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Política Domingo, 17 de Abril de 2016, 08:31 - A | A

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Domingo, 17 de Abril de 2016, 08h:31 - A | A

CENÁRIO PÓS-IMPEACHMENT

"No Brasil não sabemos o que vai acontecer. Vamos viver momentos difíceis", diz analista político

JESSICA BACHEGA / GABRIEL SOARES

Os escândalos de corrupção envolvendo políticos e empresários de todo o país vem sendo investigados há anos, com número de envolvidos e falcatruas aumentando constantemente. Tantos desvios e descaso com a população levaram milhões de manifestantes às ruas em busca de mudança.

 

A situação de calamidade pelo qual diversos setores estão passando, somados ao desemprego, à inflação e à falta de perspectivas e melhora levou ao estopim que pode retirar a presidente do posto de presidente do Brasil, se aprovado o processo de empeachment a ser votado nesse domingo.

 

O analista político Sebastião Carlos analista comenta sobre esse momento que o país vive, manifesta sua opinião sobre o impeachment. "Nós temos, na realidade, um quadro político falho, nefasto e que tem contribuído para esse tipo de coisa", argumenta, lembrando que impeachment sempre existiu contra todos os presidentes desde Itamar Franco.

 

Formado em direito e história, o analista político Sebastião Carlos também fez graduou-se em filosofia na Espanha. Com cinco livros e diversos artigos publicados Sebastião, Sebastião tem se dedicado a pesquisas e a escrever sobre história. Nesta entrevista o analista aborda de forma crítica o atual contexto político pelo qual o país passa, às vésperas da votação do processo de impeachment da presidente Dilma. E faz um alerta: "A Mani Pulite, que ocorreu na Itália na década de 1970/1980, fracassou porque faltou apoio da população e os políticos começaram a bombardear. Criaram leis que limitaram a ação do juiz, como estão tentando agora. O que estão fazendo com o Moro é uma estratégia disso". 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

HiperNotícias - Como você avalia o cenário político atual?

Sebastião Carlos - Nós vivemos um momento, de certa forma, caótico. As perspectivas são as piores possíveis, porque temos um cenário econômico dos mais graves dos últimos anos, é processo inflacionário crescente, isso tumultua demais o quadro político. Se nós tivéssemos hoje uma situação, não digo tranquila mas equilibrada na economia, dificilmente a presidente estaria sofrendo um processo de impeachment. Independe da causa principal que são as chamadas 'pedaladas'. 

 

Ocorre que o mesmo que aconteceu com o Collor. O processo político, na maioria das vezes, é determinado pela causa econômica e infraestrutura. Se a economia vai bem, dificilmente haverá reclamações contra um governo. Por mais, digamos assim, que ele tenha saído dos parâmetros constitucionais, aqui há uma coincidência extrema que é um caos econômico. E tem a questão moral, que eu acho que pesa muito pouco, porque se pesasse definitivamente, na nossa opinião e na opinião dos outros, nós não teríamos tantos corruptos na política. Ao lado disso, essa questão política de um desgoverno, de uma presidente da república que é realmente uma perdida, perdeu o rumo das coisas.

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

HN - Citando o caso Collor, no decorrer desse tempo não teve outros presidentes que causassem tanta comoção negativa quanto agora?

SC - Sim. Veja bem. Desde Itamar Franco, praticamente todos foram apresentados mais de 50 pedidos de impeachment. Em absolutamente todos os casos o PT estava na frente. Inclusive em uma tentativa clara de golpe que foi o 'Fora FHC'. Quer dizer, esse tipo de coisa sempre ocorreu.

 

O Fernando Henrique, com a história da reeleição, comprovou que comprou votos, declaradamente. Tanto assim que dois ou três deputados lá de Rondônia foram punidos por isso. Então esse tipo de coisa sempre existiu. Nós temos, na realidade, um quadro político falho, nefasto e que tem contribuído para esse tipo de coisa.

