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Artigos Terça-feira, 13 de Outubro de 2026, 08:39 - A | A

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Terça-feira, 13 de Outubro de 2026, 08h:39 - A | A

GONÇALO NETO

Angústia e liberdade

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO

Reprodução

GONÇALO NETO

A liberdade pode ser considerada a experiência humana mais almejada e, paradoxalmente, a mais temida. Ao longo de séculos, a filosofia buscou emancipar o ser humano das determinações impostas pela natureza, pela religião e pelo poder. Contudo, uma indagação persiste como inquietante: qual é a consequência ao se descobrir, por fim, que a escolha é viável?

Kierkegaard, pensador dinamarquês do século XIX, elaborou uma das reflexões mais inquietantes acerca da existência: ‘A angústia é a vertigem da liberdade’. Essa afirmação, em 'O Conceito de Angústia', indica que a liberdade não se configura unicamente como uma conquista. Trata-se, igualmente, de um abismo no qual a consciência vivencia sua própria fragilidade.

Visualize uma pessoa à beira de um abismo. O temor emerge da eventualidade de uma queda. Contudo, a angústia origina-se da consciência de que também existiria a possibilidade de se entregar voluntariamente. Não é apenas a ameaça externa que causa inquietação, mas também a constatação de que a vontade abrange possibilidades imprevisíveis.

Essa diferenciação altera a percepção acerca da condição humana. O medo apresenta um objeto específico; a angústia aparece diante da eventualidade. O ser humano não padece apenas em função dos eventos que se desenrolam, mas igualmente por causa das possíveis consequências de suas decisões.

Em Aristóteles, a concepção de liberdade moral é compreendida por meio da deliberação racional e do desenvolvimento das virtudes. Kierkegaard, entretanto, transfere a questão para a dimensão interna. Antes de realizar uma escolha acertada, vivencia-se o dilema de constatar que nenhuma decisão erradica totalmente a incerteza.

Séculos mais tarde, Jean-Paul Sartre aprofundaria essa visão ao afirmar que o indivíduo está irremediavelmente destinado à liberdade. A ausência de uma escolha também representa uma opção. A vida não proporciona uma solução formal e definitiva que possa isentar da responsabilidade pessoal.
Contudo, existe uma distinção essencial: enquanto Kierkegaard vincula a angústia à possibilidade, ao pecado e à existência diante de Deus, Sartre a entende sob a ótica de uma liberdade desprovida de um fundamento divino previamente determinado. Em ambas as situações, a liberdade deixa de ser apenas a ausência de impedimentos e se transforma em responsabilidade.

A multiplicidade de oportunidades, que deveria aumentar a felicidade, frequentemente culmina em ansiedade; não existe singularidade. À medida que aumenta o número de opções disponíveis, intensifica-se o receio de uma escolha errônea. A liberdade converte-se em uma exigência de eficácia.

Nesta dinâmica, Byung-Chul Han reconhece uma sociedade na qual a exploração não está apenas subordinada a imposições externas. O ser no mundo transforma-se em gestor e controlador de sua própria condição de vida. A promessa de ser capaz de realizar tudo vem acompanhada do sentimento de jamais fazer o bastante.

Considere que a angústia atual pode originar-se dessa contradição: há liberdade formal para optar, porém nem sempre estão disponíveis as condições materiais, emocionais e sociais necessárias para efetivar tais escolhas. A liberdade, ao ignorar as desigualdades, pode transformar-se em um privilégio disfarçado de responsabilidade coletiva.

Consequentemente, a verdadeira tragédia não se encontra em experimentar a vertigem diante do abismo, mas em abdicar da liberdade para jamais precisar confrontá-lo, uma vez que viver implica permanecer diante de trajetórias que não asseguram resultados.

É por aí...

(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) é da Academia Mato-Grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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