Desde que eu me entendi como um ser vivo neste mundo, que sente, ama, vibra, chora, se enraivece e se apaixona, eu escrevo letras no papel, amontoados de palavras em busca deste sentido pulsante de estar no presente. Da máquina de escrever da minha mãe aos seis anos de idade às brincadeiras de jornalista por toda a infância, simulando entrevistas, apresentação de programas de rádio e tv, lendo matérias do impresso sem entender direito o que era aquilo que estava diante de mim. Ainda neste lugar de criança, lembro dos adesivos pela casa “economize energia, saiu do cômodo? desligue a lâmpada”, e depois os adesivos gastos sem necessidade porque houve um programa nacional chamado Luz para TODOS. A energia que move o mundo em uma estrela reluzente. Dos postes de iluminação à ligação com a arte sempre forte e intensa. Pude assistir de perto a proliferação de pontos de cultura por todo o Brasil, o ingresso à universidade pública, entender sobre o papel desta função que me move desde sempre, ética jornalística, a luta perene e contínua pela democracia, que ainda que seja imperfeita nos garante direitos e deveres, não a obscuridade mórbida e mortífera da ditadura, virar repórter de política antes de formar na UFMT e entender mais sobre a dinâmica dos poderes, de como precisávamos estar ali vigilantes, cobrando, denunciando, levando informação confiável, com os diferentes lados, questionamentos que até podiam não ser respondidos, mas nunca eram censurados. Passar para “o outro lado do balcão” e me aprofundar mais sobre a “letra fria da Lei”, e como as pessoas avançavam para que o lado social, humano, estivesse respeitado e respaldado, outro espaço de luta pela garantia de direitos, o aprendizado sobre a vigilância coletiva, nunca vacilar diante da injustiça.E a minha arte sempre ali, me acompanhando, nas peças de teatro que assistia, nos filmes e livros que abriam a minha mente, nas conversas com artistas que resistiam à duras penas, mas naquele momento de País, encontravam incentivo para seguir adiante e ter no seu fazer artístico o seu ganha pão, na imensidão de um continente. Lembro de encontrar a arte nos lugares mais inesperados e refletir sobre quantos artistas não descobertos estão por aí no Brasil afora? Escrevi e acreditei nisso toda a minha vida, e consegui trazer um pouco de luz para a cultura em um projeto independente e de cidadania que resistiu por seis anos até que veio aquilo, aquele momento difícil de processar, de engolir, de aceitar. Como esse país, que eu vi mudar tanto de quando eu era criança até a vida adulta, resolveu legitimar, por meio do voto, um projeto de poder que se orgulhava em dizer que veio para aniquilar, dizimar, povos originários, florestas, rios, oceanos, “minorias”, ativistas, artistas, a diversidade tão linda e preciosa de um povo que sempre acreditou e lutou, ainda que contra as maiores opressões.
Sim, o Brasil é um país forjado no sangue. Centenas de anos se passaram e a luta segue viva para que esse mesmo povo possa dançar em cima dos ossos que trouxeram a sua liberdade. Como posso ser outra coisa se não uma pessoa que acredita? Que imagina um mundo mais igual, com futuros possíveis para todas as pessoas? Um mundo onde a gente possa viver a arte e da arte, onde as palavras soltas no papel ganham vida, a música se alastra pelas ruas, o carnaval toma conta das avenidas, as cores e os céus, uma natureza profunda e exuberante, com ecossistemas tão únicos e delicados, com animais resilientes que sobrevivem apesar da nossa ganância devastadora? Como não vou acreditar em um país que tem educação e saúde públicas de qualidade para TODOS os seus cidadãos? Como não vou acreditar neste país que eu nasci e cresci e me deu um sentimento de pertencimento tão verdadeiro? Quanto mais conheço do Brasil, mais me apaixono pelas pessoas e pelas paisagens. Tem tanto amor e luta, tanta gente que persevera apesar de… mas também tem esse outro país que me assusta, que se convence de que o caminho é a aniquilação de tudo o que existe aqui de mais precioso. Que não enxerga a dimensão de tudo o que temos, nossas culturas tão diferentes e variadas, biomas fundamentais para o equilíbrio do meio ambiente em todo o mundo, amazônia, cerrado, pantanal, mata atlântica, pampa, caatinga. A luz da estrela brilhou porque o povo se entendeu pertencente, entendeu que precisava chegar lá no mais alto cargo eletivo para concretizar conquistas históricas para os trabalhadores, entendeu que precisava revirar os escombros dos porões da ditadura militar, devolver às famílias os seus desaparecidos, distribuir suas riquezas, fazer com que os mais pobres tivessem acesso a tudo aquilo que estava concentrado nas mãos das elites oligárquicas que se refestelam em um banquete egoísta enquanto as pessoas padecem desde que o Brasil foi invadido e dividido em capitanias hereditárias.
