Artigos Sábado, 17 de Setembro de 2011, 14:40 - A | A

Sábado, 17 de Setembro de 2011, 14h:40 - A | A

“Denuncismo” barato

VEJA fez a “revelação” de que Zé Dirceu possui motorista e uma secretária (sem mencionar se são ou não funcionários públicos cedidos para servir ao ex-chefe da Casa Civil, o que configuraria uma irregularidade). Eu também tenho e não sou nenum Zé Dirceu

MÁRIO MARQUES

DIVULGAÇÃO

Denúncias embasadas em fatos concretos, com provas, enriquecem a função social da Imprensa, como um dos pilares da democracia. Já o “denuncismo” barato, sensacionalista, baseado em ilações, em suma, a falta de informação objetiva sobre o que se pretende divulgar como “bomba”, reduzem a sua importância e credibilidade como instituição essencial ao aperfeiçoamento da vida pública.

Infelizmente, entre o que pode ser visto como função nobre, relevante, e o exercício degradante do papel “marron”, a imprensa, volta e meia, está resvalando por este último desvão...

Paciência!, alguém pode argumentar que nem tudo é perfeito... Se instituições especificamente criadas para somente acertar, constitucionais e mantidas com dinheiro dos impostos para promover o bem e a justiça, costumam errar e se desviam de suas funções, e com uma frequência maior do que devia, por que o jornalismo – enquanto atividade profissional e empresarial – e os jornalistas, seres humanos, precisam ser à prova de equívocos ou erros?!

Explica, mas não justifica. Principalmente se o órgão de Imprensa assume ares e roupagem de vestal da moralidade, ainda que por traz desse verniz se esconda o viés de vocalizar interesses de setores que sempre mandaram e desmandaram e, hoje decadentes e frustrados, não se conformam com a ascensão de outros grupos vindos de camadas econômicas e socialmente inferiores de uma sociedade ainda com ranço aristocrático típico de mansões das regiões dos Jardins, da Capital de São Paulo – uma área, assim como seus antigos donos de palacetes, que está deixando de ser nobre enquanto residencial, para abrigar lojas e escritórios.

Explicitando melhor: refiro-me à reportagem principal da revista Veja, que circulou, se não me falha a memória, há cerca de três ou quatro semanas, com direito à chamada que tomou conta da capa. Mostrando Zé Dirceu, com óculos escuros, e o título “O Poderoso Chefão”! Como marketing editorial, a capa é uma “vitrine” perfeita, emblemática e chamativa.

Fui “seco” na matéria, aguçado pela expectativa de encontrar novas revelações incriminadoras sobre esse personagem que, saído das sombras da clandestinidade (época em que certos habitantes dos ditos Jardins paulistanos financiavam, via caixa 2, operações repressivas contra quem se insurgia como opositor da ditadura militar de então), emergiu, nos tempos democráticos, como uma das principais figuras da República. Para, na sequência, ser tragado na voragem do escândalo conhecido como Mensalão, do qual é acusado de ser um dos mentores e pelo qual responde processo que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

Não entro no mérito da culpa ou da inocência de José Dirceu nesse episódio (ou em outros), porém, confesso minha decepção com a reportagem da Veja: esperava mais do que a “denúncia” de que José Dirceu, uma das principais lideranças nacionais do seu partido, o PT, recebe visitas, nos aposentos que ocupa em Brasília, de figuras expoentes do PT e de partidos aliados, com cargos no governo comandado por seu partido.

Esperavam o quê? Que ele recebesse visitas da madre Tereza de Calcutá...

Nada de concreto com referência à velhas ou novas denúncias, a não ser picuinhas de que ele, como bom lulista, estaria tramando contra a presidente Dilma Roussef. “Venenos” desse jaez qualquer imprensa provinciana do interior do país faz melhor, em uma simples notinha de coluna.

Ah!, a revista também fez a “revelação” de que ele possui motorista e uma secretária (sem mencionar se são ou não funcionários públicos cedidos para servir ao ex-chefe da Casa Civil, o que configuraria uma irregularidade).

Eu também tenho motorista e secretária, e não sou – e nem quero ser – nenhum Zé Dirceu.

(*) MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é jornalista. www.paginaunica.com.br. E-mail: mario@paginaunica.com.br



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