Assim como Malu, pessoas de todo o mundo passaram a se interessar pelo xadrez após assistir à série, que entrou na plataforma em 23 de outubro. Na semana de estreia, as buscas por "jogos de xadrez" no Google cresceram 41% - e continuaram crescendo a ponto de atingir seu nível mais alto dos últimos sete anos, em novembro. Já o site de compras americano eBay registrou um aumento de 273% na procura por tabuleiros. Os jogadores online investiram no aplicativo Chess - Play & Learn (Xadrez - Aprenda e Jogue), que subiu 847 posições no ranking mundial, com mais de 400 mil downloads feitos em menos de 30 dias.
A série, baseada no romance homônimo de Walter Tevis, conta a história de Beth Harmon, talentosa competidora que lida com vícios e traumas da vida entre suas partidas. A trama se passa no final dos anos 1950, no Kentucky, e apesar de ter inspirações na vida real e em enxadristas famosos, sua história é uma ficção.
Escrita e dirigida por Scott Frank (duas vezes indicado para o Oscar), O Gambito da Rainha teve consultoria de Garry Kasparov (ex-campeão mundial de xadrez) e Bruce Pandolfini (professor e treinador de enxadrismo norte-americano) para garantir a veracidade. Os atores aprenderam o jogo e as partidas foram baseadas em competições reais, com adaptações para a série.
A estudante paranaense Thaynara Machado, de 15 anos, decidiu investir no jogo depois de terminar os sete episódios. "Antes da série, eu via o xadrez como uma coisa chata, agora acho que pode ser muito mais do que isso", conta ela, que comprou um tabuleiro e até incentivou o irmão, Alex, de 23 anos, a assistir à série para jogarem juntos.
Para Pedro Rovai, jogador de xadrez e conselheiro do Clube de Xadrez São Paulo, a trama juntou os dois mundos: enxadristas e leigos. "Outros conteúdos que foram feitos têm dificuldade de agradar ao grupo não enxadrista, afinal, é uma linguagem própria, o jogo é complexo. Mas a série consegue isso." Nos primeiros 28 dias no ar, mais de 62 milhões de pessoas em todo o mundo assistiram ao seriado, o que o fez atingir o posto de minissérie de ficção mais vista do streaming de todos os tempos. Além de ter chegado ao Top 10 de 92 países (inclusive o Brasil).
Uma das razões para o sucesso foi a maneira midiática que Scott usou para falar de xadrez, trazendo dinamismo para o tabuleiro. "Eu gostei que eles conseguiram realmente passar a emoção do jogo. As pessoas acham que xadrez é uma coisa sem graça, mas não é porque ele não é barulhento como o futebol que não é emocionante", pontua Malu. Outras questões levantadas durante os episódios também foram um diferencial - desde feminismo e moda, com os figurinos espetaculares criados por Gabriele Binder, até o contexto da Guerra Fria e o abuso de substâncias químicas.
Justamente pelo protagonismo feminino que a carioca Gabrielle Monteiro, de 36 anos, voltou a estudar xadrez. "Se fosse a mesma história, porém no lugar da Beth um menino jovem, a série não teria o mesmo glamour", diz ela, que trabalha como enfermeira. Nas horas vagas, ela e o marido jogam partidas. "Confesso que não jogava havia algum tempo. Mas, depois da minissérie, achei tempo para me sentir um pouco como a Beth."
Assim como ela, a fortalezense Thaís Albuquerque, de 20 anos, que viu a série em apenas um dia, quis aprender mais sobre o jogo. "Sempre gostei de dama, jogos de tabuleiro, mas nunca tive proximidade com o xadrez. A série me deu abertura para que eu de fato fosse atrás", explica.
Dedicação
Segundo o Google Trends, houve um aumento de 91% nas buscas de xadrez no YouTube, como fez o mineiro Eduardo Dicarte, de 39 anos. "Achei alguns canais e comecei a praticar sozinho. Hoje as plataformas ensinam muito."
O canal Xadrez Brasil logo percebeu esse público adicional e passou a produzir conteúdos relacionados ao título. Além de uma playlist com as sete melhores partidas, na qual eles avaliam cada movimento, o vídeo que ensina a jogar xadrez em 10 minutos tem mais de 11 mil visualizações. "Tivemos um aumento considerável no número de inscritos - tanto no Instagram quanto na academia de xadrez", diz Rafael Leite, apresentador do canal, que acredita que a série ajudou a quebrar o paradigma de que o jogo é "somente para gênios".
Apesar de todo o talento de Beth, xadrez é um esporte que envolve muita dedicação. Foi por isso que o engenheiro químico Vicente Manera, de 54 anos, decidiu parar no primeiro ano da faculdade. "Eu era muito competitivo, e vendo o nível das pessoas no torneio pensei: Para ganhar vou ter de estudar muito e não vou conseguir estudar engenharia." Mas o amor pelo jogo reacendeu com a série. "Ela trouxe de volta meu prazer de ver e jogar uma partida bem jogada", afirma ele, que treina com a filha Júlia, de 13 anos.
O jogo é para todas as idades, porém O Gambito da Rainha não é apropriada para menores de 16 anos. Por isso, Denis e Liliana Yamamoto decidiram editar a série antes de mostrar para os filhos apaixonados por xadrez: Mariana, de 9, e Pedro, de 7 anos. "Meu pai me mostrou só as partes dos tabuleiros", diz Mariana, que aprendeu a jogar com 4 anos e já é Mestre Nacional pela Confederação Brasileira de Xadrez (CBX). "Como a série fala bastante de alguns enxadristas que eles estudam, é uma forma de 'fazer a lição de casa'", brinca Denis.
Núcleo enxadrista
Dentre as polêmicas da série, o título foi a maior delas. "Gambito da dama é o nome de uma abertura do jogo, pois a peça do xadrez é a dama, não a rainha", explica Pedro. No entanto, a palavra também significa sacrifício e, num sentido mais filosófico pode representar o sacrifício da rainha, Beth Harmon, para jogar.
Para a hexacampeã brasileira Juliana Terao, de 29 anos, o machismo mostrado na série é "light" em comparação com a realidade. "Ela era uma desconhecida e conseguiu entrar nos torneios de elite muito facilmente. Quando comecei a jogar em campeonatos abertos, normalmente eu era a única menina", diz ela, que aprendeu xadrez aos 5 anos. "Quando tinha 9 anos e ganhei de um mestre, falaram para ele: Nossa, perdeu para uma menininha. São coisas que você não escuta com menino; escuta que ele era um gênio, um prodígio."
Apesar disso, a campeã é otimista. "As coisas estão melhorando, mas ainda não de igual para igual. Você ver que uma mulher pode chegar lá, dentre os melhores do mundo, desperta uma ideia", diz Juliana. Ela integra o grupo Damas em Ação Rumo à Maestria, que promove o xadrez feminino no Brasil. Os canais Mulheres Enxadristas e Capivaras no Xadrez também lutam para haver mais Beths nos tabuleiros.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
(Com Agência Estado)
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