Há uma cena que se repete diariamente para mulheres que buscam o emagrecimento. A balança registra menos quilos, as roupas passam a entrar melhor no corpo e, finalmente, a rotina da alimentação equilibrada e atividade física se torna mais tranquila. Ainda assim, basta olhar para o espelho para ter a sensação de que alguma coisa não mudou. A barriga continua evidente, os flancos permanecem marcados e o culote parece não ter recebido o recado de que o estilo de vida mudou. Longe de representar falta de disciplina, essa situação tem explicação científica. E, mais importante, também tem caminhos para ser enfrentada. Em um cenário em que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um bilhão de pessoas vivem com obesidade, compreender como o organismo responde ao emagrecimento tornou-se cada vez mais importante.
Essa é uma das maiores frustrações de quem busca melhorar o contorno corporal e, por isso, um dos assuntos mais frequentes nos consultórios. O primeiro passo para lidar com essa realidade é compreender que o organismo não responde da mesma forma em todas as pessoas nem modifica todas as regiões do corpo na mesma velocidade.
Ao contrário do que muitos imaginam, não é possível escolher de onde o organismo retirará suas reservas de energia. Quando ocorre o emagrecimento, a mobilização da gordura segue características biológicas individuais, determinadas principalmente pela genética, pelo funcionamento hormonal e pelo metabolismo. Em outras palavras, o próprio corpo estabelece sua ordem de prioridade.
É justamente por isso que abdômen, flancos e culotes figuram entre as principais queixas femininas. Essas regiões costumam apresentar maior densidade de receptores alfa-2 adrenérgicos, estruturas que reduzem a velocidade da lipólise, o processo de quebra da gordura, quando comparadas a outras partes do corpo. O resultado é uma resposta menos perceptível, mesmo quando existe perda de peso global.
A idade também exerce influência importante. A partir dos 30 anos inicia-se um processo gradual de redução da massa muscular, conhecido como sarcopenia relacionada ao envelhecimento. Como o músculo participa diretamente do gasto energético diário, sua diminuição reduz o metabolismo basal e favorece o acúmulo de tecido adiposo quando não há ajustes na alimentação e na prática de exercícios.
Nas mulheres, essa transformação torna-se ainda mais evidente durante a transição para a menopausa. Revisões científicas publicadas na Nature Reviews Endocrinology mostram que a redução dos níveis de estrogênio modifica a distribuição da gordura corporal, favorecendo maior acúmulo na região abdominal e visceral.
Outro fator frequentemente negligenciado é o estresse crônico. A manutenção de níveis elevados de cortisol, especialmente quando associada ao sono insuficiente e ao sedentarismo, pode favorecer alterações metabólicas relacionadas ao aumento do apetite, ao maior armazenamento de energia e à maior dificuldade para reduzir medidas. Isso não significa que o estresse, isoladamente, provoque ganho de peso, mas cria um ambiente menos favorável para alcançar resultados.
Também é fundamental compreender que nem todo tecido adiposo apresenta o mesmo comportamento. A gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, costuma ser a principal preocupação estética. Já a gordura visceral, que envolve os órgãos internos, representa um importante fator de risco para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica. Embora ambas possam diminuir com hábitos saudáveis, seus mecanismos de formação e redução são diferentes.
Estudos publicados na revista Frontiers in Nutrition também reforçam que não existe um padrão único de distribuição corporal. Sexo, idade, perfil hormonal, composição corporal e características metabólicas influenciam significativamente onde a gordura tende a permanecer. Isso explica por que duas pessoas com o mesmo peso podem apresentar contornos corporais completamente diferentes.
Essa compreensão também ajuda a desfazer alguns dos maiores mitos sobre emagrecimento. Fazer centenas de abdominais fortalece a musculatura, mas não elimina gordura apenas da barriga. Da mesma forma, dietas extremamente restritivas podem reduzir rapidamente o peso na balança, mas aumentam o risco de perda de massa muscular, tornando o metabolismo menos eficiente ao longo do tempo e dificultando a manutenção dos resultados.
A boa notícia é que existem soluções. Alimentação equilibrada, treinamento de força, exercícios aeróbicos, sono adequado e controle do estresse continuam sendo as estratégias mais eficazes para promover mudanças duradouras na composição corporal. Quando essas medidas não são suficientes para determinadas regiões, procedimentos estéticos podem complementar o emagrecimento de forma segura e individualizada, potencializando os resultados sem substituir hábitos saudáveis.
A balança continua sendo importante, mas está longe de contar toda a história. A verdadeira transformação acontece quando o foco deixa de ser apenas o peso e passa a ser a saúde, a composição corporal e a construção de hábitos capazes de produzir resultados consistentes ao longo da vida.
(*) PAOLLA SILVA é biomédica
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