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Artigos Quarta-feira, 14 de Outubro de 2026, 14:11 - A | A

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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2026, 14h:11 - A | A

NOELISA ANDREOLA

Quando os homens estão à mesa, qual é o lugar das mulheres?

NOELISA ANDREOLA

NOELISA ANDREOLA

Acabou o primeiro turno das eleições e o que mais vejo são entrevistas com os marqueteiros, os homens que comandaram as campanhas, elaboraram as estratégias e construíram as narrativas que venceram nas urnas.

Mas posso lhes dizer uma coisa: havia muitas mulheres tão capacitadas quanto eles participando das decisões, pensando o marketing e ajudando a conduzir essas campanhas. Mulheres que também passaram meses sem finais de semana, sem feriados e, muitas vezes, sem vida fora da eleição. Mesmo assim, elas quase nunca são citadas. Muito menos entrevistadas.

Por que não somos chamadas? Por que não somos procuradas para contar como pensamos uma estratégia, administramos uma crise ou ajudamos a construir uma vitória? Certamente não é por falta de competência.

Esse apagamento me faz lembrar o recente episódio envolvendo as festas promovidas por Daniel Vorcaro para integrantes das elites política, econômica e jurídica brasileira. O que veio à tona não fala apenas sobre festas ou possíveis relações impróprias. Revela também a permanência de espaços de poder criados por homens e para homens, nos quais mulheres aparecem como mercadoria, entretenimento ou algo a ser consumido, nunca como pessoas capazes de participar das decisões.

A ministra Cármen Lúcia, única mulher no Supremo Tribunal Federal, não estava entre os convidados da festa realizada no Madame. Podemos relacionar sua ausência à reconhecida idoneidade da ministra, mas também precisamos olhar para algo maior: o pacto masculino de cumplicidade que ainda sustenta grande parte das relações de poder.

Os homens continuam fazendo negócios, construindo alianças e tomando decisões em ambientes aos quais as mulheres não são convidadas como iguais. Quando estão presentes, muitas vezes não são chamadas para ocupar a mesa, mas para servi-la.

Na política e na comunicação política, essa lógica se repete. Nós trabalhamos, pensamos, criamos e conduzimos estratégias. Mas, quando chega o momento de contar quem esteve por trás da vitória, os homens aparecem como os grandes comandantes. Às mulheres, quando muito, é reservado o papel de apoio.

Nossos corpos ainda são vistos como algo que pode ser usado. Nossos cérebros, por outro lado, precisam provar competência todos os dias para serem levados a sério.

A misoginia não permanece apenas nos grandes discursos. Ela aparece nos convites que não chegam, nas entrevistas que não são feitas, nos créditos que são esquecidos e nos espaços de decisão que continuam ocupados quase exclusivamente por homens.

Por isso, quando vejo mulheres defendendo discursos que pregam nossa submissão ou relativizam direitos que levamos décadas para conquistar, penso em como o cabresto ainda insiste em nos perseguir.

Talvez quem tenha nascido com todos os seus direitos garantidos não compreenda a necessidade de lutar para mantê-los. Nós, mulheres, não podemos nos dar a esse luxo. Nossos direitos não foram presentes. Foram conquistas.

E tudo aquilo que foi conquistado também pode ser retirado quando deixamos de vigiar, questionar e ocupar os espaços que ainda tentam nos negar.

(*) NOELISA ANDREOLA é assessora de Comunicação, formada em Jornalismo pela Universidade de Cuiabá (UNIC).

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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