 

Ocorre que, com a atual presidente, mas já antes com o Lula, o mensalão é exemplo disso e aponta os números muitos graves dessa situação política, como por exemplo, do desgoverno, da má gestão, da corrupção propriamente dita. E, sobretudo uma atuação política que foi claramente mostrado um estelionato eleitoral. Essas promessas que ela fez de campanha, sabendo que ela não poderia cumprir, daí a pedalada fiscal, que é uma amortização de recursos de bancos públicos que não podiam ser, mas foram utilizados, momentaneamente pelo governo. O tesouro é obrigado a repor, e isso não aconteceu. Eles já sabiam que não podiam repor, mas tinham que ganhar uma eleição. Ficou famosa a frase dela e do Lula, que fariam o Diabo para ganhar uma eleição. Isso foi declarado publicamente. São 13 anos de governo, é muito tempo numa democracia como a nossa. Quer dizer, tudo isso acirrou os ânimos e colocou dedo na ferida de problemas centrais, que é a situação que a gente está vivendo, os problemas na economia.

 

No caso do Fernando Henrique, a economia ganhou um equilíbrio, o plano real foi exemplo disso, na qual o PT foi contra, mas foi um equilíbrio que o Lula herdou, a famosa carta aos brasileiros. Na realidade foi uma aceitação da base da econômica que havia estabelecido lá atrás. O Lula ou o Petismo, ele herdou uma base econômica que ajudou o paós a crescer. Tanto assim que ele não caiu no Mensalão, o que já era suficiente, do ponto de vista constitucional. Comprar parlamentar, seja um, dois, ou dez, é de uma gravidade extrema. Na realidade é o seguinte, como nós temos a oposição covarde, temerosa, esse caso não foi acirrado. Quando eu digo oposição covarde e temerosa, ficou evidente no caso do 'Mensalão', quando havia motivo para cassação do Lula e o Fernando Henrique, que era o grande líder de parte da oposição, disse que era melhor ele ficar porque ele sangraria e a oposição ganharia as eleições, o que não aconteceu. 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

Para Sebastião Carlos, toda a conjuntura política e econômica do momento atual contribui para o impeachment

Tudo isso hoje contribui para desmascarar uma situação. Há uma velha citação de Abraham Lincoln que diz "você engana as pessoas durante algum tempo, mas não pode enganar a todos durante o tempo todo". Agora aconteceu. Esgotaram-se três mandatos ou quatro, agora são 16 anos o que  é muito tempo, muita coisa é quase que uma ditadura militar.  Tudo isso esgotou. Tem muita gente que nem sabe quem é Fernando Collor. Tão recente e grave, porque foi o primeiro impeachment. Nós estamos em uma geração nova que está vivendo um período recente. Há uma realidade urgente de ganhar uma bolsa de estudo e ir para a faculdade, mas no ano passado a bolsa de estudo não saiu... e assim por diante. São fatores eloquentes, porque você está vendo o seu pai desempregado. E parente, tios, são coisas seríssimas. E todas as vantagens que você poderia ter como cidadão, como atendimento da saúde, segurança pública e escola, você não tem. Os momentos mais sérios é que fazem o aprendizado. O sofrimento ensina mais do que a alegria. É claro que devemos ser alegres, mas a gente aprende mais no sofrimento. Nós temos um povo despolitizado, isso é a pior coisa que pode existir para uma nação. E você vai para a saúde pública e encontra o caos, e as pessoas não relacionam que isso depende de um governo. Atribuem a Deus. Quando você paga imposto, você tem um direito! Não é presente caído do céu. Não é um favor. Hoje pagamos a mais alta taxa de imposto no mundo ocidental, é o segundo no mundo, e você não tem o retorno. Eu morei na Europa, tenho amigos lá que pagam imposto altíssimo, até 50%, mas têm o retorno. Você tem escola, condução, estradas de qualidade. Aqui paga e não tem retorno, não há uma relação direta.

