O dia 13 de abril marca o calendário nacional: Dia da Mulher Sambista. A data faz homenagem à Yvonne Lara da Costa, mais conhecida como Dona Ivone Lara. Ela nasceu no Rio de Janeiro no dia 13 de abril de 1921, fazendo a passagem em 16 de abril de 2018, também na Cidade Maravilhosa.
Existem datas que passam a reorientar a memória coletiva, ultrapassando o caráter comemorativo e assumindo contornos históricos. É preciso reconhecer a centralidade das mulheres na construção do samba, que se constitui em um dos pilares da identidade cultural brasileira. Dona Ivone Lara abriu caminhos onde havia silêncio.
Ela fez a revolução silenciosa em um ambiente historicamente dominado por homens, especialmente no universo das escolas de samba e das alas de compositores. E ela não apenas ingressou, mas se afirmou com uma autoridade que não precisava de alarde. Sua trajetória materializa a exclusão sistemática das mulheres dos espaços de criação, decisão e reconhecimento.
Enfermeira, assistente social, mulher negra e suburbana, ela carregava em si múltiplas camadas de invisibilização. É nesse ponto que sua história dialoga com o feminismo contemporâneo, sobretudo com as vertentes que reconhecem a interseccionalidade como elemento central da luta por igualdade. Antes mesmo de o termo ganhar densidade teórica, Ivone já vivia, na prática, os atravessamentos que pensadoras como bell hooks e Sueli Carneiro viriam a explicitar: não há uma única experiência de ser mulher; há múltiplas, marcadas por desigualdades estruturais.
Ivone Lara não foi apenas a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Império Serrano. Ela foi a prova viva de que o talento não tem gênero, embora a história insista em ditar diferente. Durante décadas, compôs sambas que seriam, muitas vezes, apresentados por homens, em um contexto que naturalizava o apagamento feminino.
As suas composições delineavam afetos, narrativas e resistências. Há em sua obra uma dimensão de cuidado e escuta, que, em suas mãos, se transformaram em potência estética e política. O samba, em sua voz, deixou de ser apenas festa e se tornou espaço de afirmação.
O Dia da Mulher Sambista nos convoca a olhar para as estruturas. Quantas Ivones foram silenciadas antes dela? Quantas ainda enfrentam, hoje, as mesmas barreiras? O samba, enquanto manifestação cultural nascida nas margens, sempre foi espaço de resistência, mas nem por isso escapou das desigualdades de gênero. A presença feminina, embora fundamental desde as tias baianas que sustentaram o samba em seus terreiros, foi por muito tempo relegada ao plano do suporte, da cozinha, do cuidado, da organização, mas não da autoria.
O lugar secundarizado reflete a lógica patriarcal que distribui papéis sociais de forma hierárquica, atribuindo às mulheres funções invisíveis e desvalorizadas. Ao denunciar essa estrutura vislumbra-se a chave interpretativa indispensável para compreender o percurso das mulheres no samba. Ivone Lara, ao ocupar a autoria, rompeu esse ciclo. E, ao fazê-lo, abriu espaço para que outras mulheres também reivindicassem o direito de compor, de interpretar e de ocupar o centro da roda.
Celebrar Ivone Lara não pode ser pretexto para ignorar as desigualdades ainda presentes. A indústria musical, inclusive no samba, ainda reproduz assimetrias profundas, com menor visibilidade para mulheres compositoras, menor remuneração, menor espaço em festivais e gravações. O reconhecimento simbólico precisa vir acompanhado de transformação material, sob pena de se converter em mera retórica.
A ascensão de Ivone Lara em um país marcado pelo racismo estrutural, evidencia não apenas a sua genialidade, mas também a excepcionalidade de sua trajetória em um sistema que tende a excluir corpos negros dos espaços de prestígio. Nesse sentido, falar da mulher sambista é, necessariamente, falar da mulher negra, da mulher periférica, da mulher que, historicamente, sustentou o samba sem, contudo, ser reconhecida como autora de sua própria história. O Dia da Mulher Sambista passa a ser um chamado. Um chamado à escuta, à revisão de práticas, e à redistribuição de oportunidades. E que seja também um espaço de justiça. O samba não admite silêncio. É dela: “Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”.
(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.
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