Em um editorial conjunto no Jornal da Ciência, Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e Helena Bonciani Nader, presidente Academia Brasileira de Ciências (ABC), afirmam que o caso da polilaminina "ganhou projeção no debate público brasileiro não apenas por sua dimensão científica, mas também por suas implicações institucionais, regulatórias e de política de inovação."
Para elas, a trajetória da pesquisa revela tensões do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação, especialmente em temas como propriedade intelectual, validação científica, comunicação com o público e a conexão entre produção científica e políticas de saúde.
Cautela sobre resultados
Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de testes clínicos para avaliar a segurança da molécula. A medida gerou repercussão e foi sucedida por pedidos de acesso à polilaminina por via judicial.
Nesse sentido, o editorial faz um alerta sobre as expectativas exageradas em torno de uma tecnologia que ainda está em fase experimental. As cientistas destacam que "em áreas como neuroregeneração, o percurso entre descoberta científica, validação pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação tecnológica é necessariamente longo, complexo e dependente de evidências acumulativas".
"Nesse contexto, controvérsias científicas e institucionais não devem ser tratadas como anomalias, mas como parte inerente do funcionamento do sistema científico. Divergências metodológicas, questionamentos sobre evidências, debates sobre protocolos experimentais e discussões sobre validação são inerentes ao processo científico, especialmente em áreas inovadoras e de alta complexidade. O que o caso revela é a necessidade de fortalecer os mecanismos institucionais de avaliação científica, revisão por pares, transparência metodológica e governança da pesquisa, evitando que disputas científicas migrem prematuramente para arenas midiáticas ou judiciais sem a devida mediação técnico-científica", escrevem.
Elas também defendem que é preciso deixar mais clara a diferença entre pesquisa básica, evidências já consolidadas e aplicação clínica e que há uma responsabilidade direta na forma como essas informações são comunicadas ao público, para evitar confusões ou interpretações equivocadas.
O editorial enfatiza ainda a necessidade de fortalecimento da medicina translacional, afirmando que, por mais que o Brasil tenha tradição na pesquisa básica, ainda carece de mecanismos que integrem universidades, hospitais e outras instituições.
"Mais do que uma controvérsia científica específica, a trajetória da polilaminina revela virtudes e fragilidades estruturais do modelo brasileiro de inovação em saúde. Entre as virtudes, destacam-se a capacidade científica instalada, o protagonismo das instituições públicas de pesquisa e o avanço institucional na proteção do conhecimento. Entre as fragilidades, evidenciam-se os desafios na validação clínica, na gestão estratégica da propriedade intelectual, na comunicação científica e na articulação entre ciência, regulação e inovação produtiva", diz o editorial.
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(Com Agência Estado)
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