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

"Estamos em um processo muito grande de aprendizado, e geralmente é doloroso" 

É como o político analisa: “ah, é coisa pública”, o famoso 'res publica'. Sendo público é de todo mundo, você pode meter a mão, todo mundo pode fazer isso. “Rouba, mas fez”. Não pode ser assim. Há uma correlação direta, há um fracasso social, e nós temos a educação do lado. Há uma tradição no mundo anglo-saxônico que você pode ter três anos de idade, mas tem uma responsabilidade. Não temos isso aqui. Há certos níveis de educação, aqui eu já falo como professor que fui por muitos anos na universidade, em muitas coisas os pais jogam a responsabilidade pra escola. Aprende errado e o fracasso é da universidade, porque se você pegar um nível cultural, você pode pegar uma pessoa de grande formação na área estrita jornalismo, medicina, mas você não tem aquilo que é considerado essencial da universidade que é a formação do conhecimento. Há um fracasso geral na sociedade. Se um juiz chegar agora, bater no seu carro e ele falar que é juiz, você já dá uma esmorecida. Você tem cidadãos de segunda classe. Embora, teoricamente, todos são iguais perante a lei.

 

Essa é uma situação grave que nós estamos passando e temos que passar porque é um país imaturo. No ponto de vista democrático, democracia não é ir lá apenas e votar, é todo um processo. O mundo político não é apenas quem exerce o mandato, porque vivemos em um país democrático. Porém, nós não temos experiência e não sabemos como viver disso. Pessoas que viveram em um regime ditatorial sabem o que é isso. Hoje você fala o que bem entende e não sabe que isso é uma conquista. É igual um sujeito que ganha um salário mínimo, teve gente que morreu na luta para que o trabalhador tivesse salário mínimo ou tivesse melhorias sociais. Quando você só ganha isso, você não sabe o que vale. Estamos em um processo muito grande de aprendizado, e o aprendizado geralmente é doloroso. É como o parto, a mulher sofre para ser feliz. 

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

"Esse impeachment vai sair. Na Câmara vai ser aprovado", diz Sebastião Carlos

HN - Acredita que vai acontecer o impeachment?

SC - Olha, veja bem, se fosse apenas as chamadas pedaladas fiscais, eu escrevia alguns artigos no começo achando difícil de acontecer e até de certa forma contra, porque nós estamos em situação difícil. Se houver impeachment quem é que assume? Até agora é o PMDB. Não houve na história republicana desse país, um partido que estivesse mais próximo do governo. O PMDB não tem nada a ver com o MDB, que lutou contra a  ditadura, que ofereceu toda uma juventude, uma luta. Vai cair na mão do Temer. Se não for o Temer, se ele sofrer com o processo no TSE, cai no presidente da Câmara dos Deputados [Eduardo Cunha (PMDB)].

 

Nós estamos em uma situação difícil, e é considerado um momento grave. Eu não concordo e acho uma coisa absurda. Essa intromissão indevida do STF nas coisas internas da Câmara, você vê o ridículo de que o STF tem que decidir se começa do norte ou do sul? Qual será a ordem? Isso é um absurdo. Imagina o Congresso Nacional dizendo para o Supremo: “vocês vão votar dessa forma”. É uma intromissão indevida. Nós estamos em situação grave sobre uma coisa que está consagrada em uma sociedade ocidental há mais de 400 anos, que é princípio de Montesquieu, da repartição de poderes. O Brasil hoje está vivendo uma coisa absurda. Um juiz dá uma decisão para suspender a posse de  um ministro, são coisas que não têm sentido. Fico imaginando um estudante de direito ou de jornalismo, diante desse quadro... você aprendeu que há repartição de poderes, no caso, você não deveria estar discutindo isso. 

 

Esse impeachment vai sair. Na Câmara vai ser aprovado, no Senado pode ser diferente. Há um equívoco também: o homem que foi ministro da Justiça e advogado-geral da união, ele não está falando por ele, mas pelo contexto José Eduardo Cardoso, e diz lá que a presidente não pode sofrer impeachment porque não há crime. O que a câmara fez ou vai fazer? Simplesmente admitir. Quem julga é o Senado. A Câmara faz um juízo de admissibilidade nesse processo, se pode ir ou não. A Câmara julga o processo, quem julga a presidente é o Senado, que vai exercer um juízo de valor jurídico e político. Portanto, eu não posso dizer nesse momento, como os petistas estão dizendo, que não há crime. Quem diz é o Senado. 

