Lembro-me de uma conversa com um sábio indiano sobre as religiões. Disse ele: “As religiões surgiram pelo mal-entendido dos discípulos da palavra dos Mestres”. É justamente em interpretações equivocadas dessa natureza que originam incontáveis problemas e, muitas vezes, se legitimam abusos das mais diversas configurações, sob o disfarce da virtude.
Nesse cenário, o que dizer da distorção, por parte de sacerdotes de diferentes tradições, acerca do verdadeiro sentido do perdão, por exemplo? Há evidências de que muitos orientam mulheres a suportar relações claramente abusivas em nome da “preservação” da família e de um perdão indevidamente atribuído a Jesus Cristo.
Jesus pregou o amor, a dignidade e a justiça — jamais se colocou ao lado de quem pratica violência ou qualquer forma de opressão, em hipótese alguma. O perdão que ensinou, porém, insere-se em outra perspectiva e não deve ser usado para justificar ou legitimar violações.
Diante do uso distorcido e da manipulação do ato de perdoar — tanto por parte de lideranças religiosas quanto dos próprios agressores —, torna-se urgente distinguir atritos familiares de quadros de violência doméstica.
Enquanto conflitos interpessoais podem ser solucionados pelo diálogo e levar à ressignificação das relações, o abuso é um padrão de controle, dominação e anulação da vítima. Quando silenciado por um pseudo-perdão, favorece a escalada para o feminicídio ou para o colapso emocional da mulher, resultando inclusive em suicídio.
Estudos científicos apontam que a violência cometida pelo parceiro íntimo é um fator de risco elevado para a ideação suicida. As agressões provocam fissuras emocionais profundas e intenso sofrimento psíquico.
Existe um ponto de inflexão em que o perdão deixa de ser virtude e precisa ser criticamente confrontado. O que acontece quando, em nome dele, se silenciam violências? Quando a reconciliação passa a significar permanência em um sofrimento insustentável?
É fundamental compreender a diferença entre conflitos relacionais e condutas abusivas. Atritos fazem parte da convivência humana: desentendimentos pontuais, frustrações e falhas acontecem em qualquer relação. Saber relevar certas situações pode fortalecer vínculos familiares, sociais e evitar o isolamento.
Mas violência é outra coisa.
Violência física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial não são “problemas de casal” — são crimes. E crime não se tolera nem se perdoa; denuncia-se.
Diante da epidemia de feminicídios no Brasil — com 1.568 vítimas em 2025 — essa distinção salva vidas.
É importante observar os sinais. A violência do homem contra a mulher raramente começa com agressão física. Em geral, inicia com palavras, desvalorização, xingamentos, humilhações e formas sutis de controle que acabam sendo normalizadas como “grosserias” ou “jeito de ser”.
Mas não são. A agressão verbal já é violência — e, quando naturalizada, torna-se o primeiro degrau de uma escalada perigosa de abusos, às vezes irreparáveis!…
Negligenciar ou Ignorar o comportamento misógino, contribui para que mais mulheres sejam alvejadas, silenciadas e assassinadas pela violência de gênero, frequentemente alimentada por discursos de supremacia patriarcal, que encontram abrigo até mesmo em religiões institucionalizadas.
A divergência se transforma em abuso quando o respeito deixa de existir. Humilhação, controle, medo ou intimidação com ameaças, chantagens são indicações claras de alerta para a mulher.
Se há medo, não há relação saudável.
A violência doméstica costuma ser progressiva. Por isso, reconhecer os primeiros sinais é essencial para interrompê-la e possibilitar a libertação dos perigosos relacionamentos abusivos.
Agir a tempo pode impedir que a violência masculina contra a mulher evolua para o feminicídio ou um aprisionamento psicológico - este, muitas vezes invisível, mas igualmente devastador que pode desencadear outras tragédias, inclusive levá-la ao suicídio, como mencionado anteriormente.
À luz desse contexto, as instituições de Justiça e segurança pública não podem se omitir. Incumbe-lhes o dever de reconhecer, com rigor, os casos em que as agressões prolongadas praticadas pelo parceiro da mulher culminam em desfechos fatais ou autodestrutivos — um fato mais frequente do que se admite publicamente. Lamentavelmente é uma realidade subnotificada, porém relevante sob a perspectiva jurídico-penal e da proteção de direitos fundamentais.
É urgente chamar a atenção para a realidade de mulheres suicidadas-assassinadas pelos abusos de seus parceiros, após sofrerem torturas psicológicas e chantagens reiteradas em um relacionamento abusivo. Portanto, nesses casos, impõe-se uma pergunta incontornável: trata-se de suicídio ou de feminicídio? Um crime sem arma de fogo, mas executado com armas igualmente letais.
Quando o respeito se rompe e o medo se instala, já não se trata de desentendimento — é violência, que
pode levar à morte. Nenhuma agressão se relativiza, se negocia ou se silencia. Exige resposta imediata e responsabilização criminal rigorosa do agressor. O silêncio diante de tais situações implica conivência e contribui para a perpetuação de estruturas de injustiça.
Se você sofre violência doméstica ou de gênero, reúna forças para procurar os órgãos que podem auxiliá-la, como a Delegacia da Mulher, o Ministério Público - Espaço Caliandra e a Defensoria Pública - NUDEM (Núcleo de Defesa da Mulher).
Neste momento, ressoa em mim a afirmação de Gisèle Pelicot em seu livro Um Hino à Vida: "A vergonha precisa mudar de lado". Sim, a vergonha não nos pertence. Ela recai tão somente sobre o homem que violenta a vida de uma mulher.
Proteja sua vida. Proteja sua integridade. Apoie outras mulheres.
E, se você presenciou qualquer ato de violência contra uma mulher, não se cale.
Denuncie. Falar é um ato de coragem — e pode salvar vidas.
Ligue 180.
(*) ENILDES CORRÊA é Administradora, Palestrante, Cronista, Professora de Yoga e Orientadora de meditação.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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