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Artigos Quarta-feira, 08 de Julho de 2026, 10:24 - A | A

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Quarta-feira, 08 de Julho de 2026, 10h:24 - A | A

PAOLLA SILVA

O desafio que a balança não mostra

Emagrecer nem sempre significa perder medidas onde mais incomoda. Há regiões do corpo respondem mais lentamente às mudanças

PAOLLA SILVA

Há uma cena que se repete diariamente para mulheres que buscam o emagrecimento. A balança registra menos quilos, as roupas passam a entrar melhor no corpo e, finalmente, a rotina da alimentação equilibrada e atividade física se torna mais tranquila. Ainda assim, basta olhar para o espelho para ter a sensação de que alguma coisa não mudou. A barriga continua evidente, os flancos permanecem marcados e o culote parece não ter recebido o recado de que o estilo de vida mudou. Longe de representar falta de disciplina, essa situação tem explicação científica. E, mais importante, também tem caminhos para ser enfrentada. Em um cenário em que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um bilhão de pessoas vivem com obesidade, compreender como o organismo responde ao emagrecimento tornou-se cada vez mais importante.

Essa é uma das maiores frustrações de quem busca melhorar o contorno corporal e, por isso, um dos assuntos mais frequentes nos consultórios. O primeiro passo para lidar com essa realidade é compreender que o organismo não responde da mesma forma em todas as pessoas nem modifica todas as regiões do corpo na mesma velocidade.

Ao contrário do que muitos imaginam, não é possível escolher de onde o organismo retirará suas reservas de energia. Quando ocorre o emagrecimento, a mobilização da gordura segue características biológicas individuais, determinadas principalmente pela genética, pelo funcionamento hormonal e pelo metabolismo. Em outras palavras, o próprio corpo estabelece sua ordem de prioridade.

É justamente por isso que abdômen, flancos e culotes figuram entre as principais queixas femininas. Essas regiões costumam apresentar maior densidade de receptores alfa-2 adrenérgicos, estruturas que reduzem a velocidade da lipólise, o processo de quebra da gordura, quando comparadas a outras partes do corpo. O resultado é uma resposta menos perceptível, mesmo quando existe perda de peso global.

A idade também exerce influência importante. A partir dos 30 anos inicia-se um processo gradual de redução da massa muscular, conhecido como sarcopenia relacionada ao envelhecimento. Como o músculo participa diretamente do gasto energético diário, sua diminuição reduz o metabolismo basal e favorece o acúmulo de tecido adiposo quando não há ajustes na alimentação e na prática de exercícios.

Nas mulheres, essa transformação torna-se ainda mais evidente durante a transição para a menopausa. Revisões científicas publicadas na Nature Reviews Endocrinology mostram que a redução dos níveis de estrogênio modifica a distribuição da gordura corporal, favorecendo maior acúmulo na região abdominal e visceral.

Outro fator frequentemente negligenciado é o estresse crônico. A manutenção de níveis elevados de cortisol, especialmente quando associada ao sono insuficiente e ao sedentarismo, pode favorecer alterações metabólicas relacionadas ao aumento do apetite, ao maior armazenamento de energia e à maior dificuldade para reduzir medidas. Isso não significa que o estresse, isoladamente, provoque ganho de peso, mas cria um ambiente menos favorável para alcançar resultados.

Também é fundamental compreender que nem todo tecido adiposo apresenta o mesmo comportamento. A gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, costuma ser a principal preocupação estética. Já a gordura visceral, que envolve os órgãos internos, representa um importante fator de risco para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica. Embora ambas possam diminuir com hábitos saudáveis, seus mecanismos de formação e redução são diferentes.

Estudos publicados na revista Frontiers in Nutrition também reforçam que não existe um padrão único de distribuição corporal. Sexo, idade, perfil hormonal, composição corporal e características metabólicas influenciam significativamente onde a gordura tende a permanecer. Isso explica por que duas pessoas com o mesmo peso podem apresentar contornos corporais completamente diferentes.

Essa compreensão também ajuda a desfazer alguns dos maiores mitos sobre emagrecimento. Fazer centenas de abdominais fortalece a musculatura, mas não elimina gordura apenas da barriga. Da mesma forma, dietas extremamente restritivas podem reduzir rapidamente o peso na balança, mas aumentam o risco de perda de massa muscular, tornando o metabolismo menos eficiente ao longo do tempo e dificultando a manutenção dos resultados.

A boa notícia é que existem soluções. Alimentação equilibrada, treinamento de força, exercícios aeróbicos, sono adequado e controle do estresse continuam sendo as estratégias mais eficazes para promover mudanças duradouras na composição corporal. Quando essas medidas não são suficientes para determinadas regiões, procedimentos estéticos podem complementar o emagrecimento de forma segura e individualizada, potencializando os resultados sem substituir hábitos saudáveis.

A balança continua sendo importante, mas está longe de contar toda a história. A verdadeira transformação acontece quando o foco deixa de ser apenas o peso e passa a ser a saúde, a composição corporal e a construção de hábitos capazes de produzir resultados consistentes ao longo da vida.

(*) PAOLLA SILVA é biomédica

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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