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

HN - Caso seja aprovado o processo, que impactos isso traria para Mato Grosso?

SC - Nessa conjugação de forças, dificilmente. Nós passaremos por momentos graves. Eu estou lendo agora um relatório do FMI, e a perspectiva de 2017 é tão grave como está 2015 e 2016. Quando nós lutamos pelas Diretas, anistia, quando a gente queria derrubar o regime militar, havia uma perspectiva, um horizonte, e havia lideranças que você poderia apontar. O próprio Lula, Ulisses Guimarães e Brizola. Tinha uma galeria de pessoas que você podia dividir, tipo: 'não concordo com Brizola, mas concordo com Lula'. Pelo menos ele representa o segmento.

 

Veio o impeachment do Collor, havia possibilidades de arrumação do quadro partidário, hoje sem alternativas. Veja bem, eu preciso ter uma visão mais crítica, se não eu vou cair naquilo que você discute uma tema e fala você é da elite. Eu discuto a partir do ponto de vista jurídico e político, e não significa que eu tenho que tomar partido. Até pelo contrário, até quando falo de uma posição covarde eu me refero ao PSDB, veja o paradoxo. Essa turma do DEM que é menor, são muitos mais determinados, o PSDB tá observando.

 

Faltam novas lideranças. O Lula disse que vai para as ruas. Durante 50 anos desse país, ou mais, a juventude foi a grande expectativa, eu fui um dos que sofri. Hoje a UNE é apenas uma linha de transmissão do PT. A direção do jovem é estar nadando contra a corrente. Fortalece os nervos e o caráter. Hoje nós temos jovens  procurando emprego, que perspectivas então temos? Teríamos que zerar a situação. Não há mais esperanças possíveis, e isso está comprovado ao longo da história: as lideranças nascem na luta, hoje você pode ser a grande líder tal, mas surge um tumulto social, de repente quem você menos espera, aparece como líder uma outra pessoa, que nos momentos decisivos demonstrou coragem.

 

No Brasil a gente não sabe o que vai acontecer. Vamos viver momentos difíceis, porque imagine, um ex-presidente da República que não tem o caráter de ser um ex-presidente. Devia ter um distanciamento, tinha que ser um cara que apenas desse conselho. Não devia nem ser candidato a mais nada. Nos EUA, você pode ser candidato à reeleição só uma vez e pode exercer dois mandatos. Aí você fica como uma espécie de conselheiro da nação ou do seu grupo. Aqui deveria ter isso, mas o Lula disse que não vai aceitar e vai para as ruas? Já pensou o tumulto que isso vai virar? Porque, olha, mais do que tentar dizer, a corrupção está provada e documentada. E não é gente de oposição, o Supremo reconheceu isso, tem gente condenada. E tem gente falando que isso é absurdo.

 

Primeiro que o PT está aliado à pior ala do país: Collor, Sarney e Renan Calheiros apoiam o PT. As elites do PT são as empreiteiras, que estão financiando o partido em todos os governos. Nas duas últimas campanhas foi o partido que mais recebeu recurso e esses caras falam contra as elites. O próprio Lula, quando pediu a demissão de uma funcionária de banco que disse que o Brasil viveria dois anos de muita dificuldades, ele pediu pessoalmente ao presidente do banco. Agora ela acaba de ganhar uma ação trabalhista.

