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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026, 09h:25 - A | A

ROSANA DE BARROS

Amelinha Teles

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS

Reprodução

Rosana Barros

Maria Amélia de Almeida Teles, ou apenas Amelinha Teles, nascida em Contagem/MG no dia 06 de outubro de 1944, fez a passagem em 15 de setembro do corrente ano, em São Paulo/SP, aos 81 anos.  Escritora, jornalista, feminista e defensora dos direitos humanos, foi militante contra a ditadura militar, o que a fez ser presa e torturada pelo DOI-CODI no ano de 1972.

A escritora passou a ser uma das maiores vozes brasileiras a denunciar os abusos sofridos durante o regime militar. Assim, ela tratou da democracia a partir das mulheres. Durante o período em que esteve presa, seus filhos, ainda crianças, foram levados ao local da repressão e expostos às violações praticadas contra o pai e a mãe. Décadas depois, Amelinha e sua família protagonizaram a ação judicial que resultou no reconhecimento de Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador. Participou da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Disse: “Tortura é ferida que não cicatriza.”

Amelinha recusou a condição de vítima como identidade definitiva. Não foi minimizada a violência sofrida, mas, sim, houve a compreensão de quem potencializou a sua vivência, transformando a experiência individual em reivindicação coletiva. Apesar de o seu corpo ter passado por violência pelo Estado, ela permaneceu insubmissa. 

A jornalista reconhecia expressamente o quanto aprendera com Lélia Gonzalez e com as mulheres negras. Ao recordar os debates feministas das décadas de 1970 e 1980, contou que Lélia já chamava atenção para a especificidade da condição da mulher negra e para o fato de que determinadas opressões atingiam mulheres de maneiras profundamente distintas. Reconheceria, posteriormente, que a luta antirracista encontrou resistência dentro do próprio movimento feminista e sustentaria que um feminismo comprometido com a igualdade precisava necessariamente enfrentar também o racismo. Amelinha se faz, sempre, atual!

Participou da fundação da União de Mulheres de São Paulo; esteve envolvida na mobilização feminista durante a Constituinte (Lobby do Batom); participou da criação do programa Promotoras Legais Populares; integrou o Conselho Consultivo do Centro Dandara; e foi autora de vários livros sobre os direitos humanos das mulheres.

Ela entendeu que não bastava assegurar formalmente às mulheres o conhecimento dos direitos se as condições concretas para os exercer permanecessem profundamente desiguais. Uma mulher branca de classe média e uma mulher negra da periferia podem ser titulares dos mesmos direitos na Constituição, mas não necessariamente encontrarão as mesmas possibilidades materiais de os fazer valer.  

Em importante entrevista concedida sobre a história do movimento feminista, recordou conflitos ocorridos no Congresso da Mulher Paulista de 1980, quando mulheres negras reivindicaram o direito de falar especificamente a partir de sua condição racial e encontraram resistência. Ao relembrar aquele período, Amelinha reconheceu o aprendizado proporcionado pelas feministas negras. 

Com as lentes apuradas de percepção, Amelinha se deu conta de que nenhuma democracia estaria completa, enquanto a violência contra as mulheres fosse considerada um assunto privado.  O mesmo raciocínio vale para a violência de Estado, pois, a aflição não pertence somente à vítima que a sofreu. Ela percebia que, democraticamente, era preciso conhecer os seus mortos, ouvir os seus sobreviventes e confrontar institucionalmente os períodos em que o Estado se converteu em agente de violência.

Transformar experiência em consciência política talvez tenha sido uma das características mais fortes da vida de Amelinha Teles. É dela: “Ainda esperamos política de memória, verdade e justiça.” 
  

(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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