A cada eleição, cresce o número de políticos “tiktokeiros”. Candidatos que dançam, entram em desafios virais e transformam a campanha em uma sequência de conteúdos pensados para prender a atenção do eleitor nas redes sociais. ACM Neto, na Bahia, João Campos, em Pernambuco, e Flávio Bolsonaro, no cenário nacional, pertencem a campos políticos distintos. Mesmo assim, recorrem a uma linguagem semelhante. Isso não acontece por acaso. Os políticos não dançam por acaso. Eles adaptam suas campanhas a um ambiente em que um bom conteúdo, por si só, já não garante visibilidade. Para circular, a mensagem também precisa se adequar à lógica das plataformas digitais.
Nos últimos anos, a disputa eleitoral deixou de acontecer apenas nas ruas, na televisão ou no horário eleitoral. Ela passou a ser mediada por plataformas que distribuem conteúdos segundo critérios próprios. O que recebe mais alcance nem sempre é o conteúdo mais consistente. Em muitos casos, é o que consegue interromper o movimento do dedo na tela e manter a atenção do usuário por alguns segundos.
Essa mudança alterou a comunicação política. Movimentos corporais, trilhas sonoras, humor, cortes rápidos, expressões exageradas e repetição passaram a disputar espaço com programas de governo, propostas e debates. A dança é apenas a face mais visível dessa transformação. Ela não aparece porque o eleitor deixou de gostar de política, mas porque responde aos estímulos produzidos pelas plataformas. Quanto maior a capacidade de retenção, compartilhamento e reprodução de um conteúdo, maior tende a ser sua circulação.
Por isso, candidatos de partidos, regiões e ideologias diferentes acabam produzindo vídeos tão parecidos. Eles disputam votos, mas obedecem às mesmas regras de distribuição de conteúdo. A contradição fica ainda mais evidente quando observamos quem critica esse modelo.
Recentemente, Renan Santos, pré-candidato à Presidência, publicou um vídeo condenando candidatos que dançam durante a campanha. O argumento é que a política estaria sendo substituída pelo entretenimento, e a crítica parece fazer sentido. O problema é que o próprio vídeo utiliza exatamente os mecanismos que caracterizam a comunicação das plataformas, com cortes rápidos, frases de efeito, antagonismo, emoção, ritmo acelerado e linguagem pensada para maximizar alcance.
Até quem critica esse modelo continua dependente da arquitetura que tornou esses formatos eficientes. Isso não significa que candidatos devam abandonar linguagens populares. A política sempre utilizou músicas, imagens, símbolos e recursos culturais para dialogar com a sociedade. Nas plataformas digitais, esses elementos deixaram de complementar a mensagem. Em muitos casos, passaram a ser a própria mensagem.
Quando a visibilidade depende da capacidade de viralizar, propostas, programas e projetos podem perder espaço para conteúdos produzidos exclusivamente para gerar circulação. O verdadeiro debate não deveria ser se políticos devem ou não dançar.
A questão é entender por que a política passou a depender de performances para conquistar atenção. Enquanto a discussão permanecer concentrada na coreografia dos candidatos, continuará invisível o principal agente dessa mudança. Não é a dança que reorganizou a comunicação política. São as plataformas digitais e seus algoritmos, que passaram a definir quais linguagens circulam, quais narrativas ganham alcance e quais temas conseguem existir no debate público.
Isso afeta diretamente a democracia porque uma parte crescente do eleitorado se informa por meio de conteúdos curtos, fragmentados e orientados pela lógica da retenção. Quando o debate público passa a ser filtrado por critérios de engajamento, a política deixa de disputar apenas ideias e passa a disputar estímulos. O algoritmo não escolhe quem vence uma eleição, mas influencia quais discursos chegam ao eleitor, quais temas ganham visibilidade e quais candidaturas conseguem permanecer no debate público.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada. O problema não é descobrir por que os candidatos dançam. O problema é entender por que, nas plataformas digitais, quem não aprende a dançar corre o risco de desaparecer.
(*) VANESSA MARQUES é pesquisadora, professora e consultora em comunicação política, com mais de 20 anos de atuação no Legislativo, no Executivo, em campanhas e em mandatos. É mestra em Indústrias Culturais e Comunicação pela Universitat Politècnica de València, na Espanha, mestra em Comunicação Digital pelo IDP, em Brasília, e pós graduada em Economia e Ciência Política. É coautora de livros, autora de artigos de opinião e publicações científicas, com atuação voltada à comunicação estratégica, mobilização e posicionamento público.
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