 

A DataFolha fez uma pesquisa dos manifestantes na Avenida Paulista. Dos dois lados, 70% das pessoas que estavam lá tinham curso superior. Mais de 70% dos dois lados eram de classe média. Já a Globo fez a reportagem 'Profissão Repórter' com as pessoas indo para casa. O trabalhador mais humilde não foi ao protesto. Quem foi para a rua foi a 'elite'. E esse combate contra a imprensa? O PT só cresceu graças a imprensa. Eu li uma biografia do José Dirceu, que era o cara mais atuante contra o Collor nos períodos que antecederam o impeachment. Na biografia, o José Dirceu afirmou que quem o municiava contra Collor era a Veja, porque a revista passou os documentos do PC Farias. A Veja consultou um advogado para ver se podia publicar, e ele disse que não, porque podiam ser processados. Então o jeito era encontrar um político, que tivesse imunidade parlamentar. Entregaram na porta da casa de Zé Dirceu, e ele leu na Cãmara e mostrou a ligação que tinha com Collor. Logo veio o processo de impeachment. Esse pessoal passou esses anos todos com a imprensa ao lado, agora a imprensa é chamada de golpista. Então nós entramos na pior coisa que pode acontecer. Oitenta anos atrás, um sujeito disse que a mentira repetida várias vezes se torna uma verdade. Eles assumiram o poder graças essa mentira, e isso causou uma tragédia na história da humanidade. Cheguei, liguei a televisão agora há pouco, e encontrei o líder do PT dizendo que domingo vai ter golpe. Ora, temos um golpe anunciado, que o Supremo Tribunal traçou a linha? Mas tem muita gente que acredita...

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

 

HN - Quando houve a 'Mani Pulite' na Itália, o país entrou em uma grande convulsão social e acabou caindo nas mãos, novamente, de uma máfia, a do Berlusconi. Você acha que isso pode acontecer aqui no Brasil também?

SC - Pode acontecer, e há muitos capiteneadores, como Blairo Maggi com esse projeto que ele está entrando agora para limitar o tempo de atuação do Ministério Público. A 'Mani Pulite', que ocorreu na Itália na década de 1970/1980, fracassou porque faltou apoio da população e os políticos começaram a bombardear. Criaram leis que limitaram a ação do juiz, como estão tentando agora. O que estão fazendo com o Moro é uma estratégia disso. O PT está desempenhando um bom papel nesse tipo de combate. Estão limitando a ação dele, como foi feito na Itália. A democracia cristã, sobretudo após a morte de Aldo Moro, perdeu muito. Bettino Craxi, que era primeiro-ministro, foi exilado. Foram então limitados e não tinha opção, a mesma situação que vivemos hoje. A democracia cristã estava desmoralizada, que estava lá há mais de 30 anos. O partido socialista foi desmoralizado, porque também estava envolvido em corrupção. O partido comunista tinha sérias oposições do Vaticano e dos Estados Unidos, que tem influência lá dentro. Então não teve opção. Esse tipo de desmoralização estava existindo e houve um vácuo politico que permite surgirem salvadores das pátria. E foi aí que entrou o Berlusconi, que, além do mais, tem uma característica de muitos políticos, que é a desfaçatez. “Sou corrupto, mas está tudo bem”. E o poder econômico. Ele era dono de três emissoras de televisão. Todo esse poder facilitou, então ele chamou todos os caras para ficarem ao redor, o que desmoralizou a “Lava Jato deles”.

 

Sergio Moro é um estudioso da Lava Jato, o pessoal critica que ele grava aos interrogatórios e divulga. Essa é uma estratégia onde a Mani Pulite fracassou um pouco, é uma estratégia para ganhar a população. Há muitos casos que ficam entre o advogado, os autores e o juiz. Pouca imprensa vai a fundo saber. Nós perdemos o jornalismo investigativo. Dá para contar nos dedos o jornalista que vai atrás investigar a morte de moradores de rua. Por exemplo, ele vai virar mendigo, morar na rua. Quem vai fazer isso? Vivemos um momento de rarefação da ética da cultura, vivemos os piores momentos culturais do nosso país. Tudo isso ajuda para que uma ação como a Lava Jato não seja divulgada. A estratégia que ele está usando é por para fora tudo que ele está usando. Ele não gravou a Dilma, ele gravou o Lula. Se ele não tivesse divulgado, hoje o Lula seria ministro. Muita coisa que não se encaixa na normalidade jurídica faz parte de uma estratégia politica. Hoje só se está levando as pessoas para a rua, por causa da divulgação da Lava Jato. Se não, as pessoas não estavam nem aí. Estariam achando que era 'castigo de Deus'.

