A voz embargada e as lágrimas que saltam dos olhos mal deixam Erder Bispo descrever a sensação de ver o filho, João Bispo, selecionado para representar o Brasil no Campeonato Mundial de Karatê, que acontece na Eslovênia, em novembro. Emocionado, o pai resume a conquista em uma única palavra: alegria. Já para João Bispo, o sonho de trazer o título para casa está a R$ 15 mil de distância, mas, para os atletas do Dojô Astrissi, a norma é clara: não ir não é uma opção.
"É como eu falei: a gente já treinou, é sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, todo dia treinando, suando o kimono, correndo atrás do que quer. Então, dinheiro nós vamos atrás, vamos procurar patrocínio, vamos para a rua vender água, nós sempre damos um jeito", afirma a atleta Dielly Sales, companheira de treino de João.
"É muito gratificante ver pessoas que estão ao nosso lado, que a gente compartilha a nossa história, os nossos sonhos, ir tão longe. Era impossível e se tornou realidade", emenda o karateka João Vitor, orgulhoso do amigo.
A conquista, por outro lado, ultrapassa os tatames do dojô. João Bispo leva à Eslovênia a excelência do esporte mato-grossense e, aos jovens, um exemplo de disciplina e dedicação.
No karatê, o atleta de 19 anos começou aos seis anos de idade, em 2009. Foi vendo o irmão mais velho que se interessou pela arte. Desde então, só parou por conta de questões de saúde. Questionado, João diz que não vê sua vida sem o esporte.
"O karatê me auxilia muito na saúde, além do lado mais marcial da arte, que auxilia muito no fortalecimento do caráter, nos valores, nos princípios e a ter uma boa conduta. A conduta que se fala, conduta Samurai, a conduta de uma pessoa respeitosa, uma pessoa do bem. Eu sempre fui mais disciplinado dentro da escola, aos meus pais busquei obedecer sempre , respeitar a hirarquia, em todos os âmbitos da minha vida eu busquei colocar o karatê", narra.
O que o filho conta, o pai confirma. Erder Bispo ressalta que o karatê foi um importante auxílio na educação dos dois filhos. "O João começou a treinar mais novo e pegou mais o 'jeitão' do Karate, da disciplina, do horário. O Karatê tem um lema e fala sim: sempre esforçar-se pela formação do caráter. O caráter é uma coisa que minha mãe sempre falava. Então, eu vi no karatê um aliado na educação dos meus filhos", diz.
Para o Sensei Clóvis Astrissi, ver um atleta sair dos tatames posicionados no Shopping de Várzea Grande chegar à competição internacional é ter a certeza de que muitos outros jovens podem se beneficiar do esporte e alcançar o mundo. Em contrapartida, a falta de patrocínio e as dificuldades financeiras para levar o nome de Mato Grosso às competições mostram uma outra face do esporte: a desvalorização.
"Todo ano a gente tem um pouco de dificuldade de conseguir apoio, patrocínios, apoiadores para que a gente consiga ter êxito na participação de campeonatos que são fora do Estado e fora do Brasil. É algo assim, um pouco inexplicável até porque a gente tem um ótimo resultado. Várias vezes foi demonstrado isso para Mato Grosso e para o Brasil e todo ano a gente tem essa dificuldade. Acreditamos que faz parte do processo, temos que superar isso e a gente luta para que um dia isso seja superado", lamenta.
No caso de João Bispo, os esforços para arrecadar o montante necessário para chegar até a Eslôvenia acontecem on-line, por meio de uma vaquinha virtual, na plataforma 'vakinha', que pode ser acessada aqui ou por meio do PIX 07944660106.
ALINE SANTIAGO
João Bispo não é o único tentando alçar voos internacionais. A karateca Aline Santiago também foi selecionada para competir na Eslovênia e aguarda, ansiosamente, para trazer para casa um título feminino do esporte que mudou sua vida.
"Eu conheci o karatê por um projeto da escola e eu me interessei, mas de primeiro eu senti medo. Eu ficava próxima assistindo às aulas, fiquei um ano assistindo às aulas sem treinar. Aí eu tomei coragem e comecei, comecei no projeto, peguei faixa amarela com seis ou sete anos de idade. Aí eu parei porque o projeto em si acabou e eu perdi o contato com o karatê. Depois eu fui para o clássico, fiz ballet, fiz música, fiz outras artes marciais, só que nada encaixava, nada era perfeito para mim e aos 12 anos eu voltei para karatê, encontrei em outro projeto e daí eu não parei mais, estou até hoje", conta.
O redescoberta do karatê deu certeza a Aline de que era nos tatames do dojô que encontrava um espaço para descarregar, para se sentir completa e sonhar. Agora, o sonho de conquistar uma vitória no campeonato mundial também depende da solidariedade e da contribuição de pessoas que acreditam no esporte como um poderoso transformador de vidas.
"Só a sensação de ser convocada e entender que você tem potencial para estar lá já é um troféu de primeiro lugar. Saber que olharam para mim e falaram: Não, eu quero era lá. Na minha história, eu fui desacreditada. Desde sempre eu escutei que eu não ia conseguir, não ia viajar, perguntavam por que eu estava levando essa vida, mas eu sempre fui contra essa ideia, sempre competi e sempre corri atrás de tudo porque o karatê em si, a cada dia que você entra no dojô e finaliza um treino, você se sente campeão", finaliza.
As contribuições para a vaquinha podem ser feitas aqui.
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Rosimiere 04/10/2022
Aline é uma guerreira, dedicada e vai muito longe porq ela é capaz ???????? acreditamos no seu potencial.
1 comentários