Quarta-Feira, 25 de Março de 2020, 16h:23

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Pais, filhos e suas relações em tempo de Coronavírus

Por: ALIANA CAMARGO COSTA

Arquivo pessoal

Aliana Camargo Costa

No momento de crise em que vivemos, enfrentamos a preocupação de tornar a quarentena uma rotina saudável e que seja harmônica para e com os filhos. O distanciamento social, recomendado como forma de prevenção e com base ética para evitar que a pandemia por coronavírus se espalhe ainda mais, é um desafio diário para manter os filhos tranquilos.

O que se pode ter são escolhas baseadas no empoderamento dos pais a partir de leituras e informações confiáveis; e na solidariedade a partir de uma visão global, começando na ajuda dos que moram em sua casa, até a cidade e percebendo que o mundo vive uma crise que, após a tormenta, deixará mudanças de comportamentos.  

Sem escolas e os encantos da rotina (como diz o célebre cineasta japonês Yazugiro Ozu em seu maravilhoso filme “A rotina tem seu encanto”), é preciso ter paciência e sabedoria para direcionar o barco nessas águas incertas da pandemia. 

As crianças precisam de um mínimo de direção para suas tarefas escolares e isso deve ser equilibrado com as brincadeiras que são muito importantes também para o seu desenvolvimento. Mas o relacionamento que os pais podem criar com os filhos nessa quarentena será o que mais elas vão lembrar quando esse turbilhão passar. Portanto, agora é a hora de ser solidário e entender que os pequenos também estão sendo afetados emocionalmente com a mudança repentina. 

O mundo virtual está sendo um forte aliado para as mães e pais que antes não tinham ideia de como fazer essa direção funcionar. Pululam em grupos de whatsapp, instagram e youtube dicas e conselhos do que fazer com os pequenos. Empresas antenadas no compromisso que podem ter com a situação estão liberando cursos gratuitos para que os pais possam desenvolver com os pequenos atividades lúdicas e recreativas. Um deles é um e-book que ensina 20 brincadeiras terapêuticas para ajudar o seu filho a liberar tensões emocionais. O que a autora Vanessa Galvani divide como brincadeiras extravagantes e corporais servem tanto para os pequenos quanto para os adultos aliviarem as tensões provocadas pelo cenário de crise. Há também sites que disponibilizam cursos gratuitos para explorar a imaginação através dos desenhos (todos indicados abaixo). 

Para passar o tempo, sem saber, com certeza, quanto tempo é este que devemos esperar, não faltam histórias e informações. A começar por narrativas que tratam sobre a pandemia (“Corona, o vírus” de Maria Jesus Sousa (Juca) e ilustração de Maria Guerreiro), a turma do Maurício de Sousa também entrou na onda e fez livretos virtuais ajudando a conscientizar as crianças do grande problema ao qual estamos vivendo. 

Ou também podemos utilizar o ambiente virtual para proporcionar visitas a museus bem distantes como a lista com 10 endereços virtuais que circula pela rede (links logo abaixo). As visitas virtuais são ótimas dicas para aulas de histórias e de geografia. 

Certamente não estamos em tempos normais e o estar online é o único caminho para falar com e ver o mundo. E o que acontece quando estamos em casa tendo que se comunicar apenas à distância? Começamos a repensar muitos comportamentos. 

Até os pais que não eram tão adeptos estão começando a se abrir para o mundo virtual e seus encantos. Em grupos de mães dos quais participo já tem relatos de que a liberação do youtube está mais recorrente do que antes, está começando a fazer parte da rotina na pandemia. O mundo dos youtubers é um universo de muitas narrativas que vão do bom senso até a propagação de fake news. O que é preciso é ter a consciência do que a criança está vendo, sabendo que o youtube é um universo tão aberto, tão grande, que o filtro dos pais é necessário para que não haja ruído e excesso de informação para os pequenos. 

Essa precisa ser uma preocupação para com as crianças e para si também. O cansaço de tanta informação, seja em busca por informação do cenário gerado pela pandemia, seja pela liberação livre para os pequenos se entreterem, são importantes os limites e a conscientização que o acúmulo de informação pode gerar um estresse tanto nos pais quanto nos filhos. 