 

As pessoas não querem ler, se fizer um levantamento você vai ver que são pouquíssimas pessoas que leem politica. Não há essa cultura de ir à fundo, de saber. As pessoas falam que isso existe porque há uma crise no mundo todo. Mentira! A China só diminuiu. Crescia a 10% e está crescendo a 7%. O Brasil é o país que menos cresceu. Estive no Chile e no Peru também, que continuam crescendo. As pessoas não se informam no Brasil. Ajudou muito esse tranco do 7 a 1. As pessoas estão brigando “ai porque você é corintiano eu tenho que te matar”. Que tipo de civilização vai ter um povo desse? Onde está a universidade? O que as universidade do país estão fazendo para formatar a cultura? O que temos na música hoje são mulheres com a metralhadora 'tra tra tra'. Tudo isso é muito difícil quando se tem uma visão macrosociológica. Quando se quer contextualizar com informações de ordem econômica e sociológica isso é diferente.

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

HN - Você disse há pouco que Blairo Maggi é o Berlusconi brasileiro?

SC - Eu não disse isso. É um elogio muito grande a ele, porque, de certa forma, Berlusconi é um cara hábil. Foi ministro várias vezes. Ele apresentou um projeto agora, depois se desculpou, mas essa é uma estratégia. Digamos que você é uma deputada lá do Nordeste. Ninguém te conhece. Você apresenta o projeto e eu dou uma pitada aqui, e no do outro colega ali. Lá na frente, é possível ver uma rede de armações

 

Se pegar os senadores e deputados do Mato Grosso, submeter eles a uma sabatina como cidadãos comuns e espremer, você vai ver que vai sair pouca coisa. Estamos numa situação que é lamentável. Queria ter uma bola de cristal para dizer. Se eu estivesse engajado, iria puxar a sardinha para o meu lado. É preciso ter um distanciamento para enxergar o todo. Eu vejo isso sob um olhar pessimista. Não dá para dar risada.

 

Eu posso dizer que estou muito bem. Se eu quisesse ir para a Europa amanhã eu poderia, assim como tanta gente vem fazendo, mas não gostaria disso. Os jovens estão saindo do pais nesse momento que o Brasil precisa de inteligência, de determinação, do entusiasmos da juventude, mas ela está desesperançada. O que você encontra nesse país? Encontra como presidente da República um farsante, que se auto vangloria por chegar até a quinta página do livro e depois dormir, e ainda fala que é uma "pátria educadora". Cortaram a verba para a Educação e falam, sem vergonha, que o Brasil é uma pátria educadora.

 

Se entrasse o Fernando Henrique também não daria certo. Essas pessoas estão ligadas a escândalos. Olha o Alckmin agora, com a merenda. É uma situação difícil para a moral e ética, embora essa seja a base da civilização. Sem ela, não pode crescer. Embora nos Estados Unidos, por mais tumultuado que foi o processo de invasão de terras indígenas, que tomou metade do México, tinha uma visão ética, uma visão ideológica. Aqui não se tem visão nenhuma disso. Quanto mais vantagem você tiver, melhor. E pior ainda, porque os caras vendem a mãe e não entregam. Antes, pelo menos, se vendia mãe e entregava... agora, nem isso. Quer dizer, só engana as pessoas.

 

Aí você fica bestificado. Como uma jovem entra nesse Estado Islâmico para matar? Ai você vê como é o fanatismo. E o pessoal que está no PT já está fanático. Você defende até certo ponto, mas as evidências são muitas, tem coisas que são indefensáveis. Tem gente defendendo. Falando que é golpista quem é contra. Como vai construir uma nação? A situação é dramática.

