No último dia oito de fevereiro, por volta das quinze horas, dois homens estupraram uma menina de quatorze anos na praça Rachid Jaudì, um dos pontos turísticos da cidade de Cuiabá/MT.
Embora a menina tivesse gritado por socorro, e fosse um local de grande circulação, “ninguém” ouviu!
Logo após, as notícias: “MENINA DE 14 ANOS É ESTUPRADA”- quem é sujeito aqui? A culpa é de quem?
Mitos são narrativas utilizadas pelos povos gregos antigos para explicar fatos da realidade e fenômenos da natureza que não eram compreendidos pelos “homens”.
Carregadas de simbologia, personagens sobrenaturais, deuses e heróis, essas narrativas constituíam um guia confiável para a vida em sociedade. Passadas de geração em geração, sem que nos demos conta, elas passam a compor o nosso universo de crenças.
Quem nunca ouviu falar que “a esperança é a última que morre” que atire a primeira pedra!
Quem nunca nutriu esperança até a exaustão, descansou e voltou a nutrir mais um pouquinho, que se manifeste.
“É verdade”- dizem! Verdade de quem? De onde?
Peggy Reevers Sandy, citada por Gerder Lerner, em “A criação do Patriarcado”- (2009), nos traz que “ao articular sobre como as coisas eram no início, as pessoas (...)fazem uma declaração essencial a respeito da sua relação com a natureza e sua percepção da fonte de poder do Universo”
Filha de Fórcis e Ceto, antes de ser tornar o monstro decapitado por Perseu, Medusa era uma sacerdotisa com traços finos e delicados, cabelos longos, e uma beleza invejável, que vivia no templo de Atena, a deusa da sabedoria.
Para exercer o sacerdócio, era dever e vontade de Medusa manter-se virgem e casta (“pura”), sendo comum, no entanto, que homens e deuses, atraídos por sua beleza, se dirigissem ao templo de Atena, única e tão somente para observar Medusa, o que despertava a fúria da deusa para com a sacerdotisa!
Dentre esses homens e deuses, Poseidon, embora consciente de que as sacerdotisas daquele templo deveriam manter-se puras, assediava Medusa na medida em que ela se esquivava dele, até que, dominado pela paixão, a estuprou ali, no templo, diante da estátua de Atena que, tomada pelo ódio, decidiu castigá-lA.
Para a deusa, Poseidon apenas seguiu os seus instintos de homem.
Medusa, por sua vez, foi estuprada por ele, profanando o templo, culpa dos seus encantos de mulher.
Percebem? “Menina foi estuprada! ”
O dever de castidade foi quebrado! Medusa deixou de ser pura, e por ter violado o templo, por Atena foi amaldiçoada: seus cabelos viraram serpentes, seu corpo foi coberto de escamas, seus dentes se tornaram dentes de javali e toda pessoa que para ela olhasse, viraria pedra.
“O que uma menina de quatorze anos estava fazendo sozinha, andando pela praça às quinze horas? ” – Voltando da aula de informática!
“Ela não viu que a praça estava abandonada? ” – Pessoas transitam por ali!
Se ela estava tão certa de que foi estuprada, porque tentou se jogar diante dos carros em movimento para morrer?
Medusa, a górgona com cabelos de serpente e olhar petrificador, é a figura mítica que legitima a invisibilidade e a culpabilização das mulheres estupradas.
No dia 23 de fevereiro de dois mil e vinte e dois, um grupo de mulheres anônimas, ativistas e não ativistas encamparam um ato silencioso na praça Rachid Jaudì. O nome do ato?
“E SE FOSSE SUA FILHA? ”
Embora algun(ma)s de nós, eu, inclusive, evitemos chamar a atenção para os direitos humanos de mulheres e meninas vinculando-as a outras figuras, devo reconhecer que na maioria das vezes é o que nos resta de retórica para sermos vistas e ouvidas, a princípio.
Estar diante de questionamentos quanto ao privilégio de poder estuprar mulheres é incômodo para quem faz questão de manter-se nele, ainda que se veja incapaz de fazê-lo, a gente sabe.
Chamar a sociedade, leia-se: todas, todos e todes para a responsabilidade em educar e educar-se, também!
Provocar o Poder Público então? Quem somos nós nas nossas insignificâncias para cobrar segurança e políticas públicas de educação como forma de prevenção das autoridades?
Para além da narrativa que valida o estupro das meninas e mulheres, especialmente as periféricas, trago também a minha experiência enquanto mulher (não mais) anônima que esteve no ato: o que vi é que para uma grande maioria ali uma menina estuprada é só uma menina estuprada, ponto.
Por outro lado, um grupo de mulheres articuladas reivindicando direitos e chamando a sociedade à reflexão, é um incômodo sem proporções!
Também, ai de nós que encampamos esses movimentos e nos comportamos conforme os nossos valores e ideais, caso contrariemos aquelas que se sentem as donas das dores do mundo!
Quando falamos em defesa de classes e quebra de estrutura, reconhecemos a nossa existência no plural, e isso nos torna alvos fáceis de todo tipo de mazelas.
Poseidon estuprou, é fato.
Mas Atena, que estava lá, fez o quê e por quê? Não é preciso desenhar para que fique claro quem venceu essa batalha, contudo, são novos os tempos!
À medida em que avançamos e nos posicionamos, nosso olhar se expande para além de nós: TODAS, indistintamente, SOMOS FILHAS!
Que a nossa consciência nos permita formar oceanos!
(*) BÁRBARA LENZA LANA é Advogada Para Mulheres, Líder do Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher do Grupo Mulheres do Brasil-Núcleo Cuiabá, Diretora Administrativa do Movimento Conecta.
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Lyah Jaudy 04/03/2022
Acho um absurdo uma Praça tão conhecida e turística perto do comércio local e trânsito agitado não ter um policiamento e num horário das 15 h. Lamentável o pensamento de dizer o que uma moça de 14 anos está transitando sozinha... Atualmente o mundo é diferente demais, pai e mãe trabalham, filhos vão ao colégio de ônibus para quem não tem recursos financeiros para leva- Los de veículos próprios . Eu, minhas irmãs e primas vínhamos todos os dias a pé do colégio coração de jesus a época de 1973, mas era aquela época e hoje temos sim que ter a segurança pública espalhadas pelas vias estratégicas ou devemos armar nossas crianças com canivetes, estiletes e outras armas para nos defender? Teremos que ensinar os nossos filhos reagir dos marginais e desocupados que andam pelas ruas, na maioria drogados, doentes ? Teremos que ser deuses e super heróis ? E se fosse com você? Lyah jaudy
Ileniel Nunes 25/02/2022
O poder público nada fará por ser a filha de um cidadão que não move o mecanismo de interesse-interesseiros. Apenas por isso. É filha de uma família comum, sem posses ou poder políticos ou econômicos. Não foi vilipendiada nos grandes e luxuosos condomínios por seus iguais (poderosos e ricos), quiçá em rincões dos acessos aos poucos e abastados. Enfim ... Até mesmo a sociedade se mostra sem empatia, por não termos mais onde nós mirarmos nos exemplos. O povo tem apenas espelhos opacos no onde se mirar sobre cidadania, ser cidadão, ser humano.
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