Enquanto filha de um pai que por muito tempo foi advogado, uma das minhas brincadeiras de criança preferidas consistia em permanecer sentada à mesa de trabalho dele, fazendo de conta que escutava clientes e digitava uma coisa aqui e outra ali.
Ele tinha uma máquina de escrever verde, e o papel que utilizava vinha em blocos, estando contidas nas folhas, sua marca, nome e sobrenome!
Eram dois os meus sonhos de menina: ser mãe, e ser advogada, e embora eu não fizesse ideia de como o processo da vida me levaria à concretização desses sonhos, persisti, ora em linha reta, ora fazendo curvas, e hoje estou aqui!
Numa sociedade que nos induz à docilidade e à ocupação dos espaços domésticos, que deixa de precificar o trabalho doméstico sob o argumento de que se trata de pequenos gestos de amor, confesso que foram inúmeras as vezes em que, embora no centro da minha vontade no exercício da profissão, me vi destoante dos meus propósitos: não foram poucas as horas em que estive cuidando de casa sentindo o peso de não estar cuidando do escritório, ou cuidando do escritório carregando o peso do remorso por não estar em casa.
Que “guardei” minhas crianças nos colchões escondidos atrás da minha cadeira, almocei de salto 15, cheguei esbaforida nas festividades do dia das mães, que via de regra, se davam nos finais das tardes das sextas que antecediam os domingos.
A celebração do dia 15 de dezembro como sendo o dia da Mulher Advogada é um tributo a Myrthes Gomes de Campos, nascida em Macaé, no dia de Janeiro, no ano de 1.879, a primeira mulher a exercer a advocacia no Brasil! Para além da carreira brilhante, Myrthes foi uma mulher à frente do seu tempo, encampando verdadeiras batalhas para que pudéssemos alcançar, por exemplo, o direito ao voto feminino e ao divórcio!
Uma das suas maiores indignações era o artigo 6, do Código Civil de 1.916, que considerava incapaz a mulher casada, enquanto subsistisse o casamento!
Falar de mulheres é falar sobre nós, e hoje, dirijo a minha narrativa para aquelas que, assim como eu, são Mulheres Advogadas, que nos meses de julho podem ser vistas na companhia de crianças pequenas nos corredores dos fóruns, e que, de forma articulada, seguimos atuantes e firmes, enfatizando não só a importância da nossa efetiva participação na construção de uma advocacia que prima pela emancipação de mulheres, advogadas ou não, como também defendendo os nossos espaços! Nós, mulheres, somos mais da metade da população mundial.
Enquanto advogadas, mais da metade das figuras desse sistema! “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”- Simone de Beauvoir Que possamos, nas nossas atuações, refletir essa realidade, sem que isso nos custe o apagamento do nosso eu!
(*) BÁRBARA LENZA LANA - Advogada Para Mulheres- Membro do Movimento Conecta21dias.
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