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

HN - Isso não é uma crise própria do século XXI, resultado do 'determinismo da informação', em que as pessoas vão  cada vez mais fundo só naquilo que elas querem saber, evitando o contraditório e ficando cada vez mais radicais em suas linhas de raciocínio?

SC - Exato. Quando o Iluminismo nasceu, no século 18, havia a expressão' enciclopedismo', que é o conhecimento que se tinha de forma geral, quando você pesquisava todas as fontes. Não só a ciência, mas tudo do saber lógico. Havia uma preocupação que hoje não existe. Posso falar isso com conhecimento de causa, porque fiz três faculdades. Se você for numa universidade pesquisar um professor de qualquer área você vê. O doutor, por exemplo, alguém especialista em rolha, sabe tudo sobre rolha. Se tira ele fora dali e tem uma conversa como esta, ele não consegue. Não se tem um alargamento do conhecimento. Está cada vez mais focado.

 

HN - E acredita que isso contribui para formar cada vez mais radicais?

SC - Claro, porque não há uma única verdade. Ela é múltipla. Você tem vários ângulos da verdade. A mentira é uma só. E, às vezes, ela nasce bem pequena. A mentira é como o roubo, é ladrão quem rouba 100 reais seu, como quem rouba 1 milhão da nação. Já a verdade, cada um tem a sua, de acordo com sua história, seus amigos, sua família, seus livros.

 

Existe uma teoria chamada “Véu da Ignorância”, que fala que você tem que dialogar e convencer o outro pelo argumento, não importa quem você é, se é general, coronel, juiz, delegado ou cientista, não importa. Numa pauta X, você tem que me convencer que você está certo sem eu saber quem você é. Porque se eu sei que se você é um famoso jornalista brasileiro, mesmo que meu argumento esteja correto, eu já vou deixar você ganhar um pouquinho, porque você é um famoso jornalista. Então esse é o 'véu da ignorância': eu não sei quem você é e você não sabe quem eu sou. Você  tem que me convencer pelo argumento. A nossa universidade não permite isso. Você tem que respeitar o professor não porque ele tem o título de professor, mas porque ele sabe mais e tem mais experiência. Mas tem professor também que é meio burro, né? É esse mecanismo que permite que jovens europeus, que estão melhores que a gente, se engajem para ir morrer sem mais nem menos. Um cara lá na Bélgica coloca o cinto na cintura e vem detonar aqui. Um absurdo sem a mínima lógica. Temos que pensar à frente, além das instituições a que somos colocados, seja ela a igreja ou a escola, para que sejamos cidadãos críticos.

 

Quando a televisão foi inventada, na década de 30, e chegou ao Brasil, em 1950, todo os grandes pensadores acharam que era um instrumento que fosse revolucionar a humanidade. Enquanto o professor falava para 15, 20 alunos, a TV iria atingir milhões de pessoas. O que virou a TV? A mesma coisa acontece hoje com a internet. Seria um instrumento pedagógico revolucionário, no entanto, você sabe que tem cerca de 8 milhões de sites no mundo? Mesmo que você passe o resto da vida não veria todo. É preciso ouvir opiniões contraditórias. Eu não concordo com você, mas vou ouvir para me municiar ou para mudar minha opinião. Isso não existe hoje. É isso que vivemos, a lei acima da politica. A politica é uma ciência, mas virou muito “terra terra”.

 

Estamos aqui em Mato Grosso ,que é um dos estados politicamente mais atrasados. Eu estudei em Goiânia, morei em Brasília, São Paulo e digo que Goiás está 50 anos à frente do Mato Grosso. Se fizer um confronto com um deputado ou senador, ele terá a pose de senador, que não é pouca coisa, mas num confronto de ideia vocês irão ganhar dele, por que ele não está realmente preparado. Eleito pelo povo. Como você pode sintonizar a vontade popular com a escolha de seus representantes? Até que ponto você se sente representada pelos deputados estaduais que estão ai? Mas eles estão lá e fazendo leis que nos obrigam a cumprir

 

A internet  que é um instrumento revolucionário, temos cinco ou seis universidades aqui no Mato Grosso. Qual é a participação das universidades, como opinativa na imprensa no contexto, na sociedade mato-grossense? Quase nada. Quais pessoas da universidade ou outras sabedoras em geral estão tratando de politica? Todos estão voltados para dar aulas, para estudar. Não tem essa tarefa cívica.

