão desassistidas. "Estamos à deriva", diz o comerciante que atua no local há 14 anos. "Nosso dano é irreparável por causa de falta de manutenção, sempre fazem vista grossa. Tudo isso aqui está jogado ao deus-dará. Isso é um descaso", afirma.
Ele perdeu toda a mercadoria e os equipamentos usados na refrigeração das frutas, como as câmaras de armazenamento. José ainda não conseguiu calcular o prejuízo total.
Alguns comerciantes criticaram a condução do Ceasa. Segundo relatos ouvidos pela reportagem, houve uma tentativa de conter as chamas com um caminhão-pipa da própria Ceagesp e o Corpo de Bombeiros foi acionado apenas depois. A demora teria contribuído para que o fogo se alastrasse mais rapidamente, de acordo com os relatos.
Procurados por e-mail e telefone para comentar as denúncias e esclarecer questões relacionadas à manutenção do local, o Ceasa e a Ceagesp não responderam até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
O fogo começou pouco depois das 23h. O Corpo de Bombeiros mobilizou 16 viaturas para o combate às chamas e informou que o fogo foi controlado por volta das 6h deste domingo, 6, enquanto a fase de rescaldo, de apagar focos menores e esfriar locais ainda quentes, foi encerrada às 8h34.
A Defesa Civil informou que a estrutura do galpão sofreu danos significativos. O local permaneceu isolado, sinalizado e preventivamente interditado, com acesso restrito.
(Com Agência Estado)
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