Nunca se opinou tanto — e nunca se pensou tão pouco sobre si mesmo. Esta talvez seja a marca mais evidente do nosso tempo: um excesso de julgamentos sobre o outro convivendo com uma escassez inquietante de autocrítica. Cercados por discursos inflamados, seguimos, em grande medida, reproduzindo comportamentos padronizados, moldados pelas mesmas influências que fingimos contestar.
Houve um tempo em que o conhecimento carregava um valor simbólico mais denso. Aprendia-se nos livros, nas trocas presenciais, nos espaços em que o diálogo exigia escuta, responsabilidade e presença real. As injustiças sempre existiram — é verdade —, mas o confronto se dava dentro de limites mais claros, onde o outro não era um perfil descartável, e sim alguém diante de nós.
Hoje, a informação está a um clique. Tudo se expõe, tudo se comenta, tudo se julga. O problema não está no acesso, mas na forma como se consome: rápida, superficial, quase automática. Como já alertava Sigmund Freud, “o ego não é senhor em sua própria casa”. Ainda assim, multiplicam-se vozes que se colocam como intérpretes da vida alheia. Não apenas opinamos — projetamos. Atacamos no outro aquilo que nos habita, mas que nos recusamos a reconhecer. A crítica, nesse contexto, deixa de ser exercício de pensamento e passa a funcionar como mecanismo de defesa.
A ironia é inevitável: somos seres sociais que parecem ter desaprendido a alteridade. Opina-se sobre tudo — aparência, escolhas, crenças, trajetórias — quase nunca com disposição real para compreender. A reciprocidade tornou-se um discurso conveniente, frequentemente invocado por quem exige do outro aquilo que não pratica.
E há um ponto ainda mais sensível: discordar deixou de ser parte do pensamento para se tornar um reflexo. Quando a reação vem antes da reflexão, não há debate — há apenas ruído. E onde há ruído constante, não há construção possível. A opinião vazia não ilumina; apenas ecoa certezas frágeis. Em um país que se pretende plural, é preocupante ver o diálogo reduzido a confronto. O direito à palavra é essencial, mas não dispensa algo ainda mais raro: honestidade intelectual. Falar sobre política, ciência ou qualquer tema relevante exige responsabilidade. Sem ela, o discurso deixa de ser ponte e passa a ser muro.
No fim, tudo converge para uma palavra simples, mas cada vez mais negligenciada: RESPEITO. Não como retórica conveniente, mas como prática cotidiana. Respeitar implica reconhecer a complexidade do outro — e, sobretudo, a própria.
Talvez o problema nunca tenha sido o outro. Talvez seja, desde o início, o espelho que evitamos encarar.
*KAMILA GARCIA é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise.
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