A história recente da educação pública em Mato Grosso precisa ser contada com honestidade e compromisso com quem vive o chão da escola. Ao longo dos últimos anos, o que se viu não foi um projeto educacional estruturado, mas uma condução marcada por decisões administrativas frias, distantes da realidade de estudantes, professores e comunidades escolares.
Sob o discurso de modernização e eficiência, a gestão estadual promoveu mudanças que fragilizaram pilares históricos da educação pública. Um dos exemplos mais simbólicos foi o enfraquecimento da gestão democrática nas escolas, retirando da comunidade escolar o direito de participar das decisões. Isso rompe com um princípio essencial: educação se constrói coletivamente, não se impõe por decreto.
Outro aspecto preocupante foi o fechamento de unidades escolares e a chamada política de “redimensionamento”, que transferiu responsabilidades aos municípios sem a devida garantia de estrutura e financiamento. O resultado é conhecido: sobrecarga das redes municipais, dificuldade de acesso para estudantes e prejuízos diretos ao processo de ensino-aprendizagem.
Na valorização dos profissionais, o cenário também é crítico. A política de recomposição salarial não acompanhou as perdas acumuladas, gerando defasagens significativas. Professores e trabalhadores da educação passaram a conviver com um modelo que privilegia metas e gratificações em detrimento da carreira estruturada, aprofundando a precarização e o adoecimento da categoria.
Além disso, assistimos à padronização do ensino por meio de sistemas apostilados e modelos engessados, que reduzem a autonomia pedagógica e transformam o professor em mero executor de conteúdos. Educação não pode ser tratada como linha de produção. Cada escola tem sua identidade, cada estudante tem sua realidade.
Outro ponto grave diz respeito à transparência. Há denúncias de manipulação de indicadores educacionais para criar uma percepção artificial de avanço. Quando dados são utilizados como ferramenta de marketing e não como instrumento de diagnóstico, perde-se a capacidade de corrigir rumos e garantir políticas públicas efetivas.
A tentativa de impor uma lógica militarizada em algumas unidades escolares também revela uma compreensão equivocada do papel da educação. Disciplina pedagógica não se confunde com disciplina militar. A escola deve formar cidadãos críticos, não sujeitos obedientes.
O que está em jogo não é uma disputa política superficial. É o futuro de uma geração inteira. Quando se desmonta a educação pública, não se atinge apenas o professor — compromete-se o desenvolvimento social, econômico e humano do estado.
Defender a educação pública é defender investimento, valorização profissional, gestão democrática e respeito à comunidade escolar. Qualquer projeto que ignore esses fundamentos estará fadado a aprofundar desigualdades.
A educação de Mato Grosso precisa deixar de ser tratada como custo e passar a ser compreendida como investimento estratégico. Esse é o debate que precisa ser feito — com coragem, transparência e compromisso com o povo.
(*) HENRIQUE LOPES é professor e presidente licenciado do Sintep.
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