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Itamaraty convoca embaixador da Argentina para prestar esclarecimentos após críticas de Milei

CONTEÚDO ESTADÃO
da Redação

O Ministério das Relações Exteriores anunciou neste domingo, 26, que o ministro Mauro Vieira convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para transmitir a "repulsa do governo brasileiro aos impropérios emitidos pelo presidente Javier Milei" e cobrar explicações sobre o comportamento do mandatário argentino em território brasileiro.

Também neste domingo, por determinação de Vieira, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado a consultas. No meio diplomático, a chamada de um embaixador para consultas significa um forte protesto contra ações de outro Estado. Bitelli deve chegar a Brasília na segunda-feira, 27.

"Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial", diz o Itamaraty, em nota.

No sábado, 25, Milei discursou na Convenção Nacional do Partido Liberal ao lado do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro. Milei chamou Lula de "presidiário" e Moraes de "lixo careca". O argentino também disse que Jair Bolsonaro foi preso "injustamente" e reclamou da decisão de Moraes de negar-lhe uma visita ao ex-presidente. Segundo Milei, isso demonstra o "caráter vingativo" do ministro.

No mesmo evento, Milei disse que o Brasil entrará em crise econômica causada por Lula e que espera que o petista seja derrotado nas urnas. O argentino também disse confiar em Flávio Bolsonaro para "evitar o socialismo" no país. O discurso durou cerca de meia hora.

"Eu creio que Flávio somente pode parar Lula, e trazer uma verdadeira mudança para todos os brasileiros. Creio firmemente que não há outro capaz de parar o efeito de Lula sobre o país. E não há outro para fazer de frente às organizações criminais e narcotráficos, e nisso eu confio plenamente em Flávio Bolsonaro", declarou Milei.

Sobre Moraes, o argentino completou: "O lixo não me permitiu visitar ao meu amigo injustamente encarcerado, quando eu sei que Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández".

Logo após o discurso de Milei, Lula, que discursava em um evento do PT em Campinas (SP), reclamou de gente de fora que vêm "meter o dedo" nas eleições brasileiras.

"Não venham. Eu não sou de fazer bravata, de dizer o que não posso fazer, mas vou dizer a vocês uma coisa que trago do berço, aprendida com uma mãe analfabeta. Andar de cabeça erguida, ter vergonha e caráter não encontra no shopping, não compra no Mercado Livre. Aprende com o pai e a mãe", disse o presidente brasileiro.

Também na sequência do discurso de Milei, o presidente do STF, Edson Fachin, soltou uma nota pública em resposta aos ataques do argentino e em defesa do colega.

"Tomei conhecimento da declaração do Presidente da Argentina sobre ministro do Supremo Tribunal Federal. Trata-se de referência desrespeitosa a magistrado da mais alta corte do País, feita em solo brasileiro, por ato jurisdicional praticado conforme a Constituição e as leis da República Federativa do Brasil", diz o texto.

"Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados", concluiu Fachin.

Não é a primeira vez que Milei ataca Lula. Ele também já chamou o petista de "ladrão". No entanto, nunca havia ofendido o presidente brasileiro em território nacional, o que fere protocolos das relações diplomáticas.

Ainda não há uma avaliação do governo brasileiro sobre as consequências práticas na relação política e comercial entre os dois países. Ainda assim, autoridades brasileiras preveem que haverá impacto.

(Com Agência Estado)

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