Nenhuma sociedade é verdadeiramente justa quando escolhe quais vítimas merecem ser ouvidas.
O Brasil avançou muito nas últimas décadas ao reconhecer a gravidade da violência contra a mulher. Foi um avanço necessário. Foi um avanço justo. E continua sendo indispensável.
A Lei Maria da Penha representa uma das mais importantes conquistas da sociedade brasileira na proteção da dignidade humana. Isso não está em debate.
O que precisa ser debatido é outra questão.
Quem defende o homem inocente?
Quem ouve o pai que perdeu o convívio com os filhos?
Quem acolhe o homem que teve sua reputação destruída antes mesmo da conclusão de uma investigação?
Quem se preocupa com aqueles que sofrem em silêncio por medo da vergonha, do preconceito ou da ridicularização?
Essas perguntas não diminuem a dor das mulheres.
Não enfraquecem seus direitos.
Não atacam suas conquistas.
Pelo contrário.
Uma sociedade madura é capaz de proteger as mulheres sem ignorar os homens.
É capaz de acolher uma denúncia sem abandonar a busca pela verdade.
É capaz de defender direitos sem abrir mão da Justiça.
Vivemos um tempo em que muitas pessoas passaram a enxergar a vida como uma disputa entre homens e mulheres. Como se um lado precisasse perder para que o outro pudesse vencer.
Mas essa lógica é destrutiva.
Homens e mulheres não são adversários. São parte da mesma sociedade. Constroem as mesmas famílias. Criam os mesmos filhos. Compartilham as mesmas dores.
O problema começa quando deixamos de olhar para os fatos e passamos a enxergar apenas narrativas. Quando isso acontece, a verdade perde espaço. E sem verdade não existe Justiça.
Se um homem agride uma mulher, ele deve responder por seus atos. Se ameaça, persegue ou pratica violência, deve ser responsabilizado na forma da lei. Essa é uma premissa inegociável.
Mas existe outra que também precisa ser: quando uma investigação comprova falsa acusação, calúnia ou denunciação caluniosa, a lei também prevê responsabilização. E ela precisa ser aplicada.
A responsabilidade não pode valer apenas para um lado. A igualdade não pode existir apenas nos direitos. Ela precisa existir também nos deveres e nas consequências.
Defender essa posição não é ser contra as mulheres. É ser a favor da verdade. E a verdade deve ser protegida independentemente de quem esteja diante dela.
Mas existe um grupo que sofre ainda mais quando a Justiça falha: as crianças.
Enquanto adultos disputam razão, os filhos crescem. Enquanto processos se arrastam, aniversários passam. Enquanto acusações e defesas se acumulam, vínculos familiares são enfraquecidos.
Nenhuma sentença devolve uma infância perdida. Nenhuma decisão judicial recupera os anos que deixaram de ser vividos entre pais e filhos.
Por isso, o centro dessa discussão não deveria ser homens contra mulheres. O centro deveria ser a proteção da verdade, da infância e da Justiça.
Precisamos de investigações rápidas. De equipes técnicas fortalecidas. De decisões responsáveis. De um sistema capaz de proteger vítimas reais sem abrir espaço para injustiças.
E precisamos ter coragem para falar sobre sofrimentos que muitas vezes são ignorados pelo debate público.
A proteção das mulheres é indispensável. Mas ouvir os homens também é necessário.
Uma sociedade equilibrada não escolhe quais dores merecem atenção. Não escolhe quais vítimas merecem acolhimento. Ela escuta. Ela investiga. Ela protege. Ela responsabiliza.
E, acima de tudo, ela busca a verdade.
Porque a dor não tem sexo.
A injustiça não tem sexo.
E a verdade também não.
(*) ADRIANE MARTINS é Teóloga, pedagoga, gestora ambiental e Assessora Parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso. É Pós-graduada em Auditoria e Perícia Ambiental, Pós-graduada em Auditoria Pública, Pós-graduada em Auditoria Empresarial e Pós-graduada em psicopedagogia
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