“Cadê meu celular?/ Eu vou ligar pro 180/ Vou entregar teu nome /E explicar meu endereço /Aqui você não entra mais/ Eu digo que não te conheço /E jogo água fervendo /Se você se aventurar”.
Na data de 20 de janeiro de 2022, Elza Soares, “a mulher do fim do mundo”, uma das maiores referências dos movimentos antirracista e feminista, despediu-se da Terra!
Mulher negra, não se importava com os melindres de uma sociedade (ainda) hipócrita, ao trazer em uma de suas canções mais emblemáticas, no ano de 2.002, que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, escancarou o racismo nosso de cada dia e a consequente coisificação do povo negro, especialmente da mulher!
De acordo com o Atlas de Violência lançado em 2021 pelo IPEA- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, no ano de 2.019, 66% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras.
Elza, por meio de sua música, em tempos nos quais tratar de assuntos de violência de raça, classe e gênero era tabu, em uma sociedade que admit[ia-e], sem pudores, a naturalização das discriminações, subalternidades e assimetrias sociais, sempre chamou a atenção para a necessidade em se vislumbrar o cenário de violência contra a mulher levando-se em conta o racismo como eixo articulador das desigualdades que impactam nas relações de gênero.
Ocorre que, embora brilhante e imensa num universo de gente apagada e mente pequena, “Elza Soares”, ainda hoje, se resume a um relacionamento conturbado, marcado por agressões, que viveu com Garrincha!
Dentre os princípios da filosofia estoica está o de que o Universo é cosmos, e não caos, logo, todas as suas leis são perfeitas, uma vez que somos governados por uma razão universal e divina!
“Não tenho medo da morte porque acho que não vou morrer. Vou virar purpurina.”
Elza Gomes da Conceição, que nasceu na favela carioca de Moça bonita na década de trinta, foi obrigada, pelo pai, a se casar aos doze anos de idade, e aos treze já estava grávida do primeiro filho. Foram sete ao todo. Dois morreram de fome. Uma de suas filhas, Dilma, foi sequestrada por um casal de sua confiança, e Elza só conseguiu reencontrá-la quando a menina já era adulta!
Em meio à dor, Elza cantou, rouca e loucamente, despontando para o mundo ao vencer um concurso de calouros, promovido pela Rádio Tupi.
De onde teria saído essa mulher? – “(...)do planeta fome(...)”.
Além da superação da dor, o canto lhe proporcionou também andar de taxi pela primeira vez- perto dos trinta anos; batizar e cantar para a seleção brasileira na Copa do Chile em mil novecentos e sessenta e dois; conhecer Louis Armstrong, que, reconhecendo a sua grandeza, se encantou por ela; e conhecer o amor, no jogador de futebol Mané Garrincha, que à época era casado.
Negra e periférica (as marcas de gênero, raça e classe são como cicatrizes), suportou a ira de toda uma sociedade que - me perdoem a redundância ao destacar machismo e conservadorismo num mesmo contexto-, machista e conservadora, tentou, de todas as formas fazê-la pano de chão, por ter “acabado” com o casamento de Garrincha.
Aos ataques que recebeu, no ano de mil novecentos e sessenta e três, respondeu com música:
“Eu sou a outra”!
Daqui, fico pensando e rindo na “OLA” de fúria do povo! Pensa, aquele monte de braço alastrado e berros de despeito de quem não cala uma mulher que sempre soube de si!!!
"Não tenho medo de nada. Temos que ensinar o medo a ter medo de nós."
Infelizmente, o romance de Elza foi marcado pelo alcoolismo e a agressividade de Garrincha.
E Elza?
Se defendeu como pôde, e cantou a dor que sofreu, denunciando os abusos vividos e o seu percurso de superação!
Em mil novecentos e oitenta e dois o casamento dos dois acabou, no ano seguinte Garrincha morreu, e Elza decidiu abandonar-se!
Há quem diga que o fundo do poço é o colo de Deus!
Elza foi de destruidora de lares e sem vergonha que gosta de tomar porrada, à cantora brasileira do milênio!
Da queda, ressurge não mais como estrela cintilante, mas como constelação!
Há quem diga que ela gostava de apanhar, que romanceava a violência, que fazia uso da imagem do companheiro para se promover, que atrelar a sua figura ao feminismo seria um desserviço.
Discordo!
Numa sociedade que sempre coisificou e culpabilizou a mulher pelas violências sofridas, Elza, num tempo que não era o nosso, se desnudou, nos trazendo os seus relatos de forma rica e corajosa, sempre!
"Na minha época, mulher só tinha o direito de apanhar calada".
Escancarou que a violência contra a mulher não era classista, nos permitiu acompanhar e participar da dor de sair de um ciclo de abuso com um homem que para ela foi sim, o seu grande amor, bradou aos quatro ventos o silenciamento que a vítima de violência sofria(e ainda sofre)! Não se permitiu ser amordaçada!
Foram muitas as mulheres que se viram e ainda se veem em Elza, que, ainda que tenha partido da Terra, permanece viva, em cada um(a) de nós!
Mostrar-se é um ato político. Humanizar mulheres, especialmente as negras, um gesto de amor. Mostrar-se humana, de carne, foi a sua missão!
"Eu não uso o pescoço para enterrar no peito não, uso o pescoço para ser erguido. E a cabeça também. Como mulher negra, tenho que botar o peito para frente".
Realmente não morreu! Virou purpurina!
*As citações trazidas no texto são de Elza Soares.
(*) BÁRBARA LENZA LANA é Advogada para Mulheres- Diretora Administrativa do Movimento Conecta- Líder do Comitê de Combate à Violência Contra Mulheres do Grupo Mulheres do Brasil, núcleo Cuiabá.
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