A política nasceu para organizar a vida em sociedade. Desde Aristóteles, compreende-se que o Estado deve promover o bem comum, garantir justiça e criar condições para que as pessoas vivam com dignidade. No entanto, parte da política contemporânea parece ter abandonado essa missão. Em vez de discutir emprego, renda, educação, saúde, segurança, infraestrutura e desenvolvimento econômico, muitos representantes concentram sua atuação na exploração permanente de conflitos morais, culturais e ideológicos.
A consequência é preocupante: elegemos políticos com enorme impacto nas redes sociais, mas pouca utilidade social.
Na Ciência Política, a representação democrática deve transformar demandas da sociedade em políticas públicas. O mandato existe para legislar, fiscalizar e construir soluções coletivas. Entretanto, a atividade política muitas vezes foi substituída por um permanente estado de campanha. O objetivo deixa de ser resolver problemas e passa a ser manter o eleitor mobilizado pelo medo, pela indignação e pelo conflito.
Carl Schmitt observava que a política tende à distinção entre amigo e inimigo. Nas democracias, porém, essa lógica deveria ser limitada pelas instituições, pelo diálogo e pela negociação. Hoje, o adversário frequentemente é tratado como inimigo absoluto, enquanto o debate sobre políticas públicas perde espaço para a disputa emocional.
Guy Debord descreveu a “sociedade do espetáculo”, na qual a imagem substitui a realidade. Na política digital, vídeos curtos, frases de efeito, ataques e escândalos produzem mais visibilidade do que propostas consistentes. Quem denuncia diariamente pode conquistar mais espaço do que aquele que trabalha para melhorar hospitais, estradas, escolas ou criar condições para investimentos.
Zygmunt Bauman ajuda a compreender outra dimensão do problema: relações e convicções tornam-se superficiais, enquanto informações circulam sem aprofundamento. Nesse ambiente, a polarização substitui a reflexão e o eleitor corre o risco de escolher personagens em vez de projetos.
A Psicologia Social também explica esse fenômeno. Estudos de Daniel Kahneman mostram como perdas e ameaças exercem forte influência sobre nossas decisões. A política explora esse mecanismo ao produzir a sensação permanente de que existe um inimigo prestes a destruir valores, direitos ou instituições. A desinformação reforça esse processo, fazendo emoções prevalecerem sobre evidências.
Enquanto isso, desaparecem do centro do debate questões que determinam a qualidade de vida: produtividade, inovação, logística, saneamento, segurança jurídica, educação e geração de empregos. São temas que exigem conhecimento técnico, planejamento e diálogo, mas raramente produzem a mesma viralização das guerras ideológicas.
Hannah Arendt alertou para a importância da verdade factual no espaço público. Quando fatos deixam de constituir uma referência comum, a própria capacidade da sociedade de discutir e decidir racionalmente fica comprometida.
A economia também paga essa conta. O conflito político permanente reduz a capacidade de construir consensos, realizar reformas, planejar o futuro e criar um ambiente de confiança. Instabilidade e insegurança dificultam investimentos, crescimento, emprego e renda.
Nenhum país supera a pobreza discutindo exclusivamente costumes. Nenhuma sociedade alcança desenvolvimento vencendo guerras culturais nas redes sociais. Prosperidade exige infraestrutura, educação, inovação, segurança jurídica, estabilidade institucional e responsabilidade fiscal.
Por isso, o eleitor precisa recuperar critérios objetivos para avaliar seus representantes: quais problemas reais esse político ajudou a resolver? Que resultados entregou? Que contribuição deixou para a sociedade?
Democracias fortes não são construídas por representantes especializados apenas em acusações e conflitos, mas por lideranças capazes de transformar conhecimento em políticas públicas e recursos públicos em desenvolvimento.
A política precisa voltar a servir à sociedade, e não às bolhas digitais. Caso contrário, continuaremos elegendo representantes extremamente eficientes em produzir indignação, mas profundamente ineficazes em produzir prosperidade.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Professor universitário e analista político.
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