 

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

HN - Tem se falado no nosso governador, Pedro Taques (PSDB), como uma alternativa à presidência, sobretudo pelo seu currículo de combate à corrupção. Você acredita nisso?

SC - Eu vou falar aqui o que eu já escrevi, que com certeza não agradou ele. É raro falar mal de um governador que inicia. Prestes a terminar aparece crítica de todo lado. O Silval é um exemplo: faltando meses para terminar o mandato, veio pau de todo lado. Eu escrevi no início. Há um folclore mineiro que diz o seguinte: politica é igual nuvem, ela passa e daqui a pouco você olha e ela já foi embora. É muito difícil falar tão previamente de como vai ser. Concretamente, eu tenho uma crítica muito forte. Acho muito antiético eu votar em você, sendo de um partido político, e você passar para outro partido, mal tenha começado. Foi o que aconteceu agora. "Ah, mas a lei autoriza..." Nem tudo para a Lei é moral, é ético e democrático. Existem leis injustas. Tenho cinco livros jurídicos publicados e estudei bastante sobre essa questão. A Justiça é um ideal. A lei permite que senador e governador troque de partido. A lei abre essa janela que permitiu que o deputado Valtenir passe pelo quinto partido e agora está sendo endeusado pelo PT, porque votou contra o processo se impeachment.

 

Não vejo essa possibilidade, porque o PSDB é um partido de elite. Não há nada de mal em ser da elite, minha visão é diferente da visão do PT. É muito difícil você vencer a barreira do estado de São Paulo, que é uma locomotiva. Quer queira, quer não, a situação é essa: a população de São Paulo é pelo menos um terço do país, e lá tem três lideranças que não estão se bicando, mais o Aécio. Claro que vieram aqui e aplaudiram como sendo o maior governador que o estado já teve. Mas como que o José Serra, o Alckim, o Aécio e outras lideranças iriam apoiar o Pedro Taques? Não é o Fernando Collor, que tinha todo aquele porte televisivo, Pedro Taques não tem, embora os baixinhos é que estão mandando, como mostrou  o Riva. Acho difícil vencer essa barreira, mas tudo depende de um contexto politico. Se ele fizer um excelente governo, pode se classificar. Mas um excelente governo tem que estar em consonância com um estado poderoso, para ter força, não só em termos de eleitorado, mas em termos congressuais. Mato Grosso teria essas condições? O governador que mais se aproximou de ser falado, e um ano depois não era nem lembrado, foi Dante de Oliveira. Mas pela emenda, não pelo Dante. Foi graças à emenda. Hoje, se for pelo histórico no combate à corrupção, vão votar no Moro para presidente. É um contexto que depende. Se falarmos, estaríamos entrando no campo da premonição.

 

E há dois secretários dele, esse de Cidades, por exemplo, há 15 anos não prestou contas de repasses da Cultura. Quando você elege o combate à corrupção ou e a eficiência administrativa como o grande mote e erra nas coisas mínimas, domésticas, não pode erguer mais essa bandeira. O Itamar Franco, por exemplo, afastou um ministro que era seu colega, até que apurasse a denúncia contra ele. Como foi comprovado que não tinha fundamento ele retornou ao cargo. Era isso que Taques deveria ter feito, apurado. Numa campanha politica uma besteirinha que você faz fica enorme. Mas nós estamos na província e todo rei é "O rei" e você tem que defender. Mas será que alguém lá em São Paulo ou Alagoas estaria pensando nessa possibilidade.

Gabriel Soares / HiperNotícias

Sebastião Carlos

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