Cuiabanália Domingo, 26 de Junho de 2022, 18:00 - A | A

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LUCIENE CARVALHO

Poetiza cujas obras estão entre leituras obrigatórias da Unemat vê escrita como dom

Insãnia e Donna, pelo inédito do tema, foram suas obras com maior repercussão, sendo essa última tema de uma das questões do vestibular recente da Unemat

RAPHAELLA PADILHA
DA REDAÇÃO

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Aos dois anos e meio, diante da recusa de uma prima em fazer uma apresentação familiar, Luciene Carvalho assumiu o protagonismo do “teatro musiquinha’’ e teve sua primeira experiência com a poesia, apresentando a peça 'Pretinhas da Guiné', algo que a acompanharia por toda sua vida.

“Por todos os lugares onde passei por minha vida, levei esse espectro, esse dom. É uma coisa inata”, pontua, ao lembrar que, por se mudar diversas vezes com a família e morar em cidades muito pequenas, a poesia era a única forma de manter o entretenimento e a arte.

Desde muito cedo, às margens do rio Paraguai, ela se apresentava aos amigos e visitas que chegavam à sua casa, sempre incentivada por sua mãe: “Luc, venha dar poesia”, dizia a matriarca da família Carvalho.

Nascida Luciene Josefa de Carvalho, fatores místicos e uma homenagem ao pai, que faleceu quando tinha apenas oito anos de idade, fizeram com que ela optasse por Luciene Carvalho para assinar a ‘persona’ que socialmente leva o que escreve. A perda do pai trouxe a família para a capital de Mato Grosso, onde fixaram raízes.

Aos 57 anos, Luciene afirma que segue no processo de construção pessoal e de empatizar com a mulher que ela se tornou, fazendo uma crítica às cobranças sociais que exigem que as mulheres não envelheçam e mantenham os aspectos que tinham aos 20 anos eternamente.

O maior orgulho são seus 14 ‘filhos de papel’, nome que dá às obras, já que dedicou sua vida a poesia. “Eu escolhi não ser mãe como mais um dos aspectos da minha dedicação completa à tentativa de sobreviver da escrita em Mato Grosso”, explica. 

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Apesar de seu envolvimento com a arte ocorrer aos dois anos e meio, somente aos oito, após a morte de seu pai, Luciene começou a colocar seus dons no papel. Suas memórias, entretanto, remetem sua escrita à adolescência.

Seu marco poético e o início da construção profissionais de suas obras foi em 1987, com a morte de Carlos Drumond de Andrade. Esse momento foi marcante por uma questão especial: Luciene não era fã específica do poeta e confessa que sua paixão é mais pela prosa do que propriamente pela poesia.

“A partir desse dia comecei a escrever, de forma além da vontade, foi quando a poesia decidiu se habitar em mim. A poesia escreve de uma forma específica e ela escolhe hora e fluxo, eu escrevo em fluxo ”, confessa.

Além dos 14 livros publicados, Luciene também é autora de duas cartilhas e um calendário poético. “Cada livro meu é uma revelação muito intensa”, diz ela, ao afirmar que não tem uma obra principal e que cada um dos seus projetos tem uma importância única, como sua iniciação na poesia, primeira escrita individual, escrita de afirmação feminina.

Insânia e Dona, pelo inédito do tema, foram as obras com maior repercussão. Sendo esse último tema de uma das questões do vestibular da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).

Aliás, o fato de uma de suas obras cair em um vestibular da Unemat é visto por Luciene como uma conquista de toda literatura brasileira feita em Mato Grosso. “Agradeço profundamente a parceria da Unemat, que nos coloca como leitura obrigatória, nos coloca como questão de vestibular, nos leva como tema de estudo, de trabalho de conclusão de curso, de mestrado, de doutorado”, diz, ressaltando que o trabalho que a universidade estadual vem desenvolvendo para a escrita mato-grossense é algo nunca feito antes e dá visibilidade nacional aos poetas locais.

REOCNHECIMENTO

O primeiro impulso veio do reconhecimento do seu talento por familiares e amigos, mas a poetiza confessa que as coisas só ganharam proporção quando ela se reconheceu como escritora. “Nesse momento, o reconhecimento das pessoas e das instituições mudaram”, pontua.

Reconhecimento público mais impactante foi durante um festival promovido pela Universidade Federal de Mato Grosso, em que ela conquistou a primeiro e a segunda colocações, tanto pelo júri popular quanto pelo oficial. “Isso me deu um impacto em um momento em que eu não me acreditava”, lembra, dizendo que isso gerou uma mobilização na mídia mato-grossense que cobriu o evento e deu destaque a uma poeta iniciante.

“A vida inteira eu tenho esse olhar da mídia me fortalecendo, me dando espelhamento e norte”, diz Carvalho.

O reconhecimento acadêmico, por outro lado, faz com que a sua obra seja destrinchada e colocada em prova.

Mas, para a poeta, de todos os reconhecimentos existentes em sua jornada, o principal deles é o do leitor. “Quando o leitor se abre e permite que eu o inspire e o traga para outro lugar”, declara Luciene, ao afirmar que esse impacto com o leitor a faz seguir com suas obras.

“Cada livro tem um vínculo profundo. Minha obra principal é sempre a próxima!”

DONA, POESIA TEMA DA UNEMAT

O poema Dona, tema de uma das questões do vestibular da Unemat realizado no dia 12 de junho, nasceu de sua própria história. Ela confessa que aos 47 anos entrou em depressão, deflagrada pela dúvida e pela sensação de incapacidade de seguir com a vida e lidar com o que estava por vir. Foram dois anos procurando ajuda profissional para lhe dar com a doença.

Às vésperas de fazer 49 anos, Luciene conseguiu enxergar que se tratava da crise dos 50 e imediatamente escolheu que viveria essa transição com poesia. Passou quatro anos pesquisando quem eram essas mulheres na crise da meia idade, até publicar sua obra.

“No começo, eu as vi invisíveis, com suas sacolinhas de compras no ônibus, em pé, cansadas, trabalhando. Percebi a mudança em seus corpos, seus rostos e fui registrando as emoções disso. Aí, percebi que não conhecia nada que tivesse sido escrito sobre isso e fiz disso um ato de coragem, ao transmutar o pavor do tempo que chega e a forma como o mundo reage, em poesia”, descreve Luciene. A obra foi publicada em 14 de novembro de 2018.

Em abril de 2019, ela foi informada que essa obras havia sido selecionada para a lista de leitura obrigatória do vestibular da Unemat e confessa: “fiquei como quem voa”.

Com a inclusão da obra no rol da Unemat, Luciene começou a frequentar escolas e cursos pré-vestibulares, quando teve um momento marcante: uma estudante pediu que ela autografasse o livro em nome da sua avó e afirmou que nunca a entendeu até ler a obra. “Aí, eu percebi que talvez Dona, no vestibular, tenha sido uma sacada de diálogo geracional. Talvez eu tenha entendido também esse papel da literatura”, conclui, ao lembrar que a obra foi um marco de coragem pessoal.

 

 

 

 

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