A entrada do capital externo na Bolsa trouxe, como efeito, a alta de 3,5% do Ibovespa em julho, o primeiro desempenho mensal positivo desde fevereiro. O EWZ, principal fundo de índice de ativos brasileiros negociado em Nova York, registrou alta de 6,23%.
O mercado doméstico foi impulsionado pela retomada da escalada de tensões no Oriente Médio, pela rotação global de saída dos setores de tecnologia e pelo alívio das curvas de juros. Os impactos do tarifaço adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros fizeram pouco preço, uma vez que a lista de exceções isentou produtos relevantes para as exportações brasileiras.
Assim, o principal setor a atrair investimentos foi o de petróleo na B3, com reflexo para as ações da Petrobras (ON +17,4% e PN +14,9%) e da Prio (+16,7%).
"A forte valorização do petróleo ajudou a reduzir o risco-País devido ao peso da commodity na nossa pauta de exportação, e atraiu recursos para ações de produtores brasileiros da bolsa, como a Petrobras", afirma o CEO da Kosmos Capital Group (KCG), Marcelo Nantes.
Para o economista-chefe de Mercados Emergentes da Capital Economics, William Jackson, é plausível que haja mais entrada de capital estrangeiro no Brasil, já que o País é, em termos líquidos, beneficiário de preços mais altos de energia.
Além disso, a rotação global de portfólios passou a favorecer mercados menos expostos à cadeia de inteligência artificial, movimento causado pelo receio de uma bolha no segmento.
"Nesse processo de diversificação, o Brasil voltou a aparecer como alternativa: apesar dos riscos associados aos juros elevados e à incerteza fiscal, a Bolsa brasileira segue negociando a múltiplos comprimidos e oferece exposição a setores pouco correlacionados ao tema de tecnologia", avaliam os analistas do Itaú BBA Victor Natal e Mathias Venosa em carta mensal a investidores.
No cenário doméstico, o mercado se aqueceu com notícias sobre o arrefecimento da inflação, o que gerou maior expectativa de cortes da Selic. Na quarta-feira, 5, o Banco Central cortou a taxa básica em 0,25 ponto porcentual, passando de 14,25% para 14%.
"A desaceleração do IPCA-15 para julho reforçou as apostas em um novo corte da Selic na reunião de agosto. Nosso time Macro, por exemplo, passou a esperar uma taxa ao fim do atual ciclo em 13,75%, ante expectativa anterior de 14% - o que, embora seja uma mudança pequena no número, representa uma indicação positiva para a narrativa de ativos domésticos", afirma o Itaú BBA.
Apesar do mês de saldo positivo de capital estrangeiro, o mercado não espera mais para este ano o forte fluxo registrado até abril, de quase R$ 70 bilhões. Mesmo com a Bolsa brasileira ainda negociada a um nível considerado barato, pesa mais a cautela estrangeira neste momento.
"Este movimento foi fruto de uma realocação global para portfólios emergentes, não necessariamente uma melhora estrutural do Brasil", diz o head de Alocação da InvestSmart XP, Daniel Nogueira. "A reversão também foi puxada principalmente por fatores externos: a escalada do conflito entre Israel e Irã elevou o risco sobre o petróleo, realimentando a inflação global e levando os EUA e a Europa a manter juros mais altos por mais tempo, tornando a renda fixa de países desenvolvidos mais atrativa."
O estrategista da S4 Consultoria, Bruno Takeo, diz que ainda há apetite de investidor estrangeiro no Brasil, mas avalia que, para ter consistência, algumas incertezas precisam diminuir, como as relacionadas ao conflito no Oriente Médio. "A dúvida sobre o mercado de tech nos Estados Unidos também ajuda a atrair recursos para cá", afirma.
Conforme Takeo, há relatos de gestores de que o investidor estrangeiro tem interesse em aportar recursos no País e que está "sondando" o mercado. "Mas precisa de gatilho para alocar de fato", diz o estrategista da S4.
Política em foco
No calendário, começa a pesar na decisão do investidor estrangeiro a proximidade das eleições e a pauta fiscal. "A adoção de medidas de estímulo no período pré-eleitoral pode aumentar as preocupações com o quadro fiscal", afirma Jackson, da Capital Economics.
De acordo com Nantes, do KCG, como o tema do déficit nas contas públicas está ganhando peso nas decisões de investimento, nos próximos meses, a expectativa é de que o cenário eleitoral passe a ditar o ritmo dos investimentos estrangeiros no Brasil, com o mercado avaliando de perto o compromisso dos candidatos com a disciplina das contas públicas no próximo mandato.
"Daqui para a frente, o vetor tende a ser menos técnico e mais político, com o mercado recalibrando posições à medida que busca sinais de compromisso com as contas públicas e estabilidade institucional", acrescenta o estrategista da Empiricus Research, Matheus Spiess.
O cenário, no entanto, ainda segue em aberto. "É muito difícil, para não falar impossível, prever este fluxo até o fim do ano. As trajetórias de inflação e, consequentemente, de juros, não estão muito claras no momento", afirma Nogueira, da XP. "Em paralelo a isso, o cenário de inflação e emprego nos EUA também não é claro, com uma série de tensões geopolíticas simultâneas, deixando a possibilidade de piora de preços em produtos chave para a economia, como é o caso do petróleo, e de uma mudança radical nas dinâmicas e relações globais a qualquer instante."
(Com Agência Estado)
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.










