Artigos Segunda-feira, 02 de Maio de 2011, 19:11 - A | A

Segunda-feira, 02 de Maio de 2011, 19h:11 - A | A

Os operadores informais de constelações

À margem ou paralelamente a este tão citado serviço público brasileiro, do outro lado pessoas muito, muito, muito, muito especiais estão operacionalizando constelações, sendo há bastante tempo, e dentro de situações realmente difíceis.

HONÉIA VAZ

Arquivo Pessoal

*A Emerson, Neuza e Mário, respectivamente o jovem Gal. Bolívar, a Patch Adams de saia e a Salomão em muitas decisões difíceis na cuiabania. E, por meio deles, a todas as outras estrelas que conheço, no desejo de que eu alcance outras tantas mais por aí ainda nesta vida.

No dia 8 de fevereiro de 1826, o histórico conquistador das Américas, Simon Bolívar, na noite da glória da guerra em Chuquisaca e baile de vitória em Honda (Lima-Peru), fez repetir a mesma valsa por três horas e até que dançasse com todos os pares do salão. Em 22 de dezembro de 2010, em um clube de Cuiabá-MT, o jovem Emerson, 18 anos a ser completos em agosto de 2011, em seu baile de formatura de segundo grau, não determinou uma dama para dançar com ele a valsa, como é de praxe nestas ocasiões. Vai até as três mesas de seus convidados, com senhoritas e senhoras entre 15 e 60 anos, algumas com classe social muito acima de sua condição, e avisa que dançará com todas, “tirarei uma a uma para dançar comigo”, galanteou do alto de seu terno e gravata, sapato clássico, linguajar em português correto, sorriso em dentes brancos e per-fei-tos, cabelo corretamente penteado, bem empregado como menor aprendiz em um agência bancária, além de planos bem traçados para seu futuro profissional (vai ser jornalista), muita interatividade com todas as pessoas, conhecidas e desconhecidas na festa, e, acreditem: uma trajetória que inclui a origem em família muito humilde, e por causa das agressões do padastro, mais de 6 anos morando (até hoje) em um lar de menores vindos de situações de risco ou crime!

Bíblia, Reis 3:16-28. Duas mulheres tiveram filhos juntos, um dos filhos morreu e a mãe do que morreu, pegou a da outra mãe. De manhã, ela percebeu que aquele que tinha morrido não era seu filho e começaram a discutir. Foram até o palácio do Rei Salomão e contaram-lhe a história. Ele mandou chamar um dos guardas e lhe ordenou: "Corte o bebê ao meio e dê um pedaço para cada uma". Falado isso, uma das mães começou a chorar e disse: "Não, eu prefiro ver meu filho nos braços de outra do que morto nos meus", enquanto a outra disse: "Pra mim é justo". Salomão, reconhecendo a mãe na primeira mulher, mandou que lhe entregassem o filho. Nos últimos pelo menos 6 anos, o diretor de escola pública em Cuiabá-MT, Mário, que tem bem mais de 1 mil crianças e jovens sob sua responsabilidade, cotidianamente enfrenta desafios que implicam decisões difíceis, tendo como contexto uma região da capital de bairros da baixa renda e evidente criminalidade como parte da comunidade: meninas abusadas sexualmente pelo pai ou padrasto e que a mãe pede que não denuncie por que elas não têm para onde ir, pois o marido quem sustenta a casa; garoto de menos de 16 anos brigando entre si com facas e canivetes, e freqüente e veladamente ameaçando o diretor, que é muito sábio para responder na linguagem corrente que “no morro o chefe é ele”, mas resolvendo a questão com diálogos de mais de 2 horas para que baixassem as facas. Ele lida diariamente com casos de prostituição infantil, drogas, famílias dilaceradas, infâncias corrompidas, adultos perdidos, sendo um diretor que na ausência do Estado e do Município, toma para si a responsabilidade de tentar fazer o melhor que pode em situações que só um grupo especializado e multidisciplinar tem condições efetivas de resolver.