Tanto mudou de lá pra cá, mas como a história ensina, basta um vacilo para o retrocesso se instalar, é devastador porque a vigília nunca termina, direitos garantidos nunca estão verdadeiramente garantidos enquanto o jogo de poder se desenrola diante dos nossos olhos incrédulos. Como pode ser o mesmo Brasil? Dividido por fakes news, por algoritmos que ditam e moldam nossas visões de mundo, que nos afastam e nos trazem o pior do que podemos ser enquanto humanos, da interferência do símbolo supremo do capitalismo predatório norte americanoide, da bota do fascismo esmagando o rosto de quem ousar desafiar as estruturas, o sistema que dizem rechaçar mas os alimenta há décadas, um discurso perigoso para se dizer contra aquilo que o mantém vivo, e as pessoas acreditam porque esperam chegar lá também, comer caviar e lagosta e se banhar em praias privativas onde o povo não pode pisar. Mas isso não deveria ser para todos? As águas não tem dono, a floresta não está ai para ser predada por quem a devasta para plantar soja e encher o solo de veneno. Todos não deviam ter comida no prato? Conhecer as belezas restritas a poucos e seletos? Os filhos devem honrar os pais ou se rebelar contra a mão pesada do patriarcado, romper com traumas geracionais, com dores históricas, com abusos frequentes? A teologia do domínio fazendo sua casa em um país devastado por tanta disputa de narrativa. Vejo gente que amo tanto defender o inescrupuloso, vejo gente fazendo da luta o seu dia a dia para que o retrocesso não se instale e nos devolva ao obscurantismo que sempre está a espreita. O fantasma do comunismo vivo nas cabeças como um assombro que pode devorar a possibilidade de ter o mesmo sonho falso projetado nas telas pelas rotinas de influencers que queimam carbono em jatinhos particulares para malhar em uma academia a milhares de quilômetros de distância e deixar o bumbum em pé com tanta bomba. Falam tanto em Deus, mas alastram labaredas de fogo para consumir árvores, memória, ciência, museus, arte, rios e história.
É o mesmo país de Zé Celso, Lina Bo Bardi, Clarice Lispector, Rita Lee, Gilberto Gil, Vladimir Herzog, Frei Betto, Wlademir Dias Pino, Mateus Aleluia, Sueli Carneiro, Hilda Hilst, Paulo Freire, Milton Santos, Conceição Evaristo, Glauber Rocha, Gal Costa, Elis Regina, Angela Roro, Hélio Oiticica, Ruth Guimarães, Aldir Blanc, Milton Nascimento, e tantas outras estrelas, que como Luiz Inácio Lula da Silva, nunca desistiram da luta, nunca desistiram e nunca se entregaram.
A estrela há de brilhar, mais uma vez, iluminando o caminho tortuoso que a disputa pelo poder quer nos arrastar. O coração seguirá pulsando, vivo, forte, esperançoso. Caminhar em direção ao pássaro fugaz da utopia, no horizonte onde o futuro se esconde, para alcançá-lo com mãos firmes e transformá-lo em uma vida mais justa para todos, e não para os poucos, sentados em seus bunkers, semeando desespero e cegueira coletiva, para que entreguemos o nosso Ouro, que é este chão, esta Terra, este povo.
(*) MARIANNA MARIMOM é escritora e jornalista com mais de 15 anos de experiência, idealizadora do portal Cidadã(o) Cultura em Mato Grosso, e atualmente é diretora de comunicação na agência CDI, em São Paulo.
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