A história começa em um futuro bem distante e pacífico, no qual vive Arco, um menino de 10 anos. Por um acidente do destino - ou do espaço-tempo -, ele é arremessado de volta ao ano 2075, um mundo em crise, em que encontra Iris, uma jovem com quem faz uma amizade inesperada. Juntos, com a ajuda do robô cuidador Mikki, os dois embarcam numa jornada para levar Arco de volta para casa. Simples assim.
Ugo Bienvenu conta ao Estadão que a ideia surgiu na pandemia, quando pensava em ter filhos. Percebeu que sua obra - ele é também escritor de ficção científica - estava carregada de um cinismo que não queria deixar de herança.
"Se meus filhos lessem meu trabalho, diriam: 'Papai é tão cínico'. Queria trazer luz ao mundo, não colocar mais sombra. Acho que é nosso papel, nós que fazemos ficção científica - porque a ficção científica criou, de certa forma, o mundo em que vivemos. Agora, precisamos colocar no mundo não ideias melhores, mas ideias mais doces, para que elas aconteçam. Se imaginarmos apenas o pior, o pior vai acontecer", afirma.
Foi desenhando, num gesto quase casual, que o filme nasceu. "Um dia eu estava desenhando e uma cabeça brotou do céu. Desenhei cores atrás dela. E Arco estava lá", lembra. A partir desse momento, Bienvenu sabia que tinha algo pelo qual valia a pena lutar - e lutou pelo período de cinco anos, tempo de produção do filme.
A produtora e atriz Natalie Portman, que também empresta sua voz ao filme na versão original, chegou ao projeto quase por acaso, da melhor forma que as coisas boas costumam chegar. Uma amizade em comum com o roteirista Félix de Givry a aproximou do diretor, e o encantamento foi imediato. "Simplesmente achamos o trabalho do Ugo tão comovente e tão bonito, e ele é um diretor tão incrível, que queríamos apoiar sua visão. E fomos aprendendo sobre animação pelo caminho", Portman admite.
O que a conquistou, ela explica, foi a honestidade com que Arco aborda a esperança - sem ingenuidade, sem escapismo fácil. "O filme inspira esperança de forma realista", resume. "Ele não ignora os desafios que temos. Existem ameaças muito sérias no nosso mundo agora. Mas depositamos muita fé na imaginação e na criatividade humana para encontrar soluções inesperadas para esses problemas complicados." Bienvenu, ela conta, construiu dois futuros possíveis dentro da narrativa - um sombrio, outro luminoso - para mostrar que a escolha, de fato, está nas nossas mãos.
TRAÇO
Além disso, em um mercado dominado pela animação digital tridimensional, Arco chega em 2D - e essa escolha não é nostalgia, é manifesto. Bienvenu é desenhista antes de ser diretor, e não concebia contar essa história de outra forma.
"O desenho, para mim, é uma verdade sensível. Gosto porque é frágil. E também porque os filmes que me tocaram na vida foram feitos em 2D", conta o francês. Mas há uma dimensão ainda mais urgente nessa decisão: a animação 2D é um ofício em risco de desaparecer. "É muito importante proteger esses empregos também. Se pararmos de fazer animação 2D, essa arte some." O resultado visual é deslumbrante - paletas vibrantes, traços expressivos, uma estética que lembra ao espectador que animação pode ser, antes de tudo, pintura em movimento.
As credenciais de Arco são impressionantes: além das indicações e prêmios já citados, o longa foi eleito melhor animação do ano pelo National Board of Review e acumulou cinco indicações para o Annie Awards (premiação americana só para animações), incluindo direção, trilha sonora e storyboarding.
Acabou vencendo o Annie de melhor filme de animação independente. Mas nenhum prêmio explica exatamente o que faz Arco ser especial. É algo mais difícil de nomear: a sensação, rara no cinema de qualquer gênero, de sair da sala com o peito um pouco mais aberto. Como se alguém tivesse desenhado, com muita delicadeza, uma janela onde antes havia só uma parede.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
(Com Agência Estado)
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