O psicólogo britânico David Lewis nomeou, pela primeira vez, o termo Síndrome da Fadiga de Informação (SFI), em 1996. Essa enfermidade é causada pelo excesso de informação ao qual nos deparamos todos os dias. A preocupação com a SFI são as aflições causadas, relatos de déficit de atenção, inquietude, incapacidade de tomar responsabilidades, crescente paralisia na capacidade analítica da realidade, fazendo com o que pensamento definhe. É preciso concordar com Byung-Chul Han que “mais informação não leva necessariamente a melhores decisões”, mas é preciso pensar na qualidade dessas informações. 

Portanto, estando na sociedade da informação, é preciso pensar nos excessos aos quais nos impomos, enquanto adultos, e nos que permitimos para as crianças.  

A pandemia pode trazer um convívio maior entre crianças e suas relações com os pais. Contar histórias, fazer um bolo juntos, aprender um instrumento musical, se permitir viver experiências com os filhos. Por aqui, já fizemos teatro de colher de pau e teatro de sombras, o desafio para a minha filha de 7 anos e o meu filho prestes a fazer 5 anos em meio a pandemia, é pensar em alguma narrativa curta e apresentar no palco feito de caixa de papelão. Além disso, já teve boate na sala, já teve filme, e a leve rotina que vai do português a matemática para a filha mais velha. Para as crianças não precisa muito, panos disponíveis na caixa de brinquedos podem virar cabana ou o manto da rainha da floresta. Um dos elementos que a pandemia nos trás é como você vai viver essa quarentena com os seus filhos? O stop foi dado por um vírus minúsculo, invisível, que mudará as relações no globo; se realmente as populações vão se permitir a esta mudança... A questão maior é trazer momentos em que as relações se tornem mais fortes, solidárias e éticas neste processo em que estamos inseridos.  

De que maneira precisamos encarar o mundo virtual e presencial para que seja equilibrado para nós e para os pequenos? Como os gestores das cidades, dos estados e dos países, os empresários vão encarar essa grande transformação econômica e social no mundo todo? Isso definirá como atravessaremos a ponte que está posta. 

Yuval Noah Harari nos traduz um pouco o cenário em que vivemos - “a humanidade precisa fazer uma escolha. Iremos percorrer o caminho da desunião ou adotaremos o caminho da solidariedade global? Se escolhermos a desunião, isso não apenas prolongará a crise, mas provavelmente resultará em catástrofes ainda piores no futuro. Se escolhermos a solidariedade global, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todas as futuras epidemias e crises que possam assaltar a humanidade no século XXI.”

A reclusão por conta do Coronavírus deve nos deixar outro mundo ou não, se alguns não se permitirem a essa mudança. Mas é preciso refletir: o que podemos aprender com esse vírus que está assolando o ambiente social e econômico no mundo inteiro? 

20 brincadeiras terapêuticas

https://www.vanessagalvani.com.br/

Curso oferecido pela Fazer Castell

https://cursos.faber-castell.com.br/combos/combo-numero-emcasacomfabercastell?utm_source=instabio&utm_campaign=faberemcasa&utm_content=link

10 museus para visitar estando em casa: Tour virtual e coleções online.

1. Pinacoteca de Brera - Milão https://pinacotecabrera.org/

2. Galeria Uffizi - Florença https://www.uffizi.it/mostre-virtuali

3. Museus do Vaticano - Roma http://www.museivaticani.va/content/museivaticani/it/collezioni/catalogo-online.html

4. Museu Arqueológico - Atenas https://www.namuseum.gr/en/collections/

5. Prado - Madrid https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-works

6. Louvre - Paris https://www.louvre.fr/en/visites-en-ligne

7. Museu Britânico - Londra https://www.britishmuseum.org/collection

Museu Metropolitano 8.-Nova Iorque https://artsandculture.google.com/explore

9. Hermitage - São Petersburgo https://bit.ly/3cJHdnj

10. Galeria Nacional de Arte - Washington https://www.nga.gov/index.html

 

(*) ALIANA CAMARGO COSTA é jornalista, Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT e Doutoranda em Educação pelo Programa de pós-graduação  em Educação da UFMT.

 

 



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