1972, Washington, EUA. Um médico norte-americano, Hunter "Patch" Adams, funda o Instituto Gesundheit. Como estudante de Medicina e médico ele dedicou sua vida a curar incluindo o riso como terapia e a realização de pequenos desejos que fazem os pacientes felizes. “Rir faz parte do contexto” de tratamento é sua explicação para o método, que foi popularizado na frase “rir é o melhor remédio”. Atualmente Patch e sua trupe de palhaços viajam pelo mundo para áreas críticas em situação de guerra, pobreza e epidemia, espalhando alegria, “o que é uma excelente forma de prevenir e tratar muitas doenças”. 26 de abril de 2011, Cuiabá-MT. Neusa, classe média, espírita Kardecista, funcionária de uma organização escolar, hoje com seus cerca de 50 anos, casada, com filhos e tendo adotado recentemente mais 3 crianças, irmãs entre 6 e 10 anos, com histórico de abusos sexuais, pais drogados e separados, entre outras tristezas, faz uma palestra sobre Páscoa, seu significado bíblico e interpretação de renascimento. Ela é um dos anjos da guarda de uma amiga minha, que no momento passa por aqueles períodos difíceis de separação conjugal, e que tem de Neusa atenção extra Centro Kardecista, recebendo mensagens via e-mail todos os dias e podendo conversar com ela, por MSN, em vários horários livres de Neusa, que não é simpática: é verdadeiramente disponível, humorista e alegre! Ela proporciona à minha amiga o alento que nem sempre tenho paciência ou consigo dispor na totalidade do tempo que ela precisa agora. A Neusa se auto-define como uma pessoa que “escolheu ser feliz”. Explico-lhes que esta definição pelo verbo “escolher” e não “ser”: ela teve “toda” uma vida de sérios problemas conjugais e com sua mãe, e outros tantos desafios que levam muitas pessoas, e quase a ela, a serem amargas com a vida, ou a justificarem à sua vitimização e aos piores defeitos em sua relação com o mundo e os outros, por causa das desavenças e humilhações vindas da família, da condição social insatisfatória, dos problemas cotidianos. Ela não era, mas escolheu ser feliz, levando junto e nas costas muito peso extra: sua família, as três garotinhas adotadas, minha amiga e várias outras pessoas as quais ela se faz uma cotidiana “anja da guarda”.

Quem deu a Emerson o mesmo porte e a confiança do bem nascido (formal e intelectualmente educado em várias artes), do general que ia à guerra como soldado e se tornou o presidente da primeira união de nações independentes na América Latina, nomeada Grã-Colômbia (1819 a 1830)? Como ele pode continuar tão amoroso com os pais e com todos? Quem possibilita que no dia-a-dia muito estarrecedor Mário aja com a sabedoria que leva em conta sua realidade (marginal) e se alia ao seu ideal (de educador) para fazer a diferença na vida destas crianças e adolescentes? Quem é o abençoado “psicólogo” de Neusa para o qual ela revela seus tristes momentos e possa voltar minuto a minuto, inteira, disponível e sempre com uma tirada bem-humorada para curar outras pessoas na doença que ela escolheu não viver?

Não a administraçao pública. Nenhum deles tem nas gestões em quaisquer instâncias – municipal, estadual e federal as ferramentas e canais que precisam para fazer ou ser o que são. Neusa e Mário são praticamente sozinhos e por eles mesmos ONGs em favor de todo próximo imediato. No caso de Emerson, ele teve, no máximo, apoio em uma organização de assistência social bancada pelo empresariado e entidades empresariais, além de contar com a confiança de uma cooperativa de crédito que o emprega e assim prossegue por que, administrativamente, está muito satisfeita com o rendimento e postura do garoto. Ele é um menino especial por si mesmo, mas a casa transitória (quase permanente no caso dele e de vários outros lá) estabelece um ponto positivo no caos praticamente total de uma criança que precisa e quer sair de seu lar pelas condições negativas.

Lembro que o sistema, as famílias e a sociedade podem corromper pessoas brilhantes, tornando-as complexadas, vítimas sofredoras no lugar de promotores de ações positivas e transformadoras, agentes criminosos ou perniciosos em menor grau, independente da classe social. E, de outro lado, o Estado pode promover a maior de todas as correntes do bem, por meio das escolas, casas de apoio, sistemas de incentivo ao empreendedorismo, postos de saúde (Puxa vida, não é novidade terapia psicológica em sistema público para curar altos índices de doenças dermatológicas em mulheres e crianças, percebem a correlação?), em todas as suas secretarias e alçadas.

E ainda que os governos citem números poderosos para se justificar, basta uma visita a uma escola e um único bairro e os teremos desmentidos, enfraquecidos ou contrariados pelo mesmo índice de pessoas dentro das metas a serem alcançadas no Todo. As administrações públicas têm muito a fazer oficialmente, de forma mais organizada, criativa e permanentemente, por que o tempo urge na miserabilidade, no estupro, na violência, na humilhação, enquanto que de cá despachamos milhões (R$) em belos escritórios e no conforto e segurança, com almoço muito saboroso à espera.

Acredito que, na verdade, em muitas de suas ações as administrações públicas tendem até a apagar o brilho das pessoas dependentes destas. Creio mesmo que o povo brasileiro e, por tal, o mato-grossense, não precisa de “esmola”, mas de investimento (se é que sabem os administradores públicos a diferença).

Mas, falarei mais sobre isto posteriormente, já que hoje escrevi este texto principalmente para informar que de qualquer forma e à margem ou paralelamente a este tão citado serviço público brasileiro, do outro lado pessoas muito, muito, muito, muito especiais estão operacionalizando constelações, sendo há bastante tempo, e dentro de situações realmente difíceis, as estrelas deste Sistema que ainda está prospectando o brilho dos cidadãos. *Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade destas pessoas reais e de Cuiabá.

(*) HONÉIA VAZ é jornalista em Cuiabá-MT, e colecionadora de histórias de estrelas de primeira grandeza. A cada tempo penso e falo do brilho delas para me inspirar, o que agora compartilho com vocês. É colaboradoda de Hipernopticias.

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